Por Flávia Aparecida Pereira, acadêmica de Psicologia, membro do Centro de Pesquisa em Ecologia, Saúde Pública e Mudanças Climáticas, com orientação de Dr. Delton Mendes Francelino, coordenador do Centro de Pesquisa e orientador. Apoio divulgação científica: Café Soberano e Samara Autopeças
O fundamentalismo religioso é realidade no Brasil contemporâneo, exercendo influência crescente sobre as dinâmicas sociais, políticas e culturais do país. Algumas características o marcam, como a interpretação rígida e literal de textos religiosos, rejeição ao diálogo com o pensamento científico e tentativa de impor valores religiosos específicos à sociedade no sentido amplo. Cabe destacar que o fundamentalismo não se restringe ao âmbito privado da fé, mas tem-se projetado no espaço público, interferindo diretamente na formulação de políticas públicas, na educação, na saúde e na garantia de direitos fundamentais.
Através da perspectiva dos Processos Psicossociais em Saúde, como algumas pesquisas apontam, o fundamentalismo religioso integra o conjunto multifatorial que potencializa a vulnerabilidade social, especialmente quando promove discursos de culpa, medo e controle moral. Ele impacta a saúde mental individual e coletiva ao reforçar estigmas, silenciar sofrimentos e deslegitimar práticas baseadas em evidências científicas. Em contextos de cuidado em saúde, essa lógica pode influenciar no acesso a serviços, na adesão a tratamentos e na construção de relações terapêuticas baseadas na autonomia, no acolhimento e no respeito à diversidade.
Os efeitos desse fenômeno são particularmente graves no âmbito dos direitos humanos e principalmente nos direitos femininos. O fundamentalismo religioso frequentemente sustenta narrativas que naturalizam a submissão da mulher, restringem sua autonomia sobre o próprio corpo e reforçam papéis de gênero desiguais. Questões como direitos sexuais e reprodutivos, acesso à informação, educação sexual e combate à violência de gênero tornam-se alvos constantes de ataques, muitas vezes legitimados por discursos morais travestidos de defesa da família ou da tradição.
Além disso, o avanço do fundamentalismo contribui para a normalização de práticas que limitam a liberdade das mulheres nos espaços públicos e privados. Ao desqualificar conquistas históricas dos movimentos feministas, esse discurso fortalece estruturas patriarcais que impactam diretamente a saúde física e mental das mulheres, aumentando índices de sofrimento psíquico, culpabilização, medo e silenciamento. Trata-se de um problema que transcende a esfera religiosa e se configura como uma questão de saúde pública e de direitos humanos.
Diante desse cenário, torna-se fundamental reafirmar a importância do Estado laico, da ciência e dos direitos humanos como pilares para a promoção da saúde e da justiça social. Enfrentar o fundamentalismo religioso não significa atacar a fé, mas garantir que crenças individuais não sejam utilizadas como instrumentos de opressão ou exclusão. A construção de uma sociedade democrática passa pelo respeito à pluralidade, pela defesa da liberdade das mulheres e pela valorização de políticas públicas baseadas em evidências, cuidado e equidade.
Referências
DE SOUSA, Alessandra Castro et al. FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO E POLÍTICAS PÚBLICAS:: Implicações do fundamento cristão evangélico nas políticas públicas de saúde brasileiras. Revista de Investigação Biomédica, v. 13, n. 1, 2021.
JOSÉ, TADEU BATISTA DE SOUZA; RICARDO, JORGE SILVEIRA GOMES. FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO E DEMOCRACIA NO BRASIL: ENTRANHAS DE DOIS EXTREMOS. RELIGARE Учредители: Universidade Federal da Paraíba, v. 18, n. 2, p. 517-537, 2022.
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Apoio Divulgação Científica: Samara Autopeças e Café Soberano











