Por Sérgio Monteiro (Jornalista e Atleticano)
Antes de escrever este texto, eu preciso pedir desculpas ao meu pai. Afinal, de onde quer que ele esteja, certamente torce o nariz ao ver que o seu filho não tem mais aquela vibração sem fim durante os jogos do Galo. Eu ainda sou e vou morrer atleticano, pai. Isso corre nas veias, não tem jeito. Mas eu decidi pela minha sanidade mental. Prometi pra mim mesmo que vou ter o mesmo entusiasmo que têm os jogadores, o treinador e os acionistas do clube. Mais do que isso, faz mal à saúde. E eu já não tenho mais vinte e poucos anos faz algum tempo.
Eu ainda sou o mesmo atleticano das lágrimas pelo gol do Paulinho Kiss, por ver a própria torcida queimar as bandeiras do clube naquele empate com o Coritiba, pelo rebaixamento de 2005, pelo gol do Negrini no primeiro título da Conmebol, escondido na casa da minha avó, ouvindo pelo radinho. Eu ainda me arrepio com vídeos da torcida do Galo. Eu ainda sinto todos os dias aquela derrota para a Portuguesa e aquela para o Botafogo.
Eu ainda comemoro feito louco os gols de Tardelli, Hulk e Robinho sobre aquele outro time da cidade. Eu tenho o CD com a gravação de todos os gols do Galo na Divisão Especial de 2006. Eu deliro com o chapéu do Danilinho ou com o Fábio lá de costas a chorar. Ahhhh e aquele pênalti perdido pelo Riascos, que partiu para a bola? E aquele escorregão do paraguaio amigo, com o gol escancarado? Isso tudo mexe comigo, pai. Sempre vai mexer. De vez em quando, me pego cantando “Curê, Curê, Curê, Curê, é o melhor para sobreviver”, ou “Ah, é Mixirica”!!!!
Mas o fato é que, durante os jogos, a emoção deu lugar a uma tristeza sem fim. Não por minha culpa. Mas são outros tempos, né? Hoje o negro é mal visto na torcida do Galo e até expulso pelos seguranças do clube por estar dançando durante a partida. Hoje, o jornalista de esquerda tem o seu desenho apagado do muro de nosso estádio só por ser de esquerda e discordar daqueles caras que tomaram o clube e parecem brincar de brasfoot. O Galo foi criado pelo povo, né? No coreto do Jardim Municipal. O seu primeiro uniforme e a sua primeira bandeira tinham nome e sobrenome: Alice Neves. Gente como a gente.
Gente como o Sempre, torcedor símbolo desse time. Gente como Ubaldo, o atacante carregado nos ombros pela Massa depois de fazer o gol de mais um título estadual. Só que Ubaldo era negro, né? Imagina se fosse nos dias atuais? A cúpula daria um jeito para impedir aqueles negros atleticanos carregando o negro Ubaldo nos braços pelas ruas da cidade….
É sobre isso. Como diz meu primo Flávio Poli, o Galo acabou. Hoje existe o Atlético. E esse não tem absolutamente nada a ver com as nossas raízes. Seguimos, pois, atleticanos. E ainda fanáticos, eu diria. Mas o entusiasmo é outro. O grito é para dentro. A devoção vem sempre acompanhada por uma indignação.
Se eu pudesse, eu mudaria essa história. Era capaz de entrar em campo contra o Lanús para ensinar a essa turma como jogar uma final de Sul-Americana. Ou chamava o Jason para ensinar nossos atacantes a finalizar no gol daquele time que morou na Série B por três anos.
Não é sobre ganhar ou perder. Aliás, se tem uma torcida da qual podemos dizer isso com total firmeza e segurança, é a do Galo. Vitórias e títulos sempre nos interessam sim. Mas não eram condicionais para externarmos o nosso amor, a nossa devoção. Hoje não somos mais o time do povo, “do preto, do favelado”. Somos o time do Menin, do Ricardo Guimarães, do Renato Salvador. Ah, e do Vorcaro também. Impossível manter o mesmo entusiasmo.
Somos da época em que o nosso atacante ia ao Maracanã e fez dois gols no mesmo time que nos humilhou domingo passado, mesmo mancando. Da época em que o nosso time tinha brios e fazia o impossível, virando para 4 x 1 o placar contra esse mesmo time após a torcida deles debochar da nossa, repetindo um canto que é só nosso. Com o time atual, o fim da história é sempre outro. Naquela época, os nossos ídolos até mudavam de time, mas não da forma como acontece agora, abandonando o barco minutos antes do jogo contra nosso maior rival. Para jogar no Galo, era preciso conhecer a importância desse jogo.
Amanhã tem Galo contra Cienciano, né? Claro que vou assistir (mesmo depois de assistir Paris Saint-Germain x Bayern pela Champions e perceber, mais uma vez, que o esporte jogado aqui no Brasil é outro). Mas não sou capaz de prometer entusiasmo. Vou cumprir tabela. Meu entusiasmo só seria possível se o Barba resolvesse surpreender e lançar a campo a seguinte escalação: Gabriel Delfim, Luís Gustavo, Iván Román e Pascini; Igor Toledo, Eric, Iseppe; Gabriel Veneno, Cauã Soares e Riquelme. Aí, eu prometeria até quebrar a abstinência e tomar uma cerveja para assistir à partida. Mas, infelizmente, não é isso que vai acontecer. O Galo atual prefere tratar a sua torcida no estilo do meme “Amanhã o Galo joga. Se quiser assistir”…










