Por Maria Solange Lucindo Magno – professora e pedagoga
Este texto é baseado em alguns artigos lidos por mim e trata-se de um tema bem atual e preocupante.
“Reze por mim”: este é um clamor que frequentemente ouvimos dos padres, bispos e agora recente, do Papa Leão XIV ao sair em viagem para a África. O Papa Francisco fazia sempre o mesmo pedido.
Chamou a minha atenção a seguinte indagação: Por que os padres estão adoecendo em silêncio? O que os aflige tanto? Por que tantos têm tirado a própria vida? Enquanto a população brasileira registra 8 suicídios a cada 100 mil pessoas, entre os sacerdotes esse número chega a 23 a cada 100 mil. Ou seja, três vezes mais, de acordo com levantamentos.
Incorremos no erro de pensar que um padre não pode sofrer de depressão, ter fraquezas. Eu mesma fiquei perplexa ao saber da depressão que o padre Marcelo Rossi enfrentou há pouco mais de 10 anos. Cheguei a dizer que não conseguia entender como um padre que ajudava a tanta gente com sua espiritualidade pudesse chegar ao “fundo do poço”. Desde bem criança frequentei igrejas, fui criada na igreja católica e via os padres como seres especiais, sabedores de todas as verdades, pessoas fortes e com o poder de Deus. Demorou para que eu passasse a vê-los como pessoas normais, sujeitas a falhas, fraquezas e a sofrimentos. Tempos depois me redimi de tamanha ignorância. Crescemos com a ideia de que um sacerdote é alguém detentor de muita fortaleza.
É normal que admiremos mais um ou outro padre. Suas homilias e pregações, seu jeito de lidar com os fiéis, nos cativam. Erroneamente, pensamos que padres nunca se cansam e que estão sempre disponíveis. Porém, a realidade é outra: terminada a sua missão do momento, o padre fica só e ninguém nada sabe sobre o peso que ele carrega, sobre o silêncio que o torna adoecido.
Num levantamento recente constatou-se que 43 padres tiraram a própria vida ao longo de dez anos. É preciso que saibamos o que os tornam tão vulneráveis. Que encargos são esses que os levam a ato tão extremo? Como podemos ajudar?
O falecimento do padre Pedro Luís Vilela Ribeiro, 40 anos, que foi encontrado morto dentro do terreno da Paróquia São Jorge, em Curitiba, causou apreensão em vários sacerdotes país afora. Segundo pessoas próximas, ele deixou uma carta de despedida. Ao comentarem nas redes sociais, os sacerdotes expressaram um desabafo: “Precisamos que Deus cuide de nós, mas é preciso também que cuidemos uns dos outros”. Tem se tornado recorrente notícias sobre suicídio de padres.
O padre Lício de Araújo Vale, especialista em suicídio, entre outras coisas, disse que “a pessoa que atenta contra a própria vida, não quer matar a sua vida, mas quer matar a sua dor, a dor mental, a dor emocional, que para aquela pessoa, beira as raias do insuportável…” Reflitamos sobre o fato de que é preciso cuidar de quem cuida.
Padre Lício aponta três fatores de risco que, combinados, resumem a vida sacerdotal: estresse ocupacional, solidão e cobrança excessiva de si mesmo.
Um padre está sempre envolvido com celebrações, confissões, reuniões, visitas e outros afins. Dificilmente lhe sobra tempo para ser ele mesmo. Ainda assim, o que faz é criticado, não agrada a uns e outros e se vê enredado em fofocas ou pedidos para que sejam tirados de determinadas comunidades. Ele não se permite ter dúvidas e medos sem que isso gere julgamentos.
Quase todos os padres moram sozinhos. Alguns poucos moram com as mães ou algum outro familiar. Eles são queridos e exigidos pelas pessoas, mas poucas se relacionam com a sua pessoa. O padre é cobrado pelo povo, pela hierarquia, mas a cobrança maior é aquela que ele impõe a si mesmo.
Alguns deixam o sacerdócio e, segundo pesquisas, ao contrário do que muitos pensam, o motivo na maioria das vezes não é porque se apaixonaram. O principal motivo é o vazio que é sentido há bastante tempo originado da frustração quanto ao desenvolvimento de suas funções. Enquanto preferem evangelizar, pois ingressam na vida religiosa para esse fim, são sobrecarregados com funções burocráticas e a gestão financeira da igreja. Tornam-se mais um prestador de serviços que um pastor. Passam a ver seus superiores como chefes e não como pais espirituais e sentem esse distanciamento. E talvez não sejam preparados para conviver com a realidade do mundo atual e nem para a solidão do celibato.
A questão celibatária é outro grande tabu que cerca a vida sacerdotal.
As pesquisas ainda apontam a “solidão funcional” como um fenômeno mais comum: apesar de o padre viver cercado de pessoas, sente-se profundamente só e, não encontrando acolhimento dentro da igreja, passa a procurá-lo fora.
