Por: Doutor Delton Mendes Francelino, criador e diretor da Casa da Ciência e da Cultura, Coordenador Científico do Centro de Pesquisa em Ecologia, Saúde Pública e Mudanças Climáticas de Minas Gerais, e Diretor do Instituto Curupira.
Historicamente, a vacinação é a ferramenta de saúde pública mais eficaz da humanidade, tendo sido responsável pela erradicação da varíola e pelo controle de doenças antes devastadoras, como a poliomielite e o sarampo. No Brasil, o sucesso de campanhas passadas eliminou a paralisia infantil e reduziu drasticamente a mortalidade por doenças como o tétano e a rubéola. Atualmente, esse mesmo esforço científico é direcionado ao controle da COVID-19, que, embora não esteja mais em fase de emergência global, continua sendo um desafio de saúde que exige vigilância constante e atualização tecnológica rigorosa.
O surgimento das primeiras vacinas contra a COVID-19, em tempo recorde, foi resposta direta à letalidade da cepa original de Wuhan (China). No entanto, o SARS-CoV-2 provou ser um alvo móvel, sofrendo mutações constantes que deram origem a variantes como a Delta e, posteriormente, a linhagem Ômicron e suas subvariantes (como a XBB e a JN.1). Essas mutações alteraram a proteína Spike do vírus, que é o “gancho” que ele utiliza para invadir as células humanas, digamos, tornando as formulações vacinais de 2021 gradualmente menos eficazes contra a infecção e exigindo que a Ciência se adaptasse na mesma velocidade.
Nesse processo de evolução, as vacinas de RNA mensageiro consolidaram-se como as mais avançadas pela rapidez de reprogramação, mas o grande destaque em 2026 é a SpiN-TEC, a primeira vacina 100% brasileira desenvolvida pelo CT Vacinas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), universidade onde, orgulhosamente, fiz meu Doutorado e meu Pós Doutorado. Ao contrário das fórmulas iniciais, a tecnologia da UFMG utiliza uma proteína quimérica que ataca não apenas a proteína Spike, mas também a proteína Nucleocapsídeo (N) (de acordo com estudos publicados que tive acesso), que sofre muito menos mutações. Isso confere ao imunizante mineiro uma capacidade única de gerar uma resposta imune mais robusta e duradoura contra as variantes mais atuais.
Por outro lado, o avanço do conhecimento científico e a vigilância de segurança também levaram ao encerramento de certas linhas de produção de 2021. Vacinas de vetor viral, como as da AstraZeneca e Janssen, que foram pilares no início da imunização, acabaram sendo descontinuadas ou substituídas em muitos países. Isso ocorreu tanto pela dificuldade logística de atualização rápida frente às novas variantes quanto pela identificação de eventos adversos raríssimos, o que demonstrou que a Ciência é um processo rigoroso de autocorreção, ou seja, quando uma opção melhor e mais segura surge, a anterior é deixada de lado em prol do bem-estar coletivo. Isso não é demérito para a Ciência, pelo contrário, revela ainda mais a sua coerência e capacidade de adaptação à medida que mais estudos eficazes surgem.
A resistência à vacinação, muitas vezes alimentada pela desinformação, revela a urgência de uma maior alfabetização científica na sociedade. Compreender que a Ciência não trabalha com verdades absolutas e imutáveis, mas com evidências que se atualizam, é o primeiro passo para combater o negacionismo. Quando um cidadão entende o porquê de uma vacina ser substituída ou por que o trabalho de instituições como a UFMG é vital para a soberania nacional, ele deixa de ser um receptor passivo de informações e torna-se um agente consciente da sua própria saúde.
Em última análise, a vacinação é um pacto social. Assim como no passado vencemos doenças que assombravam gerações, o controle da COVID-19 em 2026 depende da confiança nas instituições de pesquisa e na adesão aos calendários atualizados. A Ciência oferece as ferramentas para uma vida longa e saudável, mas cabe à sociedade o papel fundamental de abraçar esses avanços tecnológicos brasileiros e globais, garantindo que o conhecimento vença o medo e que as conquistas da medicina continuem salvando milhões de vidas ao redor do mundo.
Apoio Divulgação Científica: Samara Autopeças e Café Soberano











