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    Barbacena, MG Previsão completa
  • História de Nossa Terra III: Os Inconfidentes da Borda do Campo

    Os reais motivos de uma pretensa conjuração mineira e quais foram os de nossa terra que estavam envolvidos nesse movimento

    Por Silvério Ribeiro

    A Inconfidência Mineira, movimento político tido como conspiratório e separatista, ocorrido na então Capitania das Minas Gerais, teve origem nas reivindicações dos principais contra a execução da Derrama, um dispositivo fiscal aplicado a partir de 1751 a fim de assegurar o piso de cem arrobas anuais na arrecadação do quinto, ou seja, uma retenção de 20% do ouro em pó, em folhetas ou pepitas que era direcionada à Coroa Portuguesa. Os fazendeiros ou graduados afundados em dívidas seriam os mais prejudicados se a medida da Derrama se efetivasse.

    A partir de 1787, a corrupção dos governantes da Capitania das Minas Gerais, aliada aos boatos de que a Derrama iria mesmo ser implementada, mesmo contra a vontade dos principais naquelas terras, fez desencadear um processo de resistência. Os ventos revolucionários que haviam desencadeado a independência das colônias norte-americanas, acenderam a chama iluminista em solo brasileiro. A ideia original de apresentação de uma reivindicação escrita destinada às mãos do novo governador da capitania, Dom Luiz Antônio Furtado de Castro do Rio de Mendonça, o Visconde de Barbacena, transformou-se num ardil objetivando a tomada do poder por elementos mais radicais da capitania, em especial, pela tentativa de liderança desse movimento por um obscuro alferes da Cavalaria de Minas Gerais, de nome Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

    Os fazendeiros e aqueles envolvidos na decadente exploração do ouro nas Minas Gerais estavam insatisfeitos com a possibilidade da Derrama. O movimento de resistência começou entre poucos abastados, levando alguns alimentar a hipótese de irem além de uma simples declaração enviada ao governador no sentido de sustar, pelo menos, temporariamente, a execução da Derrama. O assunto que antes se desenvolvia em conversas de salão ganhou corpo entre clérigos, poetas e militares da capitania. Distorcidas as reivindicações originais contra os elevados impostos da Coroa, transformou-se a ideia num boato, iminente levante político-militar que resultaria na independência das Minas Gerais ou do Brasil.

    Durante muito tempo permaneceu quase desconhecida a conjuração mineira, abafada ao longo da história. O discurso republicano de fins do século XIX, portanto, cem anos depois, trouxe à tona os desdobramentos da Inconfidência e na ânsia de criar heróis que justificassem o golpe político-militar que instalou no Brasil o novo regime, um mito foi construído.

    Os autos da Devassa da Inconfidência Mineira, em sete volumes, sob guarda do Arquivo Público Nacional, contêm documentos detalhados do que foi apurado pelos governantes e a justiça da época, o envolvimento de distintas figuras do clero, das forças militares e da governança dos idos de 1789. Dentre os presos e condenados que somam quase duas dezenas de pessoas, além de outros que sequer foram ouvidos perante o tribunal, se destacam:

    Na comarca de Vila Rica: Joaquim José da Silva Xavier (o Tiradentes), Tomás Antônio Gonzaga, Maria Joaquina Anselma de Figueiredo, Maria Doroteia Joaquina de Seixas, Cláudio Manuel da Costa, Francisca Arcângela de Sousa, os dois Alvares Maciel (pai e filho), Francisco de Paula Freire de Andrade, João Rodrigues de Macedo, Domingos de Abreu Vieira, Luiz Vieira da Silva, Antônio José Dias Coelho, Dom Rodrigo José de Meneses e Castro, Dom Luís da Cunha Pacheco e Meneses, e o Governador da Capitania, o Visconde de Barbacena.

    Na comarca de Serro do Frio, o Padre José da Silva e Oliveira Rolim. No exterior, José Joaquim da Maia e Domênico Vandelli.

    Na comarca de Rio das Mortes, área que envolvia também a Borda do Campo: Joaquim Silvério dos Reis, Inácio José de Alvarenga Peixoto, Bárbara Eliodora Guilhermina da Silveira, Carlos Correia de Toledo e Melo, Luís Vaz de Toledo Piza, Domingos Vidal Barbosa Lage, Francisco Antônio de Oliveira Lopes e José Ayres Gomes.

