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Retratos de uma cidade quando jovem: desenhos e descrições de Barbacena feitos por viajantes europeus no século XIX

Foi antes da popularização da fotografia como método de registro. Foi antes, muito antes de mim, de você, antes de todos os barbacenenses que habitam a cidade hoje. Antes da cidade adquirir essas feições, com seus prédios, praças e ruas…

Durante o período colonial, exploradores europeus viajavam para as Américas Espanhola e Portuguesa para conhecer o Novo Mundo, seus povos, suas plantas, seus animais e suas paisagens. Entre esses exploradores, havia cientistas e artistas, alguns cientistas-artistas. De volta à Europa, escreviam artigos acadêmicos sobre as características naturais do Novo Mundo, ou publicavam livros com imagens e narrativas sobre as curiosidades dessa terra desconhecida. A América Latina, e o Brasil em especial, eram vistos pelos europeus como uma terra selvagem, mas fascinante e paradisíaca. Muitos acreditavam que aqui era o Jardim do Éden, e os indígenas, que andavam nus, os humanos antes do pecado inicial.

Em seus diários, assim escreveu Langsdorff, sobre o qual falaremos mais abaixo, a respeito do Brasil: “A imaginação mais rica e mais feliz e a mais perfeita das línguas criadas pelo homem sequer de longe podem dar idéia da extensão dos tesouros e magnificências desta natureza. Quem quer que anseie por motivos poéticos — que vá ao Brasil, pois ali a natureza poética responde a seus pendores. Qualquer pessoa, inclusive a menos sentimental, se deseja descrever as coisas como elas são ali, se transforma em poeta”.

Meu interesse por esses cientistas, artistas e cientistas-artistas surge no momento em que a devastação ambiental e as mudanças climáticas transformaram o Brasil. Agora que o território brasileiro está quase totalmente destruído, em que as enormes florestas que recobriam quase todo o continente não passam de fragmentos, de peças de um quebra-cabeça impossível de remontar, volto-me a essas primeiras imagens, as últimas a demonstrar como era então o nosso país. Essas imagens nos mostram um Novo Mundo que ficou velho, muito velho, que não existe mais.

Quando chegaram aqui, muitos europeus acharam que os indígenas brasileiros eram inferiores a outros povos porque não desenvolveram grandes obras, como as pirâmides do Egito, as pirâmides dos Astecas e as cidades de pedra dos Incas. Pensava-se que os indígenas das terras baixas da Amazônia e de outras regiões do Brasil eram incapazes de alterar o seu ambiente, de utilizar os recursos existentes para criar obras grandiosas.

No entanto, como novos estudos demonstraram, as florestas brasileiras, e em especial a Amazônia, não são florestas intocadas, mas sim florestas transformadas. A “ecologia histórica” utiliza conceitos como “matas antropogênicas” e “florestas culturais” para designar esses ecossistemas que passaram pela ação transformadora dos povos indígenas. Ao contrário da ação dos europeus, o modo de vida dos indígenas amazônicos não diminuiu a biodiversidade, mas sim a aumentou. O Brasil é hoje o país mais biodiverso do mundo não por acaso ou apenas por questões naturais, mas pela ação ativa dos povos indígenas. Nesse sentido, a floresta é a pirâmide, como diz o título de uma reportagem de Bernardo Esteves publicada na revista piauí sobre o tema.

Hoje, restam apenas fragmentos dessas “matas culturais”. Menos de 10% da área originalmente ocupada pela Mata Atlântica ainda está de pé. As áreas de preservação ambiental e terras indígenas na Amazônia estão cada vez mais rodeadas por pastagens e plantações de soja. Esses fragmentos podem ser vistos como as ruínas de uma grande obra, como os vestígios da Acrópole, como colunas que permanecem de pé mas não sustentam nada, porque o céu já caiu.

