Por Denise Rodrigues
O “Bom Dia!!!” na praça
Nos últimos dias, peguei-me detidamente pensando sobre a expressão “Bom dia!!!”. Na expressão escrita desse jeitinho mesmo, seguida de vários pontos de exclamação, pontos que na escrita marcam o entusiasmo da entonação na fala. Receber um “Bom dia!!!” é sempre agradável, não é mesmo? Mesmo que seja aquele contido, com apenas uma exclamação ao final: “Bom dia!”.
Mais que um conjunto de palavras, esse enunciado carrega consigo desejos otimistas e energias positivas, mesmo que quem o pronuncie não se atente a isso. O poder do “Bom dia!”, concluí então, é o de desejar ao outro que o melhor lhe aconteça nas próximas horas. O “Boa tarde!” tem o mesmo efeito. Mas, na lógica da minha reflexão, dura menos tempo. Então o “Bom dia!” vem com vantagem.
E porque o “Bom dia!” se fez insistente em meus pensamentos por esses dias? Estou ansiosa para compartilhar esse episódio com você, caro leitor, que vem acompanhando minha saga por conhecer mais sobre Barbacena e pertencer cada dia um pouco mais a essa cidade que vem me acolhendo tão carinhosamente.
Observem: a autora que vos escreve recebeu um “Bom dia!!!” na praça. Dá pra acreditar? Na praça do centro da cidade, conhecida como Praça dos Andradas ou Praça dos Macacos, como é popularmente chamada. Aliás, sobre esse pseudônimo, fui informada que se deve à presença de micos-estrela e bichos-preguiça no local antigamente. Quanto ao nome oficial, remete a uma homenagem à família Andrada, bastante tradicional na cena política de Barbacena, que conta, em sua genealogia, com o ilustre José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência. Cerca da praça, encontra-se, ainda, o Solar dos Andrada, onde a filha do importante estadista residiu, completando a história do nome do largo.
Por ser cenário do meu episódio de forasteira em Barbacena, empreendi uma pequena pesquisa sobre o Jardim Municipal (outro nome do local), e descobri que ele teve sua construção iniciada em 1764, e que em 1880, graças ao Visconde de Carandaí, tomou contornos inspirados no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, sendo inaugurado em 1882.
Além disso, seu entorno conta com um dos edifícios históricos mais preservados da cidade, o Palácio da Revolução Liberal, construção colonial anterior a 1796, que funcionou como centro político e judicial da cidade a partir do século XVIII, foi palco da adesão de Barbacena Revolução Liberal de 1842, que lutava por limitar o poder centralizador do Imperador Dom Pedro I, e abriga atualmente a Câmara Municipal.
Mais ainda, minhas pesquisas mostraram uma curiosidade bastante interessante sobre o meu cenário. Nesta praça, nomeada em homenagem à família Andrada, há erguida uma estátua de Crispim Jacques Bia Fortes, influente advogado e político mineiro que foi presidente do estado de Minas Gerais entre 1894 e 1898. A figura é reconhecida e lembrada até hoje em Barbacena e em todo o estado, inspirando nomes de localidades, avenidas, escolas, hospitais e recebendo monumentos em diversos pontos mineiros. A presença da escultura nesse local denota a força e o respeito às duas famílias ícones da política da cidade.
Para você, caro leitor, que tem suas raízes fincadas em terras barbacenenses, essas informações podem parecer corriqueiras ou comuns, mas para mim, são um tesouro, afinal, preservar a memória local é um importante passo para o pertencimento, e para preservar, há que se conhecer.
Mas voltando ao meu “Bom dia!!!”, recebido em uma manhã de sábado ensolarado na praça, ele é especial por ter vindo acompanhado do meu nome… sim! Recebi um “Bom dia, Denise!!!!” (com várias exclamações!) de uma moça, que acompanhou o cumprimento com um sorriso perceptível pelo tom da voz, e ao qual retribuí pronta e abruptamente, apesar de não reconhecer a autora da saudação.
Minha total incapacidade nesse reconhecimento se deve, imagino, a pelo menos dois fatores que discorro adiante: primeiro, a minha inevitável miopia, que realmente impede que eu reconheça as feições de qualquer pessoa a determinada distância, e meu completo susto diante da situação inesperada, por não me considerar conhecida, muito menos alguém a ser reconhecida, na cidade. Por esse motivo, o segundo, ando (ou andava) pelas ruas como se fosse completamente estranha a todos… distraída em observar, mesmo que com certa dificuldade, uma fachada ou um detalhe arquitetônico ou do mobiliário da cidade, ou até uma vitrine. Algumas vezes atenta ao mapa do celular, que tem me auxiliado a encontrar endereços e pontos comerciais aos quais ainda não estou habituada. Mais vezes ainda prestando atenção redobrada ao caminho ao imaginar que cheguei a algum ponto desejado, mas me vendo em outro local completamente diferente…
Parece, entretanto, que meu anonimato não é mais tão anônimo assim, não é mesmo? Diante da situação, à querida desconhecida, a quem retribuí o cumprimento meio confusa, agradeço imensamente pelo “Bom dia!!!”, com tudo o que ele contém: os votos para o dia, as energias positivas, mas principalmente a sensação de pertencimento que ele me trouxe. Gentileza sem preço, que naquele dia me fez caminhar, rumo ao calçadão da Rua XV, com um sorriso nos lábios e o coração cheio de carinho pela moça da inusitada saudação e por nossa, cada dia mais nossa, Barbacena Querida.










