Por Dr. Delton Mendes Francelino, coordenador do Centro de Pesquisa em Ecologia, Saúde Pública e Mudanças climáticas; criador da Casa da Ciência e da Cultura e do Museu de Ciências Naturais Itinerante de Minas Gerais. Apoio divulgação científica: Café Soberano e Samara Autopeças
Eu me lembro perfeitamente daquele instante na abertura da Copa do Mundo de 2014, aqui no Brasil. Eu estava assistindo pela TV como milhões de pessoas, esperando o espetáculo tradicional, os símbolos, o show, o futebol. Mas, de repente, aconteceu algo que, pra mim, foi muito maior do que qualquer jogo, um homem paraplégico, usando um exoesqueleto controlado pela mente, deu o chute inaugural. Naquele momento, eu senti uma mistura de espanto e orgulho. Não sabia que haveria aquele momento antes do jogo e, ao mesmo tempo, uma tristeza silenciosa, porque eu percebi que aquele feito monumental passaria rápido demais, como se fosse só mais uma “curiosidade” no meio de uma festa. Vi ali um marco histórico e pensei, com sinceridade, que o Brasil inteiro ficaria em choque, admirado, com vontade de saber mais. Mas não foi isso que aconteceu.
O que me marcou não foi apenas a tecnologia em si, mas o que ela representava. Um exoesqueleto movido por comandos cerebrais não é um brinquedo futurista, é uma ponte evidente entre ciência e dignidade humana. É um símbolo concreto de que a pesquisa pode devolver autonomia a pessoas que, muitas vezes, são empurradas para a invisibilidade social. Aquilo era ciência aplicada, ciência com propósito, ciência como ferramenta de inclusão. E eu me perguntei, ali mesmo, por que nós, enquanto nação, não paramos para dizer em voz alta o óbvio, que aquilo era (e é) gigantesco. Isso é um “gol” que não pertence a um time, mas à humanidade.
Eu confesso que, na época, fiquei esperando uma reação nacional mais forte. Achei que escolas iriam comentar, que jornais iriam aprofundar, que as pessoas iriam conversar sobre aquilo nas ruas, nas redes, nas mesas de bar. Achei que o assunto viraria um orgulho coletivo, um tipo de consciência de que o Brasil também pode liderar tecnologia, neurociência, inovação e pesquisa de ponta. Mas o que eu vi foi o assunto se dissolvendo, sendo engolido pela rotina, pela política rasa, pelo imediatismo do entretenimento. E isso me fez perceber um problema maior, que a gente evita encarar: o Brasil ainda não foi educado, de verdade, para admirar a ciência.
“Se a população não reconhece a grandeza de um feito científico, ela também não reconhece a urgência de defendê-lo.”
Eu não estou falando de gostar de ciência como hobby, como curiosidade de documentário, como vídeo curto de internet. Eu estou falando de entender ciência como direito. Porque ciência é o que sustenta a saúde pública, o desenvolvimento de tecnologias acessíveis, a prevenção de doenças, a criação de próteses, vacinas, tratamentos e políticas públicas baseadas em evidência. E quando um país não compreende isso, ele se torna frágil: vira refém de fake news, de charlatanismo, de negacionismo, de decisões políticas que cortam verbas como se pesquisa fosse enfeite.
O que aconteceu em 2014 deveria ter sido usado como uma virada cultural. Um momento de orgulho e reflexão. Um marco para a educação brasileira olhar e dizer: “é por isso que a gente precisa de laboratório na escola pública”, “é por isso que professor precisa ser valorizado”, “é por isso que universidade pública não é gasto, é investimento”. Aquele chute não era só um gesto simbólico; era um lembrete de que o conhecimento científico tem poder real sobre o corpo, sobre a dor, sobre o futuro. Só que, em vez de virar pauta de longo prazo, virou uma cena isolada, um flash no meio da Copa.
“Ciência não é luxo de país rico.
É o caminho para um país deixar de ser pobre.”
Quanto mais eu penso nisso, mais eu entendo que a falta de admiração não é culpa simples do povo, como se fosse “desinteresse natural”. Isso é resultado de décadas de um modelo educacional que, muitas vezes, ensina ciência como decoreba e não como sentido de mundo. Um modelo que não faz o aluno perceber que o conhecimento tem impacto direto na vida dele, na família dele, no bairro dele. Quando a ciência é apresentada como algo distante, elitista e inacessível, ela deixa de ser vista como esperança. E aí, quando acontece algo como o exoesqueleto, a população assiste como quem vê um truque, não como quem presencia um salto civilizatório.
Eu não consigo olhar para aquela cena sem pensar no SUS, por exemplo. Sem pensar em quantas tecnologias poderiam ser desenvolvidas no Brasil para reabilitação, fisioterapia, neurologia, ortopedia, próteses acessíveis, tratamentos para doenças negligenciadas. Sem pensar em quantas pessoas poderiam ter mais autonomia e menos sofrimento se houvesse investimento contínuo em pesquisa. Porque a ciência, quando é fortalecida, não melhora apenas estatísticas: ela melhora a vida real. Ela reduz desigualdade social, porque permite que tecnologias não sejam privilégio de poucos, mas recurso de muitos.
Hoje, dez anos depois, eu olho para trás e penso que aquele momento ainda está vivo como símbolo. Um símbolo do que podemos ser, mas também do que estamos desperdiçando. O exoesqueleto de 2014 foi uma demonstração pública de que o Brasil tem capacidade intelectual, tem cientistas brilhantes, tem potencial para inovação. Mas também expôs nossa fragilidade cultural diante da ciência: a falta de debate, a falta de continuidade, a falta de prioridade política e a falta de educação científica de base.
“Uma sociedade que não valoriza pesquisa aprende a sobreviver, mas não aprende a evoluir.”
Eu queria que aquele chute tivesse gerado mais do que aplausos rápidos. Eu queria que tivesse gerado um movimento. Um tipo de orgulho que não se esgota em um evento, mas que vira compromisso. Porque, no fundo, a grande pergunta que ficou para mim é simples e dolorosa: como um país consegue assistir a um dos feitos científicos mais impressionantes da sua história recente e, mesmo assim, não transformar isso em uma causa nacional? E é por isso que eu continuo insistindo que precisamos educar o Brasil para a ciência. Não para formar apenas cientistas, mas para formar cidadãos capazes de defender a pesquisa como um dos pilares de uma vida mais digna, mais saudável e menos desigual.
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