Meu interesse principal em relação a esses viajantes era pela Amazônia. Queria ver, com outros olhos que não os meus, uma Amazônia antes da motosserra, do gado e da soja. Uma Amazônia ainda não transformada em uma grande despensa de comodities para a indústria mundial. Durante essas pesquisas, me deparei com uma aparição inesperada (ou melhor, duas): uma Barbacena antes da fotografia, antes dos prédios, antes de mim, antes de você.

Johann Moritz Rugendas e a Expedição Langsdorff

Em 1824, Georg Heinrich von Langsdorff, cônsul-geral da Rússia no Rio de Janeiro, iniciou uma expedição científica pelo Brasil. O barão Langsdorff, que era médico e naturalista, reuniu diversos cientistas europeus para sua viagem. Havia botânicos, linguistas, astrônomos e um pintor alemão, chamado Johann Moritz Rugendas, que deveria registrar as paisagens que encontrasse pelo caminho. Rugendas é talvez o maior pintor europeu a atuar no Brasil, e suas obras são marcadas pela descrição romantizada da vida urbana carioca e pela grande riqueza de detalhes em suas obras que retratam paisagens naturais.

A Expedição Langsdorff saiu do estado do Rio de Janeiro e percorreu Minas Gerais e São Paulo, adentrando no território brasileiro até Cuiabá e depois seguindo rumo ao norte até Belém. Rugendas acabou se desentendendo com Langsdorff e não acompanhou a expedição ao longo de todo o tempo, mas acompanhou a equipe por Minas Gerais e passou por Barbacena.

Rugendas fez uma ilustração de Barbacena em 1824. No site Brasiliana Iconográfica, a data informada é 1835, que é a data em que Rugendas publicou na Alemanha a obra Malerische Reise in Brasilien, ou Viagem Pitoresca através do Brasil, um livro com algumas de suas ilustrações e com relatos de viagem. Não é possível identificar em que lugar do município foi realizada a ilustração. A obra mostra um rio (ou um lago), cercado por plantas baixas, com palmeiras e araucárias ao fundo. Há um animal (talvez um tamanduá) e um homem às margens do rio; atrás, vê-se uma construção. A ilustração mostra bem o terreno acidentado da região, com uma colina à esquerda e um enorme horizonte ao fundo. Rugendas descreve assim a chegada à Barbacena:

Finalmente atinge-se o alto da montanha perto de uma fazenda que tem o nome muito característico de Borda do Campo, pois daí se pode descortinar toda a extensão das colinas denominadas Campos. À entrada desses campos situa-se a pequena cidade de Barbacena, outrora Arraial da Igreja Nova, elevada à categoria de cidade em 1791 pelo Conde de Barbacena, então Governador de Minas Gerais.

Em seguida, ele faz uma breve descrição da cidade, vista por ele com bons olhos:

O comércio existente entre Goiaz, Minas Gerais e a costa, o grande número de tropas que chegam de todos os lados e atravessam Barbacena, fazem dela uma cidade abastada e industrial onde, pela primeira vez, depois de ter atravessado florestas primitivas e montanhas, o viajante encontra alguma comodidade. Barbacena tem mais ou menos trezentos fogos, uma grande igreja, situada no alto de uma colina, e várias bonitas capelas. Nas redondezas existem inúmeras plantações de milho; o resto da região é nú e montanhoso.

A essa descrição, segue-se o relato de um grupo de bandidos que infestavam a estrada para Vila Rica, nas proximidades de Barbacena, e que atacavam e matavam os viajantes que por ela passavam. Não deixa de ser curioso descobrir que Barbacena era uma cidade violentíssima há mais de 200 anos!