Dessa forma, muitos padres são acometidos pela depressão. E é quando nós não levamos a sério esse estado porque vemos o padre como alguém forte que tem o dever de passar confiança. Nós também erramos em vez de ajudar, pois até mesmo Jesus Cristo teve os seus momentos de angústia.
O grande exemplo de um padre que conseguiu voltar de seu estado depressivo é o do padre Patrick Fernandes, de 37 anos. Ele disse não conseguir mais e se isolou totalmente. Mas fez tratamento psicológico, o que o ajudou na superação.
Padre Patrick se recuperou com o tratamento, a fé e se valeu também do humor. Desde o período da pandemia, durante o isolamento, ele começou a interagir com as pessoas, respondendo perguntas, sempre com humor. No período da depressão ele se isolou e não queria conviver com ninguém. Agora ele convive com as pessoas interagindo com elas na sua página do Instagram. Eu mesma cheguei a segui-lo por um tempo. Ele tem rodado o Brasil com o show de pregação “É Pecado Não Rir” e em sua igreja agora não faltam pessoas.
É reconhecido que alguns sacerdotes fazem um belo trabalho de evangelização através das redes sociais, porém, padres midiáticos não me atraem, mas respeito quem se identifica. Na minha opinião, sua função evangelizadora dentro da comunidade em que atua já lhe toma bastante tempo. Considero ainda que a igreja católica tem sido tolerante com alguns padres que extrapolam na sua exposição, a começar por suas vestes e performances nos palcos e nas redes sociais, excesso de vaidade, pouco ou nenhum uso da batina e raramente celebrando uma missa. Há aqueles que só convivem com celebridades e outros ainda que se envolvem em polêmicas. Não é radicalismo de minha parte, mas a minha crença do que é o exercício do sacerdócio.
Muitos seminários adotam São José como padroeiro, pois ele suportou em silêncio todas as dúvidas inexplicáveis que teve, a começar pela gravidez de Maria. O sacerdócio carrega muito desse silêncio como, por exemplo, os questionamentos que padres fazem a si mesmos: preciso ouvir uma confissão que dura várias horas? No meu dia de folga preciso celebrar missa para poucas pessoas? O que eu sinto quando um idoso morre sozinho, sem um familiar, e eu sou o único presente? Se eu tiver um mal-estar no altar, serei acudido? Ninguém percebe as aflições do padre, pois ele é tido como alguém totalmente no controle, sem fragilidades.
O que pode ser feito quando notamos sinais de que algo não vai tão bem com o padre? Podemos incentivar para que ele se cuide ao percebermos que está desmotivado, se isola com frequência ou está mais introspectivo.
Talvez seja preciso mesmo repensar o que esperamos de um sacerdote. Há três anos fui a Aparecida comemorar lá o meu aniversário. Eu conhecia muitos padres por acompanhar as missas pelas redes sociais e alguns admirava sobremaneira. Ao final da primeira missa que assisti no Santuário, pedi ao padre animador que tirasse uma foto comigo. Ele foi ríspido e me respondeu: “Tira, mas não demora muito”. Eu me senti uma idiota e deveria ter dispensado, porém, tirei a foto com aquele padre mal-humorado. Eu errei, pois o fiz se sentir muito importante, até mais do que eu. No ano passado, também no dia do meu aniversário, numa igreja fora de Barbacena, quis receber uma bênção do padre e pedi aos seus auxiliares que falassem com ele. Bem, ele mandou dizer a mim que já havia abençoado a todos no final da missa e que não haveria necessidade de eu receber uma bênção especial. Fiquei decepcionada, claro, pois na minha cidade sempre pedi e nunca me foi negado. Gestos assim ou palavras ditas de qualquer maneira podem também afastar fiéis.
Estar emocionalmente exaustos não é coisa recente. Já em 2008 um número significativo de padres e freiras se sentiam assim, o que foi comprovado também numa pesquisa. E numa época em que redes sociais mal existiam.
Atualmente, mais da metade dos sacerdotes sofre com depressão; 65% relatam solidão; Burnout, ansiedade e esgotamento são comuns, em função de jornadas exaustivas, múltiplas funções e pressão constante, além de terem que administrar conflitos dentro da igreja.
A rotina de um sacerdote é extensa: missas, batizados, casamentos, visitas a doentes, orientação pastoral, administração da paróquia. São poucos os padres para tantas pessoas e tantas funções. De acordo com o Papa Leão XIV, padres não são funcionários e, sim, filhos amados e pastores sustentados pela oração de seu povo.
Sacerdotes enfrentam seus limites humanos. Eles ouvem as pessoas, aconselham, guiam e ao voltarem para casa, se conscientizam de sua fragilidade, frustração e solidão, e na maioria das vezes, sozinhos. A vocação de serviço e amor não os tornam imunes às angústias comuns a todos.
Lembre-se de rezar por um sacerdote hoje, principalmente por nosso Papa que agora está na mira de um insano que o critica sem piedade e quer se comparar a Jesus.










