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A propósito de eleições permeadas de descrença

Ricardo Tollendal

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“Qualquer de nós teria organizado este mundo melhor do que saiu.” –  Machado de Assis

 

(…) “essa baixa distração dos espíritos medíocres, a política” (…) – Huysman

 

É preciso admitir que nas metrópoles, e mesmo em cidades de porte médio, está cada vez mais definida a existência de territórios onde o poder público não apita coisíssima nenhuma. Lá só entram forças militares de arma na mão, sob fogo de morro abaixo ou de beco adentro.

 

Essas lamentáveis peripécias, no entanto, já não despertam o menor interesse na população porque nunca foram caminho para chegar a lugar algum. O altíssimo comando da bandidagem não reside nos guetos e jamais lá pôs os pés. Quem faz contatos internacionais e traça rotas para drogas e armas não é um subnutrido e semianalfabeto.

 

Por outro lado, entre favelados, bandidos seriam minoria se desemprego e subemprego não fizessem o possível para consolidar a marginalização dessa gente, cujo reduto deixaria de representar uma ameaça, desde que o Estado lá se tivesse feito presente. E de que maneira? Através de obras de urbanização, escola pública de tempo integral, ambulatório médico-odontológico, creche, instalações esportivas dotadas de instrutores, oficinas de arte e artesanato, cursos profissionalizantes, biblioteca e o escambau. Mais que tudo, lá como no país inteiro, falta imaginação, criatividade e a tão falada vontade política que, onde se manifestou, foi contestada com o escrotérrimo argumento de alto custo.

 

A esse núcleo se agregaria a agência bancária, o cartório de registro civil e a repartição pública pronta a expedir outros documentos de qualificação. Eis aí o ambiente que tornaria possível a esses deserdados um começo de entendimento da cidadania.

 

Em tudo isso – eu disse – o Estado teria que se antecipar à ocupação promovida pela criminalidade. No ponto a que chegou, reverter o processo exigirá esforço quintuplicado e prazo a perder de vista. Mas por que não houve ação prévia? Eis a oportunidade de colocar o pingo no ‘i’. Para começar, o Estado brasileiro, cochilando no bem-bom da burocracia enraizada até à medula e infestado do repousante nepotismo, nunca teve ímpeto para assumir a dinâmica exigida pelas grandes tarefas. Juscelino, que precisava concluir Brasília antes do fim do mandato – para não vê-la reduzida a escombros – se desvencilhou da máquina estatal e criou empresas e órgãos paralelos, maleáveis a seu ritmo avassalador.

 

Nos grandes centros, o recente fenômeno das ‘vans’ no transporte coletivo é exemplo dessa inércia: depois que se tornaram fato consumado, o poder público veio a reboque e tratou da regulamentação. A máquina do Estado é um imenso paquiderme, que se arrasta como os bichos-preguiça do Jardim Municipal de Barbacena, no meu tempo de garoto.

 

Os que gerenciam o Estado recebem a denominação de políticos. E nossas elites políticas, tanto tradicionais quanto emergentes, são ambas pervertidas pela sonolência comodista que inviabiliza o temperamento burguês. O lúcido Betinho já dizia que elas se dão por satisfeitas quando conseguem integrar cerca de metade da população. Para o projeto social que almejam, assim fica de bom tamanho. O excedente que vá se ralar nos infernos da ignorância, da economia informal e, cada vez mais, da violência.

 

Na verdade, o que deleita grande parte da classe política é brincar de gato e rato ao redor do poder e seus dividendos. Aí estão inúmeras CPIs, que dispensam maiores comentários. Enquanto o carro de roda quadrada inferniza os servidores e renuncia ao enfrentamento das leis da Física, os supostos dirigentes simulam alguns parangolés, em nome de um infeliz que atende pelo nome de interesse público.

 

Por tudo isso, uma eleição exige estarmos convictos de que, na democracia, costuma haver algum espaço para o talento. A ditadura é que se constitui em exclusividade dos medíocres. A escolha de candidatos é responsabilidade do eleitor e deve nos impor a certeza de que, além de compromissados com a dignidade ao menos por quatro anos, eles também se mostram dispostos a subscrever um programa que priorize mazelas sociais, com o ímpeto de converter roda quadrada em circunferência.

 

E a confiança de quem vota deve estar embasada na prática política que os candidatos até então adotaram. No papel e da boca pra fora, demagogos subscrevem o que lhes for conveniente, sobretudo em véspera de eleição.

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