Ilustração de Barbacena feita por Rugendas, publicada no livro “Malerische Reisen in Bresilien” em 1835

Henry Chamberlain

Apesar do sobrenome inconfundivelmente francês, Henry Chamberlain era inglês. Era acima de tudo um homem rico que viajava por hobbie. Filho do cônsul-geral da Inglaterra no Brasil, Henry era um militar apaixonado por aventuras. Gostava de observar a paisagem e registrá-la em aquarelas. Muitos dizem que ele não tinha o talento de um artista profissional, mas a preocupação com os detalhes e a observação atenta da realidade compensam sua falta de habilidade técnica. Isso é o que os especialistas dizem, para mim suas pinturas são ótimas.

Como todos os viajantes no Brasil daquela época, Chamberlain chegou pelo Rio de Janeiro e decidiu visitar a então Vila Rica. Vale lembrar que, até o fim do século XVIII, Vila Rica, hoje Ouro Preto, era a cidade mais rica do Brasil e uma das mais ricas do mundo. Durante a viagem de Chamberlain, provavelmente não o era mais, mas Vila Rica continuava sendo um lugar importante.

Durante sua viagem para Vila Rica, Chamberlain passou por Barbacena e realizou uma aquarela que mostra a cidade nascente. Sobre uma colina, há uma grande igreja, provavelmente a grande igreja citada por Rugendas, e algumas construções enfileiradas. Há duas igrejas históricas sobre colinas hoje em Barbacena, a Matriz de Nossa Senhora da Piedade e a Igreja do Boa Morte. Eu arrisco dizer que a igreja retratada na aquarela de Chamberlain é a Matriz, que foi construída na segunda metade do século XVIII. A Igreja do Boa Morte ainda estava começando a ser construída durante a viagem de Chamberlain. As casas enfileiradas são provavelmente a Rua XV de Novembro. No canto direito da aquarela, vejo uma construção diferente das outras, que poderia ser a Igreja do Rosário. Pelo ângulo da imagem, ela provavelmente foi pintada nas proximidades de onde hoje é a EPCAR. Suposições, apenas.

Seja como for, a imagem demonstra uma pequena cidade idílica e rodeada pela natureza. Muito diferente da Barbacena que temos hoje, com os típicos problemas de uma cidade que cresceu sem planejamento. Gosto de nossa cidade atual, mas gostaria muito de morar na Barbacena de Chamberlain, uma Barbacena que um inglês rico conheceu, mas que nós, barbacenenses, não conheceremos jamais.

Retrato de uma cidade quando jovem: Barbacena em ilustração de Henry Chamberlain, em 1820

Antes da fotografia

A fotografia foi inventada em 1826, e a primeira foto tirada no Brasil foi em 1839. As primeiras câmeras eram enormes e as fotos muito difíceis de tirar; do surgimento da fotografia até a possibilidade de viajar com uma câmera portátil, registrando as paisagens pelo caminho, passaram-se certamente várias décadas. A aquarela de Chamberlain é de 1820, e a ilustração de Rugendas, apesar de ter sido publicada em 1835, foi feita em 1824. Ambas, portanto, anteriores à invenção da fotografia.

Conhecemos diversas fotos antigas de Barbacena, aquelas em preto e branco, que mostram uma mistura entre construções que ainda existem e casas que foram demolidas. Gosto de observar essa mistura improvável entre o que se foi e o que ficou. Mas essas fotos são em geral do século XX. As imagens de Chamberlain e de Rugendas são muito anteriores e nos mostram uma cidade (ou os arredores, no caso da de Rugendas) durante a sua infância. Não sei se são as imagens mais antigas de Barbacena, pois provavelmente outros artistas moraram ou passaram por aqui na mesma época, mas são as mais antigas que eu conheci até agora.

Muita gente olha para o passado e pensa no que ganhamos, no quanto evoluímos. Nossas cidades estão maiores, com mais carros, mais prédios e mais tecnologia. Eu, quando vejo coisas do passado, só consigo pensar no que perdemos.

Destaques do dia

Carro capota próximo a Cristiano Otoni

A pista molhada pode ter sido a causa de um capotamento na tarde deste domingo (30), na BR 040, próximo à cidade de Cristiano Otoni.