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Humanizamos nossos pets!

Maria Solange Lucindo Magno

Aqui afirmo, exclamando (e ironizando), pois ouvimos isso com muita frequência. Hoje, nem tanto, mas há aqueles que não aceitam o fato de muitos seres humanos preferirem ter um animal de estimação a conviver com um humano difícil e pouco confiável. Entrementes, é preciso entender que o humano, com sua alta expectativa de receber e projetar amor, pode transferir para o animal de estimação uma carga emocional grande em excesso para ele suportar. Agindo dessa forma, o humano é que poderá destruir o equilíbrio emocional do animal. Daí se cria a interdependência emocional que não é saudável para ambas as partes. Romantiza-se a questão quando se considera que animais domésticos são melhores que pessoas. Cães são os animais mais presentes nos lares.

Em fevereiro de 2025, numa sessão plenária, um vereador de Itajaí (Santa Catarina) disse que todos os animais da terra não valem uma alma humana, que eles não têm alma e que nós, humanizando nossos pets, estamos na realidade os maltratando. Sua fala causou polêmica, muitos comentários na internet e desavenças com colegas, entretanto, talvez o distinto vereador não tenha conseguido se expressar de forma inteligível.

De acordo com especialistas, existe a humanização neutra, que é quando se dá ao animal um nome de pessoa, deixa-o dormir na cama, enfeita-o com roupas e acessórios, leva-o para passeios em lugares que não fazem parte de seu universo, faz para ele festa de aniversário com direito a tudo. É o tipo de humanização que não lhe faz mal e que para ele é indiferente. No entanto, há ainda a humanização negativa que é aquela que atribui ao animal sentimentos humanos como ciúme, culpa, vingança, vergonha, o que de fato não condiz com sua condição de animal. E foi isso que o senhor vereador bradou na sessão plenária, expondo a sua indignação ao citar o tratamento dispensado a animais de estimação.

Se eu fosse dar o meu parecer (de forma passional, é claro) diria que humanizamos os nossos animais toda vez que cuidamos deles, lhes damos de comer e beber, os levamos para atendimento médico, os levamos para passear e interagir com outros animais, socializando-os para que não ataquem pessoas ou outros de sua espécie, lhes damos um local para dormir, nos preocupamos com o seu bem-estar. Ou seja, os humanizamos quando dispensamos a eles cuidados que muitos humanos crianças e idosos não recebem.

Todavia, recebemos deles em troca o carinho, amor incondicional, sem interesse e sem cobrança, alegria proporcionada sem que a peçamos, uma vontade pura e imensa em nos agradar, aconchego. É um “colo silencioso depois de um caos”. Ufa! É tanta coisa boa que vale a pena ter um animalzinho por perto.

Nada se compara a chegar em nossa casa e ser recebido com toda euforia como se fôssemos o que há de mais importante e como se nossa ausência tivesse sido longa demais. Que alegria ter uns pares de patinhas nos seguindo por toda parte. O tipo de invasão que não consideramos tóxica. É um amor que não se assemelha a nenhum outro, pois ele é único.

Não à toa, muitas pessoas dizem preferir a companhia de um animal a de alguns seres humanos. É comprovado cientificamente que a presença de um bichinho de estimação produz ocitocina, diminui a melancolia, faz muito bem, sobretudo, para pessoas doentes, idosos solitários, crianças portadoras de algum distúrbio.

A parte ruim e dolorosa é quando eles adoecem com os mais diferentes males, sofrem, nos provocando também muita dor, e morrem. A perda de um pet pode provocar um luto doído e prolongado. Um grande vazio e saudade. Felizmente, começaram a reconhecer esse luto. A cidade de Natal aprovou uma lei que concede um dia de folga para servidores públicos municipais em caso de falecimento de seus animais de estimação para que possam viver essa perda. Creio que há outras iniciativas dessas, ainda que não regulamentadas.

Há aqueles que realmente tratam os animais sob a sua tutela de forma diferente: os vestem com roupas de criança; colocam chuquinhas em seus pelos, lhes dão chupetas, os colocam em carrinhos, põem sapatinhos em suas patas para que andem na rua. Fazem para eles festa de aniversário, os põem para dormir na própria cama, os fazem andar em duas patas, como se fossem gente, os chamam de filhos. Eu não condeno, mas não comungo com esses hábitos, trato os meus como eles são: animais, respeitando as necessidades características de sua espécie. Não nego, porém, que os trato com muito carinho, converso bastante com eles, dou beijinhos, coloco música suave para que descansem. Não há gritos e nem agressões físicas de tipo algum. Conclusão: tornaram-se cães adoráveis. Os veterinários que os assistem podem atestar o quão bem cuidados eles são.

