Francisco Fernandes Ladeira
Historicamente, nas últimas semanas de dezembro, muitas pessoas só pensam no recesso de Natal e Ano Novo. Outras aproveitam esse período para se “desligar do mundo”, como se tudo parasse no final de dezembro e só recomeçasse em meados de janeiro. Os mais afortunados, só após o Carnaval.
No entanto, essa realidade se transformou profundamente com o advento das redes sociais, sobretudo do WhatsApp. A conexão contínua e os limites difusos entre online e offline tornaram quase impossível tal desligamento. Assim, mesmo sem querer, somos inundados por tudo o que acontece nos mais variados quadrantes do planeta.
Em outras épocas, quando alguém viajava para a praia, por exemplo, não fazia ideia do que se passava em sua cidade natal. No máximo, recebia algumas notícias pontuais por telefone. Hoje, essa mesma pessoa sabe onde o vizinho jantou, o que o colega de trabalho postou, que carro novo o amigo comprou e por aí vai. Tudo é compartilhado, tudo vira registro.
Quanto aos noticiários, o “desligamento” costumava ser total. Havia uma sensação nítida de que o mundo seguia seu curso à revelia da nossa atenção, e que muita coisa acontecia enquanto estávamos ausentes. Atualmente, basta rolar a linha do tempo do Instagram ou do Facebook para sermos atingidos por tudo o que se passa em nosso município, no Brasil e no mundo. E haja excesso de informação, mesmo naquele momento que, supostamente, seria de relaxamento total.
Assim, o que antes era uma pausa de certo modo natural do mundo se tornou uma escolha ativa e difícil. O recesso agora não é mais um dado do calendário, mas uma disciplina pessoal – uma espécie de luta constante contra a correnteza de notificações. Descansar, portanto, significa não apenas “parar de trabalhar”, mas conseguir, por alguns instantes, “parar de saber”.
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Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Unicamp e pesquisador de pós-doutorado no IFMG – campus Ouro Preto










