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Vestido de noiva

Às vezes procuramos fantasias em obras de ficção quando a nossa própria vida oferece um belo enredo para filmes e novelas.  A minha vida, então, sempre foi recheada de acontecimentos marcantes e inusitados.

Aproveitando a leveza desse mês tão especial que é dezembro, vou contar a pequena história do meu vestido de noiva.

Todos sabem que a maior curiosidade em torno de uma noiva é o vestido que ela vai usar. E essa peça do vestuário já teve significado muito simbólico, envolvendo o branco virginal, o véu, grinalda. Recomenda-se que ele seja comedido, pois geralmente é usado dentro de uma igreja, embora muitas noivas da atualidade não se preocupem com esse pormenor.

Eu, por acreditar em toda essa história de pureza, sempre desejei e quis fazer jus ao meu vestido de noiva branco e seus adereços.

E foi no mês de outubro, do ano do meu casamento, que eu fui a São Paulo para comprá-lo.

Depois de uma viagem excruciante de longa duração e calorenta, chegamos ao local onde eu teria um catálogo para fazer a minha escolha.

Fui bem racional nessa escolha, uma vez que não seria eu a pagar. Decidi por um vestido que não era muito chique, mas também não seria sem graça. A escolha foi dentro do bom senso.

Tiraram as minhas medidas e me disseram para voltar em dois dias para provar. No íntimo, eu duvidei que um vestido tão sublime ficasse pronto em dois dias e em ponto de prova. Enfim…

Voltei com os meus pais dois dias depois, no horário marcado, para fazer a prova do meu vestido de noiva. E foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Eu o coloquei no corpo e o vestido ficou perfeito, certinho, sem precisar fazer nenhum ajuste, a não ser os últimos acabamentos depois da prova. As funcionárias do estabelecimento ficaram tão entusiasmadas com o vestido em mim, que me fizeram desfilar pela loja inteira, me chamando de “A Noivinha de Barbacena” e me pediram para posar para a reportagem de um jornal da cidade. Eu e meus pais ficamos tão emocionados, que choramos os três. Foi um momento comovente para mim e para eles. Ali eu estava me vendo verdadeiramente como noiva e eles viam a filha que dali a dois meses deixaria a sua casa para começar uma nova vida. Não foi possível eu sair na reportagem do jornal porque os profissionais que iriam me fotografar já não se encontravam mais no local de trabalho.

E assim, eu voltei para casa, trazendo comigo as duas caixas que continham o meu vestido e seus acompanhamentos.

E eu decidi que além de meus pais, somente a minha costureira daqui veria o meu lindo vestido, que saiu da caixa e ficou pendurado e coberto por quase dois meses, conforme orientações das lojistas.

Enfim, chegou o dia 18 de dezembro, o dia do meu casamento. Grande expectativa. Mas foi um dia tão cansativo, com tantos acontecimentos que, apesar de todo o meu planejamento, algumas coisas saíram do controle. Dessa forma, quando eu fui me arrumar, vestir o meu vestido e me aprontar para a cerimônia do casamento, já estava cansada e um pouco enervada. A minha produção foi feita por um cabeleireiro conhecido na cidade e ele tirou do meu dedo qualquer anel, dizendo que uma noiva só usava aliança e um par de brincos discretos. Depois de pronta, eu coloquei o vestido e constatei que em dois meses não havia engordado e nem emagrecido um grama sequer. O vestido estava igual ao dia da prova.

Foram tiradas algumas fotos dentro da casa de meus pais, e eu ainda tive que ouvir alguém me dizer que eu estava linda e que era uma pena não ser para ele. Meu Deus! No dia do meu casamento aconteceu de tudo.

Meu pai, pontual como sempre foi, me levou para igreja bem antes do horário marcado, que seria às 20 horas. Minha mãe saiu na frente e entrou na igreja.

Eu devo ter comido em todas as panelas que foi possível, pois na hora do meu casamento choveu torrencialmente. A noiva que se casou antes de mim, atrasou horrores e eu fiquei presa no carro com o meu pai até chegar a hora.

Já estava bastante desgastada e saí do carro com o vestido arregaçado até quase à cabeça para não molhar ou sujar. Cheguei à porta da igreja histérica e gritando por minha mãe para ajeitar o vestido e o véu para que eu pudesse entrar na igreja. Alguém fez isso por mim e eu entrei trêmula, envergonhada com aquele tanto de gente me olhando, sob os acordes de uma música de Neil Diamond, que eu e meu noivo havíamos escolhido. Eu me controlava para não chorar, pois se o fizesse, meu pai também não iria se segurar. Eu me contive por mim e por ele.

E foi assim que quando cheguei ao altar e dei o braço para o meu futuro marido, quase trocando as pernas, não entendi o significado de ele dizer: “Você está parecendo uma rainha”. Eu simplesmente havia me esquecido do impacto que queria causar nele com o meu vestido de noiva escolhido para que ele se encantasse.

No final, estando eu ainda na igreja, uma mulher me disse: “Saia daqui senão vão acabar com o seu vestido”. As pessoas na ânsia de me cumprimentar, subiam em cima da barra dele, fazendo uma roda no meu entorno.

O dia da noiva deveria ser sagrado para que ela tivesse tempo de se preparar física e espiritualmente para o seu grande momento, longe de convidados antes da hora e de aborrecimentos. Principalmente para que ela aproveitasse cada instante. Aliás, atualmente, é o que fazem.

Dias depois eu ouvi uma senhora me dizer que havia ficado tão impressionada com o meu vestido, que me via vestida de noiva todas as vezes que fechava os olhos. Eu, no entanto, não posso dizer que aproveitei tanto o meu momento que deveria ter sido mágico, pelo motivo de ter chegado à cerimônia já extenuada.

Ainda bem que a minha história não advém da série “As Noivas de Copacabana” e, sim, de “A Noivinha de Barbacena”.  Hahaha.

Comentário adicional: tenho poucas fotos no meu álbum de casamento, inclusive nenhuma do momento em que o bolo foi partido. O serviço de fotografia, bem conceituado na cidade, foi contratado, porém, a pessoa designada para fazer as fotos, depois de beber e comer com fartura, achou por bem ir embora e me deixar sem fotos importantes, e as que fez, foram bem sofríveis. Como se vê, caloteiros existem desde os primórdios.

 

Maria Solange Lucindo Magno, professora dos anos iniciais do Ensino Fundamental na rede estadual – aposentada

Atuou como Inspetora Escolar na rede estadual – SEE

Técnica em Educação da rede municipal de ensino de Barbacena – aposentada

Amante de livros, cinema, teatro e música, enveredou pelos caminhos da escrita

Lançou em 2020 o seu livro de caráter intimista “Escritos Com o Coração”

Autora do livro digital “Uma Visão Racional e Emocional do Mundo”, lançado em 3 de dezembro de 2024, pela Editora BOL, do Barbacena Online

Autora de diversas crônicas

Possui publicações na plataforma Scriv

Comentarista na página do Leitor – Revista Veja

Foi aprovada como colunista do site O Segredo

Aprovada em cinco Antologias

Atualmente é articulista do Complexo de mídia eletrônica Barbacena Online

Instagram: @mariasolluc

Facebook: Maria Solange Lucindo Magno

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