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Diário de uma forasteira – Semana 15: Fé, história e tradição

Por Denise Gasparini

 

          Erguida em um ponto da cidade que já foi conhecido como Bela Vista, remontando aos tempos em que Barbacena ainda tinha nome de arraial e o Brasil ainda se fazia colônia portuguesa, a Igreja de Nossa Senhora da Assunção enfeita o cenário urbano com seus traços neoclássicos guarnecidos de elementos do rococó e com a fachada em pedra sabão, típicos do Barroco mineiro.

          A linda construção histórica, idealizada pela Irmandade da Boa Morte, fundada em meados do século XVIII e que se mantém ativa até os dias atuais, teve em uma capela de madeira a sua primeira sede, que deu lugar ao templo definitivo após árduo trabalho de construção que, segundo relatos, durou quase todo o século XIX.

          Hoje, circundada pelo bairro da Boa Morte, tradicional vizinhança barbacenense com ar residencial, e conhecida mais pelo apelido de Igreja da Boa Morte que por seu nome original, ela simboliza história, fé e memória para a cidade, permanecendo como uma silenciosa guardiã do tempo com suas torres arredondadas que parecem vigiar a cidade e os que passam por ela.

          Desde minha chegada a Barbacena, observei com curiosidade o nome pelo qual os moradores chamam a igreja e a vizinhança, e que ficou eternizado no imaginário da cidade: Boa Morte. À primeira vista, pareceu-me mesmo uma contradição, como uma antítese poética, dessas que a língua portuguesa cisma em pregar nos que se apressam diante de suas palavras. Afinal, o termo morte se associa ao luto, ao silêncio e à ausência, por vezes com a dor; enquanto o boa parece apresentar algo de acolhedor e jubiloso diante da finitude que nos espera a todos. Percebi, então, que no dicionário barbacenense, a combinação Boa Morte diz menos sobre partir e mais sobre permanecer.

          Afinal, a Igreja de Nossa Senhora da Assunção permanece como arauto da cidade, anunciando que o tempo pode passar resguardando a memória e a história. Permanece como espaço de encontro que conecta as pessoas pela fé, atravessando gerações sob o dobrar dos sinos. Permanece como referência cultural, inspirando todos os tipos de arte e lendas. Permanece como afeto, fazendo parte da vida de tantas pessoas que têm o templo como testemunha de suas histórias de vida: casamentos, batizados, funerais. Permanece como marco da paisagem, hoje urbana, que a circunda, exercendo curioso fascínio nos que param para observá-la em seus minuciosos detalhes.

          Como moradora do bairro, não me canso de contemplar a construção com encantamento, descobrindo novas nuances a cada olhar: percebendo as diferentes formas com que a luz do sol banha sua beleza solene ao longo do dia e sentindo renovar-se o fascínio a cada nova descoberta sobre sua arquitetura e sua história. A grandeza das torres, a imponência do sino, a estética da fachada, as linhas elegantes do altar, a beleza dos lustres de cristal doados pela Baronesa Maria Rosa, a harmonia da pintura da nave principal feita pelo artista barbacenense Osmar Faria, a atmosfera silenciosa e serena do templo. Isso tudo somado ao mistério da lenda da serpente da torre, aos registros sobre os raios que atingiram a igreja, à alegria dos festejos religiosos, ao solene cenário das tradições, da memória e da fé inscritos em suas paredes de pedra, que me deslumbram novamente a cada contemplação… um sem fim de epifanias.

          Talvez o nome Boa Morte, que insiste em sobreviver na igreja e no bairro, seja a maneira encontrada pela cidade e por seus moradores para desafiar o esquecimento e a finitude, conciliando crescimento e modernidade com tradição e memória e lembrando, acima de tudo, que o pertencimento começa pelo reconhecimento da própria história.

 

NOTA DA REDAÇÃO: Denise Gasparini (@denise.gasparini.bq) é mãe, filha, irmã, tia, professora do Núcleo de Letras do Instituto Federal Sudeste de Minas Gerais – Campus Barbacena e barbacenense em formação.

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