Pauta em prosa, verso em trova (volume 86)

JGHeleno*

 

Convido vocês a ouvirem a canção “Garganta” de Ana Carolina.

Uma canção não tem seu sentido completo quando nós focamos apenas sua letra. Isso porque melodia, arranjo e letra formam um todo. Apesar disso, e consciente do que estamos fazendo, costumo focar tão somente as letras, os poemas verbais que elas constituem. Como as canções se encontram facilmente na internet, esse senão fica atenuado. Assim como há poesias que se tornam parte de uma canção quando se lhes acrescenta música, penso que o processo inverso também seja válido: extrair de uma canção aquilo que equivale a um poema: sua letra.

Ao ouvir “Garganta”, você notará um perfeito casamento entre a melodia, a voz da cantora, e a letra da canção.

Há utilização intencional da aliteração, repetição sistemática de determinados sons consoantes. O poeta Cruz e Souza tem um poema muito conhecido em que ele explora a repetição da consoante “V” (Vozes veladas, veludosas vozes, volúpia dos violões, vozes veladas…). Muitos cantores e compositores usam desse recurso. Na letra de “Garganta”, Ana Carolina faz o mesmo com fonema “R” (garganta estranha… gritar… arranha… quarto… estar). Além dessa figura, ela utiliza também uma outra chamada assonância, consistente na repetição sistemática de sons vocálicos. (vejo… desejo… azulejos), (atravesso, travesseiro, avesso, enlouqueço). Enquanto o “R”, nesta canção, acentua a animalidade do desejo, as aliterações corroboram esse objetivo, ao funcionar como uma espécie de eco de palavras portadores de sensualidade. No primeiro exemplo, “vejo” e “azulejo” acentuam o sentido de  “desejo”. Ambos os procedimentos apelam à ideia de força vital que impulsiona os seres para a aproximação, para uma quase fusão. É o instinto do convívio em sua máxima intensidade.

 

 

 

 

Letra de “Garganta”

Minha garganta estranha quando não te vejo
Me vem um desejo doido de gritar
Minha garganta arranha a tinta e os azulejos
Do teu quarto, da cozinha, da sala de estar
Minha garganta arranha a tinta e os azulejos
Do teu quarto, da cozinha, da sala de estar

Atravesso o travesseiro, te reviro pelo avesso
Tua cabeça enlouqueço, faço ela rodar
Atravesso o travesseiro, te reviro pelo avesso
Tua cabeça enlouqueço, faço ela rodar

Sei que não sou santa, as vezes vou na cara dura
As vezes ajo com candura pra te conquistar
Mas não sou beata, me criei na rua
E não mudo minha postura só pra te agradar
Mas não sou beata, me criei na rua
E não mudo minha postura só pra te agradar
Vim parar nessa cidade, por força da circunstância
Sou assim desde criança, me criei meio sem lar
Aprendi a me virar sozinha,
E se eu ‘to te dando linha é pra depois te ahh
Aprendi a me virar sozinha
E se eu ‘to te dando linha é pra depois te abandonar

Aprendi a me virar sozinha
E se eu ‘to te dando linha é pra depois te abandonar
Aprendi a me virar sozinha
E se eu ‘to te dando linha é pra depois te

Minha garganta estranha

Aprendi a me virar sozinha
E se eu ‘to te dando linha é pra depois te abandonar
Aprendi a me virar sozinha
E se eu ‘to te dando linha é pra depois te abandonar

Fonte: LyricFind

Compositores: Jose Antonio Franco Villeroy

Letra de Garganta © Universal Music Publishing Group

 

 

Como tudo termina em trova:

 

 

Performático, o sentido

se deita sobre um tear,

de terra e água vestido,

urdido e tecido de ar. (JGHeleno, 04/04/2024)

 

 

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