Os dois cães que tenho passaram a fazer parte da minha vida em 2015 e 2017, respectivamente, e confesso que não imaginava as limitações, gastos e preocupações que teria com eles. Hoje em dia vivo em função deles, mas por uma escolha minha, pois penso que eles não têm culpa de eu os ter trazido para viverem comigo, portanto, é de minha responsabilidade levá-los até o fim.

Não considero adoecimento ter amor por um animal de estimação como propagado por alguns. Claro que há aqueles que não entendem o quanto nos preenche ter um bichinho próximo. Eu também não entendia até conviver estreitamente com os meus. Na minha casa circularam cães desde a minha adolescência, mas era naquele tempo em que os cães ficavam apenas do lado de fora, iam para a rua quando queriam e voltavam. Para mim, foi bem recente esse apego todo e foi num período em que eu vivia lutos diferentes. É preciso que entendam que para muitas pessoas terem um cão ou gato diariamente, pode ser a única presença viva na existência dessas pessoas. 

Não há como negar a grande conexão que criamos com esses seres especiais e, ao contrário do que disse o vereador, gostaria de acreditar que eles têm uma alma. Certa vez, eu estava sentada no chão aborrecida e chorava por um motivo que não vem ao caso, quando o meu cão Aladim se aproximou de mim, me olhou e deitou a cabeça no meu ombro, como se quisesse me consolar. Eu fiquei tão surpresa com aquele comportamento, que o meu choro cessou na hora. Eles assimilam a nossa alegria e entusiasmo, bem como, se entristecem quando nos percebem sofrendo. Eles captam a nossa energia.

Segundo pesquisadores, o efeito positivo dos animais e o vínculo significativo criado com eles ainda é mais forte entre pessoas que não são casadas sem que, necessariamente, eles sejam apenas uma espécie de apoio emocional.

Alguns do nosso convívio não gostam, não toleram pelos ou eventuais pulos e lambidas. Compreensível. Contudo, se o amigo ou parente não gosta, melhor não frequentar a casa onde moram pets. Afinal, ali também é a casa deles.

Há os radicais que dizem que a sociedade está doente ao se hipersensibilizar com animais abandonados em detrimento de idosos nas mesmas condições e ainda perguntam: Por que não adotar um velho em vez de um cão ou gato? Como se fosse possível colocar essa discussão no mesmo patamar. As relações humanas envolvem rancores, desentendimentos, o que não ocorre com os animais.

Jovens têm preferido criar um animal a terem bebês. Segundo levantamentos, no Japão há mais cachorros que crianças nas casas. Claro que há explicações para tais preferências, mas que não pensem que serão eximidos de responsabilidades, pois elas são muitas.

Os cães poderão ser transportados em aviões, junto com os seus donos/tutores e em ônibus intermunicipais em Minas Gerais. Não sabemos ainda como se dará a regulamentação dessa permissão, entretanto, garanto que não ouviremos tantos berros, manhas ou chutes sucessivos nos bancos da frente como temos que suportar, sem que nenhum adulto tome uma providência.

Em matéria recente foi divulgado que pesquisadores afirmam que os cães estão passando por um processo de transformação inédita: reconhecem emoções humanas, demonstram comportamentos antes restritos a primatas, entendem comandos complexos. É possível vê-los atravessarem faixas de pedestres no momento certo, se esquivarem de perigos urbanos e conseguirem entrar sozinhos no transporte público. E, segundo cientistas, essa evolução se dá devido à estreita convivência com os humanos, sobretudo, à afinidade emocional criada. Dessa maneira, cada vez mais se afastam de sua ancestralidade com os lobos e se aproximam dos humanos, num processo evolutivo.

Para os intolerantes com essa realidade latente, é bom já irem se acostumando. 

Encerro o meu texto com uma frase que me enterneceu: “Foi no silêncio de quem não fala a minha língua que encontrei a mais pura forma de amor”.

Crédito da foto: Studio Bertolin

Maria Solange Lucindo Magno atuou como professora dos anos iniciais do Ensino Fundamental, Inspetora Escolar da SEE, Técnico em Educação da Prefeitura Municipal de Barbacena.

Autora do livro “Escritos Com o Coração” e do livro digital “Uma Visão Racional e Emocional do Mundo”, lançado em 3 de dezembro de 2024, pela Editora BOL, do Barbacena Online

Autora de diversas crônicas e textos; articulista do Complexo de Mídia Eletrônica Barbacena Online

Contatos: Instagram: @mariasolluc; Facebook: Maria Solange Lucindo Magno

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