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Futebol, memória afetiva e o debate interminável entre o passado e o presente

Francisco Fernandes Ladeira

 

Quem já acompanhou os (longos e muitas vezes infrutíferos) debates sobre futebol nas redes sociais deve ter percebido um excesso de valorização dos jogadores do passado – especificamente dos anos 90 e 2000 – em relação aos atletas atuais. Em grupos de discussão, jogadores e times medianos de outrora são elevados ao patamar de lendas intocáveis, enquanto nomes contemporâneos são frequentemente desdenhados.

Em visões hiperbólicas, muitos afirmam, com convicção inabalável, que aqueles times medianos do passado venceriam todos os campeonatos atuais; que aqueles jogadores apenas esforçados do passado seriam titulares absolutos na seleção brasileira hoje. A pergunta que ecoa, então, é: trata-se do legítimo “futebol raiz” versus o “futebol nutella”? Ou é puro excesso de nostalgia, memória afetiva, uma infância não superada ou um passado idealizado?

A ironia mais profunda desse fenômeno está no seu caráter cíclico. Quando eu era criança, nas décadas de 80 e 90, lembro de ouvir discursos idênticos dos adultos da época. Algo tipo “os jogadores de hoje não prestam”, “morreu o futebol arte”, “agora só jogam por dinheiro”, “são clubes mecânicos sem alma”. E sempre o argumento final e incontestável: “Quem viu Pelé e Garrincha não aguenta assistir a esses jogos modernos”. O mesmo espanto, a mesma sensação de perda, o mesmo olhar para trás como um paraíso perdido.

O que está em jogo aqui vai muito além da análise tática ou estatística. É a força brutal da memória afetiva. O futebol que muitos assistem na infância e adolescência não é apenas um esporte; é o marco de uma época. Está ligado à voz do narrador no rádio da cozinha, ao domingo em família, às primeiras emoções coletivas. O jogador raçudo, muitas vezes limitado tecnicamente, é glorificado porque personificava a “garra” – uma virtude que ressoa com os valores que nos eram ensinados.

A nostalgia, por natureza, é uma máquina de edição seletiva. Ela apaga os passes errados, os jogos tediosos, as goleadas sofridas. Mantém em cores vivas apenas os lances espetaculares, os gols decisivos, a celebração eufórica. O passado é comparado ao presente em termos desleais: comparamos o melhor do que já foi (e que lembramos) com a totalidade do que é agora (com seus erros e acertos em alta definição). O jogo de 1985, transmitido em sinal fraco e visto em uma TV de tubo, tinha uma aura mítica. O jogo de 2026, em 4K, com replays infinitos e análises táticas em tempo real, perde a magia e ganha uma crueza que desencanta.

Há, claro, mudanças objetivas no futebol. A preparação física é outra, a tática é mais coletiva e menos dependente de individualidades, o ritmo é mais intenso, os erros são menos tolerados. O “futebol arte” espontâneo e romântico deu lugar a um “futebol-ciência” altamente planejado, que busca resultados. Isso não significa que um seja inerentemente melhor ou pior – são apenas diferentes. O jogador moderno é um atleta completo; o de outrora, muitas vezes, era um artista com defeitos. Qual é mais emocionante? A resposta está no olhar de quem vê, e esse olhar é forjado na infância.

Por isso o ciclo é inevitável. Daqui a duas décadas, ouviremos a mesma ladainha. Os adultos de 2046, hoje crianças e adolescentes, estarão nas redes sociais (ou no que as substituir) defendendo com unhas e dentes que “bom mesmo era no tempo de Messi e Cristiano Ronaldo”. Que o futebol de verdade morreu em 2023. Neymar Jr., hoje alvo de críticas, era um gênio incompreendido. O time mediano de 2022 tinha uma “identidade” que os robôs do futuro não terão. E por aí vai!

 

NOTA DA REDAÇÃO: Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas (IFMG) – campus Ouro Preto. Autor dos livros “A ideologia dos noticiários internacionais” (volumes 1 e 2)

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