Tarzã e Moisés eram lusitanos?

Jairo Attademo

A PRINCESA CALIPSO

A lenda portuguesa de hoje mistura elementos que serão reconhecidos pelas semelhanças que trazem com acontecimentos vistos em outras histórias até mais famosas.

Que tal começarmos pelos personagens, antes de enredá-los na trama?

Apresento-vos os seguintes personagens.

O primeiro é Gorgoris, um dos reis da Lusitânia, filho do lendário rei Eritreu, da Hispânia.Tinha o apelido de Melícola, por ter iniciado a produção de mel nas terras que governou.

O segundo é Abidis, neto de Gorgoris, considerado divindade na mitologia dos celtíberos, o povo meio celta e meio ibérico que viveu na região da Lusitânia.

A terceira é Calipso, filha do rei Gorgoris e mãe de Abidis. Calipso é o nome de uma semideusa da mitologia grega que teria se apaixonado por Ulisses, o próximo personagem.

O REI GORGORIS

Ulisses foi um lendário guerreiro, rei da ilha grega de Ítaca, aquele que se meteu na Guerra de Troia. Ulisses (ou Odisseu) está presente nas mitologias grega e romana e sua vida é contada por Homero na Ilíada e na Odisseia.

Vamos, então, conhecer o enredo que envolve essa gente toda e mais alguns coadjuvantes.

Em 1.215 antes de Cristo, a Lusitânia era governada por Gorgoris, um príncipe que chegara ao trono pela morte do pai, mas também por ter levado várias colmeias para a região e iniciado a tradicional produção de mel.

Devia ser corajoso, pois carregar colmeias cheias de abelhas enfezadas era tarefa arriscada. Aliás, Gorgoris teve só 50% de probabilidade de ser amado, já que ficou à mercê do comportamento dos valiosos insetos de bumbum amarelo e preto, que poderiam ter decidido picar todo mundo. Graças aos deuses do mel, as zumbidoras resolveram trabalhar e picar apenas aqueles que não as respeitavam. Elas são assim até hoje.

E aqui vemos a lenda se confundir com a verdade. A cidade de Santarém é onde acontece anualmente o Fórum Nacional de Apicultura e a Feira Nacional do Mel.

Pois bem, tudo corria lindamente no reino de Gorgoris.

O Rio Tejo, piscoso, fluía placidamente; as abelhas fabricavam mel e picavam pouco; a jovem princesa cuidava de sua beleza – tarefa extenuante – e o povo se ralava nos campos plantando batata e pagando impostos para manter a realeza.

Ainda bem que nas repúblicas modernas o povo não sustenta esse tipo de mordomia. Isso só acontecia na Idade do Bronze.

Certo dia, quem chega à região para acabar com aquela pasmaceira? Ninguém mais, ninguém menos que Ulisses, o Rei-guerreiro de Ítaca.

Ulisses, como era chamado em Roma, ou Odisseu, como era conhecido na Grécia, estacionou sua valorosa armada na bela foz do Rio Tejo, com o objetivo de descansar das pelejas quase inacabáveis da Guerra de Troia.

ULISSES – OBRA DE THOMAS DEGEORGE

Foi de Ulisses a ideia do famoso presente de grego, o Cavalo de Troia cheio de soldados enraivecidos, oferecido ao inimigo. O resto é história. Ou Odisseia, como queiram.

Gorgoris o recebeu como convidado de honra.

Com o olhar sempre a descansar sobre o brilho do Tejo, Ulisses ficou dias contemplando o nascer e o por-do-sol em terras lusitanas, enquanto era servido pelas amas da Corte com as doces frutas que nascem ali e com o agradável hidromel.

Ulisses estava há anos longe de sua esposa Penélope, que se mantinha incólume a esperá-lo na ilha de Ítaca, enquanto ele se assanhava naquela permissiva Idade do Bronze, onde nunca faltavam as bronzeadas, sempre prontas para uma brincadeirinha despretensiosa com algum rei-guerreiro.

E assim, entre rabos de saia esvoaçantes de amas e servas, Ulisses se sentia o mais agraciado dos hóspedes.

Ulisses só tinha coração para a linda esposa Penélope, mas o resto de sua anatomia sempre esteve a serviço de qualquer uma. Só que o coração prega peças.

O guerreiro acabou fisgado pela filha do anfitrião, a bela Calipso. E olhem que ela nem cantava jogando os cabelos e esgoelando ao lado de um guitarrista e meia dúzia de bailarinas.

Quando Ulisses viu Calipso pela primeira vez cantando Vai Pegar Fogo, realmente incendiou-se.

Mentira, a princesa não precisou nem abrir a boca para que o rei de Ítaca abrisse a sua. Além de bonita, a jovem era gentil, sorria de forma encantadora, seus olhos tinham o brilho das águas do Tejo e seus dentes eram mais brancos que a paz que Ulisses sonhava depois de tanta guerra.

