
Eu, você, nós estamos entrelaçados e imersos em um ecossistema formado por humanos, por componentes físicos e virtuais. Nesta ambiência digital, as tecnologias estruturam o funcionamento das plataformas, permitindo a reprodução e o consumo de comportamentos e de pensamentos do cotidiano em espaços virtuais (Maielo, 2025).
Um exemplo de comportamento do mundo real que se prolifera por meio da tecnologia da comunicação e da informação é a misoginia digital. A misoginia, aversão e ódio às mulheres, está historicamente estruturada na sociedade. Com a ambiência digital, a aversão ao sexo feminino se apresenta com uma nova roupagem para a manutenção do status quo da suposta superioridade masculina.
De toda forma, este desenho misógino contemporâneo implica em consequências severas na vida das mulheres: violência simbólica; justificativas para tipificações de violência (“ela estava de roupa curta”); discriminação e tentativa de silenciamento do corpo negro feminino; redução da importância das mulheres em pleitos eleitorais; na inserção no mercado de trabalho, para se ter alguns exemplos.
Muitas pessoas se perguntam: como as plataformas contribuem para o aprofundamento da misoginia digital? Sobre esta questão, vale a pena a leitura de Larissa Pelúcio “O ódio como método: misoginia, plataformas e políticas de morte”:
“Estas dinâmicas não são acidentais. Estão diretamente vinculadas às arquiteturas das plataformas – isto é, às escolhas de design, moderação, recomendação e monetização feitas por agentes privados que controlam a maior parte dos espaços digitais hoje” (Revista Cult – Dossiê – Não existe algoritmo sem gênero, 2026, p. 8):
Este comportamento de masculinidade viril, heterossexual, forte e superior às mulheres é somente uma das bases da “manosphere”. A machosfera encontra no avanço da tecnologia um espaço fértil e perigoso para a reprodução do discurso de ódio às mulheres e dos crimes digitais.
A machosfera “pode ser compreendida como um ecossistema digital transnacional, formado por comunidades, influenciadores, fóruns, canais, redes sociais ou qualquer ambiente digital, que produz e dissemina discursos misóginos e reacionários, organizados em torno de uma narrativa de crise da masculinidade” (Bruna Camilo, 2026, p. 14. Revista Cult – Dossiê – Não existe algoritmo sem gênero).
A reflexão hoje apresentada não é sobre mimimi, é sobre a misoginia digital propagada em uma machosfera que considera as mulheres como pessoas inferiores em direito e em pensamento. Entre exemplos de ações criminosas contra as mulheres estão as fakenews, notícias falsas, e a deepfake que é utilização “da inteligência artificial para criar vídeos falsos que parecem verdadeiros” (TSE/TRE-GO, 2020). Crianças, adolescentes e mulheres são ridicularizadas e, em alguns casos, desnudas, com as imagens alteradas com objetivo de exposição e/ou sugestão erótica.
A estrutura historicamente construída de discriminação precisa urgentemente de uma intervenção da sociedade civil e dos gestores públicos: campanhas de conscientização de crianças e adolescentes para a compreensão que não existe a masculinidade ideal (Camilo, 2026). A masculinidade imposta aos homens também é um fator de adoecimento e de pressão sobre os próprios homens. Deve-se incentivar uma análise crítica do conteúdo consumido nas redes sociais e, especialmente, é fundamental promover o espírito de sororidade entre as mulheres e a empatia por parte dos homens.
O respeito deve ser sempre a base dos nossos relacionamentos sociais. É difícil, mas não é impossível. Estamos todos e todas aprendendo nesta jornada que é a vida!
Para saber mais: Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres
- “Involuntary celibates (incels): acreditam que homens têm “direito” ao sexo e que as mulheres os privam disso propositalmente. A cultura extremista incel promove estupro e agressões e mistura outras ideologias, como racismo e homofobia. Incels já foram associados a atentados violentos em massa.
- Ativistas dos Direitos dos Homens (MRAs): usam uma linguagem mais acadêmica para afirmar que o feminismo e os direitos das mulheres – ao voto, à educação, a cargos de liderança – prejudicam os homens. Alegam que a sociedade é ginocêntrica, ou seja, dominada por interesses femininos.
- Pick up artists (PUAs): ensinam a coagir mulheres para fazer sexo e ridicularizam o conceito de consentimento sexual.
- Movimento MGTOW (Homens Seguindo Seu Próprio Caminho): sustenta que a sociedade está contra os homens e que a melhor opção é evitar as mulheres e até a própria sociedade.
Outros discursos de ódio de gênero comuns na machosfera incluem:
- Ideologia red pill (ou ser “redpillado”): significa “acordar” para a realidade de que o mundo favorece as mulheres em detrimento dos homens. Em referência ao filme Matrix, sugere que quem discorda tomou a pílula azul.
- AWALT: sigla de “All women are like that” (“todas as mulheres são assim”), usada para estereotipar comportamentos femininos.
- Femoids ou FHOs: significa “organismo humanóide feminino”, um termo ofensivo que sugere que mulheres são inferiores aos homens – e até mesmo à condição humana.
- Hypergamous: termo usado pejorativamente para descrever mulheres que só se interessam por homens bonitos e bem-sucedidos financeiramente”.
Referências
Assessoria de Comunicação. TSE/TRE-GO. Disponível em:
https://www.tre-go.jus.br/comunicacao/noticias/2020/Fevereiro/voce-sabe-o-que-e-deepfake. Acesso em: 26 abr. 2026.
CAMILO, Bruna. O ódio conectado: corpos, algoritmos e as guerras digitais contra as mulheres. Revista Cult – Dossiê – Não existe algoritmo sem gênero, 2026, p. 14.
MAIELLO, Maria Cristina. As dinâmicas da ambiência digital e seus impactos na opinião pública. Dissertação [Mestrado em Ciências da Comunicação]. USP. 2025. Disponível em: https://encurtador.com.br/WLny. Acesso em: 25 abr. 2026.
ONU Mulheres. O que é a “machosfera” e por que devemos nos preocupar? ONU, 16.06.2025. Disponível em: https://www.onumulheres.org.br/noticias/o-que-e-a-machosfera-e-por-que-devemos-nos-preocupar/. Acesso em: 26 abr. 2026.
PELÚCIO, Larissa “O ódio como método: misoginia, plataformas e políticas de morte”. Revista Cult – Dossiê – Não existe algoritmo sem gênero, 2026, p. 8.
Imagem de capa: Arte/UOL/ MPMT, 2025. Ministério Público do Estado do Mato Grosso. Exército de adolescentes: como Hitler da BA expõe doutrina na machosfera. MPMT, 25 de abril de 2025, 09h04. Disponível em: https://www.mpmt.mp.br/conteudo/1217/158453/exercito-de-adolescentes-como-hitler-da-ba-expoe-doutrina-na-machosfera. Acesso em: 26 abr. 2026.