    O movimento da inconfidência, valorizado pelos republicanos em sua ânsia de fabricar heróis nacionais, infelizmente ocultou, sobre o brilho da luta pelo fim da monarquia no Brasil, detalhes preciosos de uma sedição sequer preparada, a falta de coordenação do movimento e a dissimulação de altas autoridades envolvidas que se afastaram dos fatos para não se verem em maus lençóis, além, é claro, da ação de oportunistas enlaçados nesse imbróglio histórico, cujos desdobramentos quase levaram ao patíbulo diversos dos envolvidos, não fosse a intervenção de Dona Maria, a monarca portuguesa à época, que comutou a pena capital dos condenados em prisão ou exílio.

    Todos os envolvidos tiveram, à última hora, suas penas atenuadas pelo beneplácito de Dona Maria I. Apenas um inconfidente não teve a comutação de pena para degredo ou prisão: o Alferes Tiradentes. Levado à forca, teve o corpo esquartejado para servir de exemplo à soldadesca e aos elementos do povo que ainda pudessem alimentar ideias revolucionárias de sedição. O martírio do Tiradentes também serviu para ocultar a possibilidade de exposição de outros militares de alta patente que estiveram mancomunados na pretensa conjuração. Joaquim José da Silva Xavier foi levado ao patíbulo por causa de sua alta exposição no movimento. Ele esteve envolvido numa avalanche de boatos. Imprudente e falador, confiou demais em possíveis conjurados, revelando segredos.

    A delação dos inconfidentes foi realizada por um ardiloso Joaquim Silvério dos Reis, devedor do fisco. O Visconde de Barbacena, espertamente, cancelou a execução da Derrama, providenciou a prisão dos envolvidos e pôs fim ao movimento em seu nascedouro.

    Na Borda do Campo temos o registro da participação de seis inconfidentes: Domingos Vidal Barbosa Lage, exilado para Ilha de São Tiago de Cabo Verde; o Coronel Francisco Antônio de Oliveira Lopes, degredado em Bié, na África; o seu irmão, o Padre José Lopes de Oliveira, encarcerado na fortaleza de Inhambane, em Moçambique; o Coronel José Ayres Gomes, que morreu no mesmo presídio, o Padre Manuel Rodrigues da Costa, residente na Fazenda do Registro Velho, o único dos seis que conseguiu retornar de seu exílio e Joaquim Silvério dos Reis, o delator.

    Detalhes sobre os inconfidentes da região da Borda do Campo:

    Joaquim Silvério dos Reis Montenegro Leiria Grutes (1756-1819) contratador e fazendeiro, foi o primeiro delator da conjuração mineira, natural da cidade de Leiria, no Reino de Portugal, então solteiro e residente na Borda do Campo, tinha ali várias propriedades, as fazendas da Caveira de Baixo, da Ressaquinha e da Trapizonga. Segundo atestou o Visconde de Barbacena, em 25 de fevereiro de 1791, Joaquim Silvério denunciou-lhe, oralmente, a conjuração, tendo-o feito logo depois por escrito a delação que se acha nos autos. A denúncia escrita é datada da Borda do Campo. Negociou a delação em troca do perdão de suas dívidas junto ao fisco. Joaquim Silvério sofreu um atentado anônimo, a bala, em junho de 1790, no Rio de Janeiro. Em Minas, na porta de sua residência, um homem levou coronhadas na cabeça à noite, quando se vestia com uma roupa parecida com a do contratador. Tentaram incendiar a sua casa e era xingado nas ruas. Mudou-se para Lisboa em 1794, onde ganhou uma pensão do governo. No mesmo ano, o príncipe regente Dom João lhe perdoou a dívida. Retornou ao Brasil acompanhando a Corte, em 1808, e fixou residência no Maranhão. Morreu em 1819.