É escusado dizer que o guerreiro se apaixonou. Melhor seria se não tivesse sido correspondido, mas foi. A jovem e ainda virgem princesa derreteu-se diante da personalidade marcante do rei da ilha grega de Ítaca, inventor do Cavalo de Troia e marido de Penélope.

Mutuamente possuídos e com os córtices frontais bloqueados pela paixão e pelo hidromel, os dois acharam por bem engalfinharem-se nos cantos da propriedade.

As lendas nunca contam como os amantes conseguiam fazer tudo às escondidas nos castelos e palácios, onde todas as paredes são orelhudas e zuiúdas e onde nunca falta um puxa-saco para contar coisas ao rei em busca de alguma comenda ou um título de nobreza, mesmo que de Condessa da Vida Alheia ou Marquês da Língua Ferina.

Os dois conseguiram manter a relação em sigilo, apesar de tantos servos, soldados e palacianos enchendo os cômodos do Castelo.

Só que um dia as casas caem.

Calipso acabou pegando criança, o que normalmente acontece quando os amantes são saudáveis, têm relações sexuais e não usam preservativo, que, aliás, já existiam, apesar de serem umas coisas de couro, horríveis e fedorentas. Só não havia a pílula, que apareceu mais de 3 mil anos depois.

Sumiram os períodos, vieram as náuseas e cresceu uma redonda e bonita barriga em Calipso. A jovem conseguiu manter-se longe do pai, sempre em caçadas ou em reuniões do Conselho.

Calipso apertou a barriga o quanto pôde. Ulisses, quando soube que seria pai de um filho – ou filha – de Calipso, não quis arredar o pé da Lusitânia. A menina implorava para que ele fosse embora, pois temia que seu pai o matasse quando descobrisse tudo.

Num dia nublado, de pouco sol, Calipso começou a sentir-se mal. Chamou a ama, a única que sabia da gravidez. A pobre serviçal guardara o segredo, mesmo temerosa da punição que certamente receberia se o seu Senhor descobrisse a cumplicidade.

Em seu quarto, num dos andares mais altos do Castelo, a pobre menina suprimia os gritos com ajuda de um pano na boca, enquanto a ama, nervosa, fazia o que podia.

E tome toalhas quentes e água fresca. As outras serviçais estranharam aquela movimentação e se apressaram em acudir as duas inexperientes, parteira e mãe.

O rei, em confabulação com os conselheiros no salão, nem desconfiava que, debaixo de suas barbas lusitanas, um neto estava vindo ao mundo.

Terminada a reunião, o rei gritou pela cozinheira. Tinha fome. A pobre criatura, como todas as serviçais, também estava nos aposentos da jovem mãe e, emocionada, tinha nos braços um forte e chorão menino, ainda sujo do sangue do parto.

Impaciente e esfomeado, o rei interpelou os servos para que lhe dissessem onde estavam as mulheres daquele castelo. Um deles, tremendo, disse que viu algumas subindo as escadas. Outro informou que viu a cozinheira correndo e limpando as mãos no avental, espavorida.

Em poucos instantes, o monarca se viu diante da porta fechada dos aposentos da princesa. Aos berros, mandou abrir. Lá dentro, Gorgoris viu a filha deitada, cansada, as serviçais encolhidas com roupas manchadas de sangue, baldes e toalhas por todos os lados.

Nos braços de Aneia, a cozinheira, estava um pacotinho enrolado, de onde só se podia ver o topo de uma cabeça vermelha, cabeluda e molhada.

O rei perguntou à filha o que era aquilo. Calipso respondeu que aquele e era o neto do rei, a quem colocara o nome de Abidis.

Ao saber pela filha que Ulisses era o pai da criança, Gorgoris enfureceu-se. Aos gritos, chamou ao salão real o Chefe da Guarda e mandou reunir todos os soldados para uma caçada implacável a Ulisses.

No entanto, o guerreiro, na noite anterior, atendendo aos apelos chorosos e insistentes de Calipso, aceitara reunir-se a seus soldados, que sempre ficavam nas embarcações, para fugir. Sob um céu sem lua, Ulisses e seus navios mergulharam na imensa escuridão da foz do Tejo em direção a Ítaca, onde ia rever a esposa e onde nenhum pai raivoso atreveria invadir.

Gorgoris, ainda tomado pela fúria de ter sido enganado, pelo insucesso na captura de Ulisses e para esconder a desonra da filha, chamou o seu ajudante-de-ordens e mandou que este colocasse o bebê num cesto, largando-o nas águas do Tejo.

Antigamente, os ajudantes-de-ordens faziam qualquer coisa que os chefes mandassem, mesmo que fossem ilegais ou imorais, mas isso era só na Idade do Bronze.

Calipso, atordoada pela decisão do pai, entrou em profunda tristeza e por pouco não morreu.

