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Ensinar Geografia a partir de quem vive o espaço

Francisco Fernandes Ladeira

 

Nos últimos anos, a Geografia das Juventudes tem emergido como um campo de estudos que analisa as vivências, espacialidades, culturas e interações dos jovens com o ambiente físico-social em diferentes escalas. As pesquisas nessa área focam em entender os jovens não apenas como alunos, mas como sujeitos espaciais que produzem cultura e interagem com o território, abordando suas experiências nos espaços urbanos, rurais, de lazer e de ensino. Neste texto, defende-se que a consolidação da Geografia das Juventudes no âmbito escolar requer não apenas a incorporação teórica do conceito de juventudes no plural, mas, sobretudo, a adoção de abordagens metodológicas que coloquem as espacialidades vividas pelos jovens no centro do processo de ensino-aprendizagem, articulando currículo, escuta ativa e práticas investigativas.

Segundo autores como Victor Nedel Oliveira e Nécio Turra Neto, o conceito de juventude em Geografia é frequentemente abordado no plural – como juventudes –, não se limitando a uma faixa etária biológica. Esse conceito é entendido como uma construção social e espacial, que varia de acordo com o contexto histórico, econômico e cultural, sendo profundamente influenciado pelo espaço geográfico onde o jovem vive. Nesse sentido, conforme Helena Abramo, um conceito fundamental para abordarmos a temática das juventudes é a ideia de “situação juvenil”, que se refere às múltiplas formas como a condição juvenil é vivenciada nas diferentes realidades da sociedade.

Em estudo sobre o estado do conhecimento das pesquisas sobre juventudes na Geografia brasileira, Matheus Henriques constatou que esse campo está em um processo de consolidação, com um crescimento de disciplinas universitárias, eventos acadêmicos, grupos de estudo e publicações científicas. Nesse último ponto, o recorte temático principal é o territorial, o que evidencia a ênfase na relação entre juventude e espaço geográfico, seguida pela área de ensino, confirmando a forte ligação do campo com o ambiente escolar e a Educação Geográfica. O cenário predominante das investigações é a cidade e a escola.

No que tange à Educação Geográfica, os estudos sobre juventudes urbanas demonstram a potencialidade de utilizar o espaço vivido do aluno como ponto de partida para a análise geográfica dos conteúdos, organizados em habilidades, como a segregação socioespacial, a mobilidade urbana, a violência, ou as manifestações culturais e políticas que ocorrem no território da cidade. Para que essa potencialidade se concretize, é fundamental adotar metodologias que privilegiem a escuta e a participação ativa dos jovens. Entre elas, destacam-se: a cartografia participativa, por meio da qual os alunos mapeiam seus itinerários cotidianos, lugares de medo e de afeto; as saídas de campo orientadas por narrativas espaciais, em que os jovens atuam como guias de seus próprios territórios; e a pesquisa-ação escolar, que envolve os estudantes na identificação e na proposição de soluções para problemas socioespaciais da comunidade.

Um exemplo concreto seria propor a construção de mapas afetivos do bairro, nos quais os jovens registram, por meio de desenhos, fotografias ou relatos, os lugares onde se sentem pertencentes ou excluídos, relacionando essas vivências aos conceitos de território e cidadania. Diante dessa realidade, o desafio que se coloca aos educadores é o de transcender a mera descrição da cidade, promovendo um ensino que estimule os jovens a reconhecerem e a entender que estão ativos nas suas múltiplas territorialidades. No entanto, como adverte Victor Nedel Oliveira, é crucial que a Geografia contribua para que os alunos não apenas identifiquem os processos de produção e apropriação do espaço urbano – como a luta pelo direito ao lazer –, mas que também se sintam parte da construção dessa geografia e capazes de se posicionar criticamente sobre ela.

Lembrando as palavras de Matheus Henriques, quando falamos de juventudes e do ensino de Geografia, não estamos abordando apenas os conteúdos escolares e suas metodologias, mas fenômenos que extrapolam as “paredes” da escola. Dessa forma, surgem novas e auspiciosas possibilidades para se trabalhar em sala de aula os conceitos-chave da ciência geográfica: espaço, paisagem, território e lugar.