    Domingos Vidal Barbosa Lage (1761-1793) foi médico, um dos dois estudantes que se encontraram com Thomas Jefferson, líder revolucionário norte-americano, na França. Barbosa Lage era primo de Francisco Antônio de Oliveira Lopes e do Padre José Lopes de Oliveira. Barbosa Lage foi preso no dia 19 de julho de 1789 e conduzido à cadeia de Vila Rica. Ele foi a 27ª pessoa inquirida na Devassa, sofrendo diversos interrogatórios em Vila Rica e no Rio de Janeiro. Barbosa Lage foi considerado parte ativa na conjuração por saber de detalhes para se produzir pólvora no Brasil e também do conhecimento que possuía dos planos de Tiradentes de matar o governador da capitania, o Visconde de Barbacena.

    Francisco Antônio de Oliveira Lopes (1750-1794) foi coronel do Regimento de Cavalaria de Auxiliadores de São João Del Rei e era proprietário de uma importante fazenda na Ponta do Morro, Termo de São José do Rio das Mortes, atual município de Prados. O coronel também exercia atividades de mineração e por sua riqueza, foi um dos poucos implicados na conjuração por idealismo, ao invés de problemas financeiros. Obeso, era chamado de “come-lhe milho” pela sua grande velocidade ao falar. Oliveira Lopes era primo de Bernardina Quitéria, esposa do delator Joaquim Silvério dos Reis. Francisco Antônio de Oliveira Lopes foi casado com a irmã de Domingos Vidal Barbosa, Hipólita Teixeira de Melo Carvalho, autora do famoso bilhete: “Tiradentes foi preso no Rio. Quem não é capaz para as coisas não se meta nelas. É melhor morrer com honra que viver em desonra. Quem não reagir será preso. Convoquem a tropa do Serro e façam um VIVA O POVO!”  O casal não tinha filhos, adotaram um sobrinho de Bárbara Eliodora, de nome Antônio.

    Padre José Lopes de Oliveira (1740-1796), homem letrado, formado em Coimbra, nasceu na Fazenda do Ribeirão de Alberto Dias (atual Alfredo Vasconcelos-MG), onde passou a ser capelão a partir de 1763. A sua participação na conjuração mineira se devia à estreita ligação dele com Joaquim Silvério dos Reis, de quem era cunhado e também pelo envolvimento com seus outros parentes: Antônio Francisco de Oliveira Lopes (seu irmão) e José Ayres Gomes (primo).

    José Ayres Gomes (1734-1794) um dos homens mais ricos da região, fazendeiro, sócio de João Rodrigues de Macedo. Filho mais novo de João Gomes Martins, fundador do arraial que levou seu nome, mais tarde município de Palmira (atual Santos Dumont-MG), foi casado com Maria Ignácia de Oliveira, filha do Tenente-Coronel Manuel Lopes de Oliveira. José Ayres Gomes tornou-se proprietário das fazendas da Borda do Campo e da Mantiqueira, bem como dos sítios do Quilombo e do Confisco, onde plantava trigo e do Engenho, onde possuía um alambique. José Ayres Gomes, no somatório de suas propriedades, possuía um total de 114 escravos. Proeminente personalidade da capitania, subscreveu o requerimento em que vários proprietários e membros da comunidade do Arraial da Igreja Nova de Nossa Senhora da Piedade (atual Cidade de Barbacena-MG) solicitavam ao governador a elevação do povoado à categoria de vila. Na Fazenda da Borda do Campo ocorreram reuniões de inconfidentes e, várias vezes, Ayres Gomes recebeu o Tiradentes em sua propriedade. A ele foram atribuídos uns versos contra os portugueses que também influenciaram negativamente na decisão dos juízes da Alçada quando de seu processo. Era dito que o Coronel José Ayres Gomes costumava falar dos portugueses com muita injúria, liberdade e soberba, fazendo-se saber que era poderoso senhorio possuidor de quarenta e tantas sesmarias nas Gerais da Mantiqueira, jactando-se que no Brasil ninguém possuía maior ducado do que ele. A tradição conta que, detido, foi imediatamente levado preso para o Rio de Janeiro, não lhe sendo permitido despedir-se da esposa e dos filhos. Condenado ao exílio deixou escrito: Livro de José Ayres Gomes que deixa nesta cidade do Rio de Janeiro para se entregar a minha mulher D. Maria Ignácia de Oliveira e a meus filhos João Ribeiro, José Ayres, João Ayres Gomes e a meu compadre e Revdmo. Pe. Silvestre Dias de Sá para saberem das minhas dívidas e pagar-se as mesmas dívidas até onde chegar o valor dos meus bens para desencargo de minha consciência. Feito este 1º assento neste livro em 6 de maio de 1792 que como vou degredado para Moçambique, para o Presídio de Inhambane e poderei morrer para se saberem arrumar, e ainda que fiquem sem nada paguem a todos. (a) José Ayres Gomes. As suas propriedades foram levadas à praça e arrematadas por sua mulher. João Rodrigues de Macedo foi compadre e sócio de José Ayres Gomes. Macedo foi omitido nos processos da inconfidência mineira, mas é considerado uma das eminências pardas da conjuração.