O cesto seguiu boiando nas águas do Tejo, mas contra a corrente! Em vez de ir em direção ao mar, o bebê encalhou perto de uma caverna onde morava uma loba.

Como acontece com todos os bebês, Abidis não quis nem saber se havia mãe por perto. Quando chegou a fome, abriu o berreiro. Era uma criança forte, de choro alto. E nem precisava de tanto, pois os lobos possuem uma audição absurdamente competente.

A loba solitária saiu da caverna e não teve a menor dificuldade para encontrar aquela mistura de palha e gente atracada num barranco e enroscada numa moita. Farejando com a curiosidade típica desses seres, a majestosa loba parecia não saber o que fazer.

Pelo jeito, mesmo sendo carnívora, a ideia de comer aquela bolinha cor-de-rosa nem passou pela sua maternal cabeça canídea.

Com os dentes, agarrou aqueles panos e levou o humaninho consigo. Em pouco tempo, a solitária criatura já o amamentava. O menino, ao sugar com força aquelas tetas, fez com que o leite descesse, mesmo não tendo a nova mamãe passado por nenhuma gravidez.

Assim, uma relação de amor e proteção se fortaleceu. Abidis cresceu sob a proteção da mãe loba e passava sua vida feliz, alimentando-se de peixes e frutos da floresta. Dava-se bem com todo tipo de bicho, incluindo aí alguns desagradáveis insetos e temidos répteis.

Quando chegou aos vinte anos, o rapaz foi visto por caçadores que se aventuravam pela região, que decidiram amarrá-lo e levá-lo para a vila, para a tristeza da mãe-loba.

Contam que durante anos, a criatura uivava em noites de lua cheia ao lado de um namorado da mesma espécie que conquistou e que contribuía para mitigar sua saudade.

Sem saber o que fazer com aquele rapaz que não falava e na falta de uma delegacia de polícia especializada em desaparecidos, o negócio foi levar Abidis para o Chefe da Guarda. Ele que decidisse o que fazer.

Perante o militar, que fazia perguntas inúteis a um espantado e mudo jovem, os caçadores sugeriram que o rei fosse informado.

Afinal, todos sabem que o soberano é muito mais inteligente que os plebeus.

Gorgoris não costumava recusar audiências ao Chefe da Guarda. Achava prudente manter os militares próximos e bem tratados. E se eles pensassem que, por carregarem armas, poderiam ser algum tipo de poder moderador e se metessem em assuntos da esfera civil?

Ainda bem que hoje os militares não pensam assim, isso era coisa da Idade do Bronze.

Calipso surgiu no salão exatamente no momento em que Abidis era apresentado ao rei. Ao vê-lo nu, ela imediatamente o reconheceu por um sinal de nascença. Era ele, seu filho, estava vivo!

Calipso notou que as feições do jovem eram muito semelhantes às de Ulisses e que seus olhos tinham a cor dos olhos do avô.

Nesse momento, Gorgoris, agora velho e arrependido por ter lançado o neto ao rio, acabou demonstrando alívio pelo menino não ter morrido. Aproximou-se dele e da filha e os abraçou, arrependido.

Gorgoris só tinha a filha Calipso. A lei do reino dizia que um rei somente poderia ser sucedido por um herdeiro homem, nunca por uma mulher.

Ainda bem que hoje em dia a desigualdade de direitos entre homens e mulheres desapareceu em todos os países do mundo. Isso era coisa da Idade do Bronze.

O PRINCIPE ABIDIS

Gorgoris tratou de educar o jovem Abidis para que ele fosse o seu sucessor, ensinando-lhe tudo o que sabia de política, diplomacia, guerra e administração.

Quando Gorgoris morreu, Abidis foi entronizado e exerceu o poder com justiça e respeito pelas pessoas.

Dentre as suas obras, conta a lenda que mandou construir uma cidade no local onde foi encontrado pela mãe-loba, homenageando a floresta onde viveu a infância e a juventude.

O nome escolhido para a nova cidade foi Esca-Abidis, cujo significado é Manjar do Príncipe Abidis.

Foi o primeiro nome da cidade de Santarém, no Ribatejo. É por isso que os nascidos lá são os escalabitanos.

Aliás, Santarém merece que sua lenda seja descrita aqui.

 

SEMELHANÇAS

Um bebê num cesto lançado ao rio não seria também Moisés, o libertador dos hebreus?

Um jovem criado por uma loba não nos lembra Rômulo e Remo, fundadores de Roma?

Um rapaz criado na floresta e que se dava bem com os animais não nos lembra Tarzan?

NOTA

A princesa Calipso que aparece nessa lenda pode ter sido uma variação da semideusa e ninfa Calipso, da mitologia grega, que vivia numa gruta e se apaixonou pelo mesmo Ulisses, segundo Homero. Lá, no bosque sagrado, Ulisses teria permanecido por sete anos até voltar para Ítaca sob a proteção de Zeus, para rever sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco, de quem tinha saudades.

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