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A humanidade poderá habitar outros lugares do universo algum dia?

Por Doutor Delton Mendes Francelino, coordenador e criador da Casa da Ciência e da Cultura, do Instituto Curupira e do Centro de Pesquisa em Ecologia, Saúde Pública e Mudanças Climáticas. 

Faço este artigo para facilitar meu público, que tem me acompanhado no Observatório Astronômico, e outras instituições, e que sempre fazem perguntas ótimas sobre o tema, e claro, também para os leitores em geral do jornal. Qualquer dúvida, estou à disposição.

Bom, primeiramente, precisamos nos perguntar sobre a origem da vida e se ela pode surgir em outras “partes” do universo, dúvidas que acompanham a humanidade desde a Antiguidade. A ciência contemporânea deu passos extraordinários para compreender os mecanismos responsáveis pelo surgimento, Evolução e adaptação de organismos vivos, mas ainda estamos longe de confirmar qualquer forma de vida fora da Terra. 

Neste artigo, discuto três eixos fundamentais: 1) a definição científica de vida atualmente, de forma simplificada; 2) a busca por organismos basais no Sistema Solar e em exoplanetas; 3) e as razões pelas quais a vida complexa, tal como conhecemos, é improvável fora de nosso planeta, ao menos até onde alcança o conhecimento atual. Em seguida, abordo os limites da especulação e o desafio tecnológico para um futuro em que a humanidade possa habitar outros mundos.

  • Vamos lá? O que é vida para a ciência hoje

Definir vida é um dos maiores desafios da biologia moderna. Em termos amplos, vida é entendida como conjunto de sistemas capazes de manter homeostase (quando o organismo mantém constantes as condições internas necessárias para a vida) metabolizar energia, responder a estímulos, reproduzir-se e evoluir por meio dos mecanismos Darwinianos. 

Essa definição abrange desde bactérias até seres pluricelulares, passando por organismos que ocupam nichos extremos, como arqueias que vivem em fontes hidrotermais (que são muito quentes). A ciência atual também incorpora a bioquímica como critério, uma vez que toda vida conhecida é baseada em carbono, utiliza água (em qual nível) como solvente e codifica informação por moléculas como DNA ou RNA. Ainda que alguns estudiosos explorem “bioquímicas alternativas”, nenhuma forma não terráquea foi comprovada. E isso remete dizer que, sim, toda essa história de discos voadores, seres verdes e de olhos vermelhos, ou cinzas, embora muito populares, até hoje não trouxe qualquer evidência que possamos estudar e comprovar. A verdade é que, ao contrário disso, comprovamos várias falsidades desde a década de 40. 

  1. E como está a busca por vida simples no Sistema Solar e em exoplanetas: a chamada ‘Astrobiologia’

As investigações astrobiológicas concentram-se na procura de formas de vida basais, microbianas, unicelulares, simples, por serem as mais abundantes, resistentes e prováveis; em menor escala, em busca também por vida inteligente, com outros mecanismos científicos. Em nosso Sistema Solar, os alvos principais são mundos com água passada ou presente, energia química ou geológica e proteção mínima contra radiação. Marte, Europa (lua de Júpiter) e Enceladus (lua de Saturno) são candidatos centrais, especialmente porque apresentam indícios de água subterrânea. Missões recentes analisam moléculas orgânicas, minerais relacionados à água e possíveis assinaturas químicas que poderiam estar associadas à vida microbiana (como no planeta Marte, em 2025).

Fora do Sistema Solar, telescópios como o James Webb buscam exoplanetas nas chamadas zonas habitáveis de estrelas, nos quais a temperatura permitiria água líquida (este é um dos fatores). Espectros atmosféricos podem revelar gases potencialmente biológicos, com oxigênio, metano ou combinações incompatíveis com equilíbrios químicos abióticos. Ainda assim, interpretar essas assinaturas é complexo e repleto de incertezas.

  1. Por que é improvável encontrar vida complexa como a da Terra

Mesmo que a vida exista em outro ambiente, a chance de ela apresentar complexidade semelhante à dos animais terrestres é extremamente baixa. A evolução de organismos multicelulares, com estruturas avançadas e sistemas nervosos sofisticados, exigiu condições muito específicas, como a estabilidade climática por centenas de milhões de anos, abundância de oxigênio, placas tectônicas regulando o clima global, magnetosfera protetora (campo magnético), ciclos químicos delicados e eventos evolutivos contingentes. A Terra ofereceu equilíbrio raro, cabe dizer, entre instabilidade criativa e estabilidade prolongada. Assim, embora microrganismos possam surgir em lugares diversos, “formas de vida avançada” dependem de combinação improvável de fatores ambientais, químicos e geológicos. Ou seja, embora tenhamos sim incontáveis quantidades de mundos fora da Terra, é altamente provável que poucos deles, em escala desconhecida, tenha condições similares à da Terra e o tempo de estabilidade climática encontrada aqui. 

  1. Entre evidências e falsas promessas: muita atenção!

Até o momento, não confirmamos vida em nenhum lugar além da Terra,  nem em Marte (apesar da divulgação da NASA em 2025), nem em luas oceânicas, tampouco em qualquer exoplaneta. O campo floresce em especulações, e frequentemente surgem manchetes sensacionalistas ou interpretações equivocadas de dados preliminares. Muitos sinais considerados “promissores” acabam sendo explicados por processos não biológicos. A ausência de provas concretas exige que a ciência mantenha rigor metodológico, ceticismo e análises replicáveis. É fundamental separar pesquisa séria de conjecturas apressadas e de alegações pseudocientíficas que exploram o fascínio público por vida extraterrestre.

  1. A tecnologia necessária para habitarmos outros mundos

Se a humanidade desejar um dia viver fora da Terra, seja em Marte, em luas de Júpiter ou Saturno, ou até ao redor de outras estrelas, terá de desenvolver tecnologia em escala inédita. Seriam necessárias soluções para radiação extrema, temperaturas baixíssimas, ausência de atmosfera respirável, produção sustentável de alimentos, reciclagem total de recursos e meios de transporte interestelar. Mesmo a colonização de corpos relativamente próximos, como Europa ou Titã, exigiria habitats completamente selados, engenharia avançada e fontes de energia altamente eficientes. Explorar outros mundos não é apenas uma questão científica, mas de infraestrutura, engenharia e sobrevivência.

Logo, a busca por vida além da Terra é uma das fronteiras mais fascinantes da ciência contemporânea. Sabemos hoje o que caracteriza a vida e conhecemos ambientes (inclusive em modelos científicos) que poderiam sustentá-la, mas ainda não encontramos evidências conclusivas. Enquanto isso, permanecemos no limiar entre conhecimento e especulação. Para expandir nossa presença no cosmos, será preciso mais do que curiosidade, precisaremos de tecnologia robusta, rigor científico e  compreensão profunda de como a vida,  tão rara e frágil, floresce em nosso planeta. Também, como sempre digo: precisamos diminuir as desigualdades sociais e as problemáticas ambientais da Terra, senão, a exploração espacial será apenas mais uma expressão de poder e geração de conflitos. 

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Algumas fontes para fácil leitura extra e vídeos gratuitos da USP: 

Marte, mais parecido com a Terra : Revista Pesquisa Fapesp 

Astronomia: uma visão geral (curso em vídeo) | Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas 

        Para contato com a Casa da Ciência e da Cultura, basta enviar mensagem via whatsapp: (32) 98451 9914, ou Instagram: @casadacienciaedacultura/ @delton.mendes. O site é: www.casadacienciaedacultura.com.br

Apoio Divulgação Científica: Samara Autopeças e Café Soberano

 

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