    Padre Manuel Rodrigues da Costa (1754-1844) nasceu no Arraial de Nossa Senhora do Carmo Alegre dos Carijós, filho dos portugueses Capitão-Mor Manuel Rodrigues da Costa e Joana Teresa de Jesus. Era o Padre Manuel Rodrigues afilhado do rico João Rodrigues de Macedo. Estudou no seminário de Mariana e ordenou-se padre em 1780. Manuel Rodrigues sempre residiu na fazenda de sua propriedade, a de nome Registro Velho. Nessa fazenda, o Padre Manuel Rodrigues, hospedou o Tiradentes que o convenceu a participar da conjuração mineira. Os interrogatórios que lhe foram feitos nos dias 30 de junho de 1789 e 22, 29, 30 e 31 de agosto de 1791 declarou ter 35 anos de idade e viver de suas ordens, expôs, em resumo, ter conhecido o Tiradentes quando da época da chegada a Minas do Visconde de Barbacena e que o descontentamento entre o povo era grande com o saído governo corrupto de Luiz da Cunha Menezes. O envolvimento de Rodrigues com o Tiradentes foi confirmado por outros conjurados e ele foi acareado com o Coronel José Ayres, o Coronel Francisco Antônio e Padre José Lopes. O historiador Joaquim Norberto  afirma que, Tiradentes vindo do Rio se hospedou no Registro Velho e falou ao Padre Manuel Rodrigues sobre um levante que se estava organizando na capitania e que este sabia que essas coisas estavam mais adiantadas do que presumia o alferes e que orientara o militar a ser mais prudente e não tocar em tais assuntos com qualquer um e tomar cuidado para que nada de mal lhe acontecesse. Preso, Manuel Rodrigues foi exilado, mas, conseguiu voltar ao Brasil após o fim de seu degredo em Portugal, dedicando-se à administração de sua fazenda, a do Registro Velho. Em sequência à Revolução Liberal do Porto, foi eleito para as Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa em 1820. Rodrigues participou ativamente dos acontecimentos que levaram ao Dia do Fico e à Independência do Brasil. Elegeu-se deputado por Minas Gerais à Assembleia Constituinte de 1823 e reelegeu-se para a Legislatura Ordinária de 1826. Em 1831, Dom Pedro I, que o admirava, hospedou-se na Fazenda do Registro Velho, condecorando-o com as Ordens de Cristo e do Cruzeiro e nomeando-o cônego da Capela Imperial. Em 1833, foi o Padre Manuel Rodrigues um dos articuladores do movimento que culminaria com a Revolução Liberal de 1842. Rodrigues foi o último dos inconfidentes a falecer e foi sepultado na Matriz de Nossa Senhora da Piedade em Barbacena.

     

    NOTA DA REDAÇÃO: Silvério Ribeiro é Pesquisador e Escritor.

     

    Fontes:

    DORIA,  Pedro. 1789. A história de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independência do Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017.

    MASSENA, Nestor. Barbacena; a terra e o homem/ Nestor Massena – Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1985.

    SANTOS, Lúcio José dos. A Inconfidência Mineira. Papel de Tiradentes na Inconfidência Mineira, 1922.

    SAVASSI, Altair José. Barbacena 200 Anos. Editora Lemi.

     

    Imagem: Jornada dos Mártires, de Antônio Parreiras. Retrata a passagem, em Matias Barbosa, dos inconfidentes presos: óleo sobre tela de 1928.

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