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Na minha rua o buraco é mais embaixo

A crônica de Francisco Santana

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2009

Da janela do meu quarto vislumbrei um pequeno furo no asfalto, frente à nossa garagem. Com o passar dos carros, chuvas e má conservação, o buraco cresceu. Rachaduras no asfalto apareceram em torno dele transformando-o numa pequena cratera. A cratera cresceu causando coisas estranhas. Os motoristas reclamaram gastos com amortecedores, freios, vi pizzas e marmitex voando pelos ares. Muitas reclamações foram feitas e ignoradas pela prefeitura. Numa noite chuvosa um grande barulho se fez ouvir. Um idoso dirigindo seu fusca de estimação viu a roda dianteira ser tragada pela cratera que cedera. Vizinhos foram acudi-lo. Ele saiu ileso, graças a Deus os danos foram apenas materiais. Lembro-me quando ele disse: “Amanhã vou reclamar na prefeitura”.

Para evitar mais acidentes, cercamos a cratera com quatro camadas de tijolos. Mesmo assim acidentes continuaram a acontecer, por imprudência dos motoristas. Substituímos os tijolos por três cones de cores chamativas. Na manhã seguinte encontramos um cone quebrado e os outros dois desaparecidos. Então, colocamos dentro da cratera uma bananeira de porte médio. Nessa mesma semana funcionários da prefeitura compareceram ao local, interditaram parte da rua e taparam o buraco. Dois dias de serviço, muita terra, areia, paralelepípedo e novo asfalto.

Se o centro da cidade de Barbacena fosse um coração, a minha rua seria a aorta, pela ligação e proximidade. A rua é muito movimentada de veículos por interligar vários bairros e infelizmente, convivemos com carros estacionados de maneira irregular.

2019

O cenário inicial é o mesmo do ano de 2009. Da janela do meu quarto eu vejo pedaços de asfalto soltos, rachaduras e ondulações que colocam em risco motorista e carro, um caos que se instalou e que não foi devidamente reparado. Um lado positivo dessa ondulação é o acúmulo de águas onde os pássaros ficam ali para se banharem. A fenda está crescendo. Marmitex e pizzas continuam praticando salto em altura. Motoristas que já conhecem o buraco, ao se desviarem dele correm o risco de baterem nos carros estacionados. Ontem um motorista irritado ao passar sobre a cratera, parou o carro, olhou para mim e disse: “Meu senhor! Peça a prefeitura para tapar esse buraco antes que acidentes graves aconteçam!”. Preferi o silêncio enquanto ele foi embora praguejando.

Ao longo da rua pequenos reparos são realizados, mas com as fortes chuvas que caem sobre a cidade o serviço é todo perdido. Neste exato momento, 10h15 do dia 14.03.19, ouvi um barulho de uma frenagem. Corri para ver. O moto taxista freou sua moto rapidamente em cima da cratera e um saco de ração que estava mal amarrado, caiu. Ele ficou intacto, motorista nada sofreu e a moto também não. Um clima de preocupação tomou conta de todos nós, isto porque em 2009 muitos acidentes aconteceram e ficamos traumatizados com a queda do fusquinha no buraco.  

Um amigo me perguntou qual era o tema da crônica da semana. Ao lhe revelar, ele deu uma gargalhada e disse: “Chico Santana, levante as mãos para o céu e agradeça a Deus por morar no centro da cidade, chamada por você de aorta. Nada contra a sua comparação. Permita-me dizer que: se a sua rua está ligada ao coração o restante da cidade está ligada ao intestino. A cidade está abandonada!”.

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