Levando em consideração que o espaço geográfico é o objeto de estudo da Geografia, escutar as juventudes traz consigo as diversas relações dos jovens com o espaço, buscando entender inúmeras questões, desde os lugares de pertencimento e não pertencimento até as relações de disputas territoriais. Igualmente relevantes são as noções de rede e escala, pois as experiências juvenis articulam-se frequentemente em redes de sociabilidade – presenciais e digitais – que conectam o local ao global. Compreender como os jovens se organizam em redes permite ao professor explorar fenômenos como os fluxos migratórios, as mobilidades pendulares ou as conexões estabelecidas por meio das tecnologias digitais, ampliando a análise para além do recorte local. Dessa forma, ao aproximar-se das juventudes e de suas territorialidades, o professor de Geografia abre espaço para uma prática educativa em que o conteúdo escolar deixa de vir de fora e passa a ser construído em diálogo com os sujeitos.

Ao relacionar o estudo das juventudes com a paisagem, é possível captar os elementos visíveis, mas também os invisíveis – isto é, os significados que os jovens atribuem a essas formas. Assim, a paisagem deixa de ser apenas um recorte visual e se transforma em uma construção simbólica, carregando memórias, afetos e práticas culturais. Além disso, estudar os jovens atrelados ao conceito de lugar significa compreender como esses sujeitos se apropriam e significam os espaços. Segundo Victor Nedel Oliveira, quando relacionado aos jovens, o conceito de território é entendido como o espaço de apropriação, de posse, de pertencimento. As distintas territorialidades urbanas demarcadas pelos jovens constituem-se em uma rede de espaços de posse, na qual a cidade é cenário e partícipe ao mesmo tempo. Lugares e territórios, portanto, fazem parte da constituição urbana dos sujeitos, em especial dos sujeitos jovens.

Além das espacialidades físicas, as juventudes contemporâneas constroem e habitam intensamente os espaços virtuais. As redes sociais, os aplicativos de geolocalização e as comunidades digitais configuram novas territorialidades que não se limitam à contiguidade territorial, mas que produzem pertencimento, disputas simbólicas e formas de ação política. Para a Geografia Escolar, isso significa incorporar a análise desses espaços como parte do espaço geográfico, discutindo, por exemplo, como as plataformas digitais influenciam a percepção do lugar, a segregação socioespacial e o direito à cidade.

Seguindo essa linha de raciocínio, Natanael Bonfim argumenta que a relação dos jovens com o território é fundamental e suas práticas devem ser pensadas como manifestações de uma cidadania ativa, principalmente quando se constata que as desigualdades sociais também são características desse contexto. Por exemplo, jovens de classes populares muitas vezes encontram dificuldades para acessar determinados espaços da cidade, seja por falta de infraestrutura, por custo elevado ou até mesmo por práticas discriminatórias. Ao mesmo tempo, criam novas territorialidades, ressignificando praças, ruas e espaços periféricos com diferentes manifestações culturais. Dessa forma, Clarice Cassab afirma que o espaço geográfico não é entendido apenas como palco onde ocorrem interações sociais e políticas, mas como um elemento ativo na construção das identidades juvenis.

Em suma, o campo da Geografia Escolar se apresenta como uma via estratégica para pensar e pesquisar as juventudes, sobretudo quando se leva em consideração realidades como o Ensino Médio e a Educação de Jovens e Adultos (EJA), nas quais esses sujeitos estão inseridos. Como bem pontuou Victor Nedel Oliveira, a pesquisa com jovens nos ajuda a entender questões que são pouco abordadas dentro dos currículos escolares. Contudo, para que essa compreensão se traduza em práticas efetivas, é necessário que os currículos oficiais – a exemplo da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – sejam lidos e mobilizados de forma crítica, reconhecendo nas competências e habilidades espaços para a inserção das temáticas juvenis, como o estudo dos lugares de vivência, das territorialidades urbanas e da cidadania participativa.

Nesse processo, a formação de professores assume papel central – tanto a inicial quanto a continuada. É imprescindível que os futuros docentes tenham contato com os fundamentos teóricos e metodológicos da Geografia das Juventudes, desenvolvendo sensibilidade para escutar os alunos e para co-construir o conhecimento geográfico a partir de suas experiências. Como já nos ensinou Paulo Freire, é fundamental que o professor respeite os saberes dos educandos, os quais trazem consigo uma bagagem de conhecimentos adquiridos por meio de suas experiências de vida. Tais saberes, de acordo com Freire, devem ser valorizados e incorporados ao processo educativo.

Dessa forma, conhecendo melhor nossos alunos e seus múltiplos modos de habitar o espaço, conseguiremos utilizar estratégias didático-metodológicas mais assertivas, contribuindo para que a produção das diversas geografias na escola seja, de fato, significativa e comprometida com a formação de sujeitos críticos e ativos.

 

NOTA DA REDAÇÃO: Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp. Autor do livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV)

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