Francisco Fernandes Ladeira
A época da Copa do Mundo é uma excelente oportunidade para se estudar Geografia. Mais do que uma competição esportiva, esse evento reflete a situação geopolítica e as condições geográficas de diferentes contextos. Migrações internacionais, colonialismo europeu, governos autoritários, soft power, abalos sísmicos e conflitos, entre outras questões, marcam a quase centenária história da Copa do Mundo.
Em 1930, na primeira Copa, realizada no Uruguai – então principal potência do futebol, que comemorava o centenário de sua primeira constituição – as viagens intercontinentais eram realizadas, primordialmente, de navio. Era muito custoso e demorado atravessar o Oceano Atlântico, por exemplo. A viagem durava entre 15 e 20 dias. Assim, apenas quatro seleções europeias se dispuseram a disputar o torneio: Bélgica, França, Iugoslávia e Romênia. Naquele contexto, ainda não se falava em “globalização”.
Quatro anos depois, a Copa do Mundo deveria ter sido disputada na Suécia, mas o país escandinavo desistiu do evento por problemas financeiros. Assim, a sede foi transferida para a Itália, então sob o regime fascista de Benito Mussolini, que, percebendo o significado geopolítico do torneio, esteve presente em todos os jogos.
Seguindo o revezamento de sedes entre América do Sul e Europa, o Mundial de 1938 deveria ter sido disputado em território sul-americano. Mas, devido a uma manobra da FIFA, a França – país de origem do presidente da entidade, Jules Rimet – foi escolhida como sede. Em protesto, as seleções sul-americanas se recusaram a participar (exceção do Brasil). Por outro lado, a Espanha, que atravessava uma guerra civil, nem disputou a fase de Eliminatórias. Reza a lenda que, antes da decisão entre Itália e Hungria, o anteriormente citado Mussolini enviou um telegrama com os dizeres “Vincere o morire!” (“Vencer ou morrer!”) ao então capitão da seleção italiana, Giuseppe Meazza.
Na década seguinte, a influência política no torneio futebolístico foi mais radical. As Copas programadas para 1942 e 1946 não foram realizadas por causa da Segunda Guerra. Com o continente europeu devastado pelo principal conflito armado da história, em 1950 a Copa voltou a ser disputada em um país sul-americano. No caso, o Brasil. O Mundial seguinte teve a Suíça como sede, país que não se envolveu na Segunda Guerra. Aliás, os suíços são historicamente conhecidos pela neutralidade em conflitos. Portanto, na época, o país contava com a infraestrutura intacta para receber os jogos do torneio.
O mesmo critério foi adotado para a escolha da sede de 1958: a Suécia. Naquele ano, pela primeira vez, todas as nações que formam o Reino Unido estiveram presentes numa Copa do Mundo: Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales. Este último se classificou para o torneio após disputar uma repescagem contra Israel – que, na época, jogava as eliminatórias asiáticas, sob boicote dos países da Liga Árabe.
Em 1962, no Chile, houve a Copa da superação. Dois anos antes, o país andino – localizado em uma zona de alta instabilidade geológica, resultado do choque entre a Placa de Nazca e a Placa Sul-Americana – sofreu um devastador terremoto. No Mundial seguinte, sediado na Inglaterra, Eusébio, da seleção portuguesa, foi o artilheiro, com nove gols marcados. No entanto, o jogador nasceu em Moçambique, no continente africano, então província ultramarina de Portugal.
Em determinadas ocasiões, sediar uma Copa do Mundo é uma importante vitrine para um país demonstrar sua ascensão no cenário global. Foi o caso do emergente México, em 1970. Nas Eliminatórias para o Mundial seguinte, disputado na Alemanha, a seleção da União Soviética se recusou a jogar contra o Chile no Estádio Nacional de Santiago, usado como centro de detenção e tortura pela ditadura militar de Augusto Pinochet. Quatro anos depois, foi a vez dos militares que comandavam a Argentina instrumentalizarem o mundial, vencido pelo país em seu território, como propaganda política.
Na Copa de 1982, realizada na Espanha, o xeque do Kuwait, Fahid Al-Ahmad Sabah, também dirigente da confederação de futebol do país, invadiu o campo e exigiu que o árbitro soviético Miroslav Stupar anulasse um gol da França contra sua seleção. A alegação foi de que os defensores kuwaitianos pararam a jogada porque haviam ouvido um apito vindo das arquibancadas e, por isso, o lance deveria ser paralisado. O árbitro, por sua vez, cedeu à pressão e anulou o lance.
Já a histórica vitória da Argentina sobre a Inglaterra na Copa do México, em 1986 – com dois gols de Diego Maradona, o primeiro com a mão e o segundo driblando praticamente todo o time inglês –, representou uma espécie de revanche argentina pela derrota na Guerra das Malvinas, ocorrida apenas quatro anos antes da realização da partida. Em 1990, a Alemanha foi campeã um ano depois da queda do Muro de Berlim, evento que simbolizou tanto a reunificação do país quanto o fim do socialismo no Leste Europeu. Nesse contexto, os Estados Unidos, sede da Copa seguinte, despontaram no cenário global como a única superpotência.
Em 1998, a França ganhou sua primeira taça com uma seleção formada basicamente por descendentes de imigrantes – filhos e netos da grande onda migratória de africanos para o continente europeu após a Segunda Guerra Mundial. Quatro anos depois, enfim, a Copa do Mundo foi realizada fora da América do Sul e da Europa, e com dois países-sede: Japão e Coreia. Devido ao fuso-horário, os brasileiros assistiram aos jogos daquele torneio durante a madrugada ou no início da manhã.
A Copa de 2006 foi a única até agora disputada pela seleção de um país inexistente: “Sérvia e Montenegro”. No dia 3 de junho, aproximadamente uma semana antes do início do torneio, o parlamento servo-montenegrino proclamou oficialmente, após um referendo realizado em 21 de maio, a divisão do país em dois: Sérvia e Montenegro.
Como dito em relação ao México, em 1970, a Copa do Mundo também reflete a ascensão de determinadas nações. Os mundiais de 2010, 2014 e 2018 – sediados respectivamente na África do Sul, Brasil e Rússia – simbolizam a força da aliança intergovernamental de países emergentes conhecida como BRICS. Não é mera coincidência. Com uma audiência de bilhões de pessoas, a Copa do Mundo, atualmente, é um dos principais mecanismos de soft power.
A Copa de 2022 foi disputada nos meses de novembro e dezembro e não no meio do ano, como é corriqueiro. O motivo: o clima desértico do Catar, país-sede, marcado por um verão extremamente quente. Logo, seria inviável a realização do torneio naquela época. Por isso, a transferência para o final do outono. Ainda sobre o Catar, podemos compreender sua reduzida extensão territorial como consequência da divisão arbitrária feita pelos europeus no Oriente Médio (as chamadas “fronteiras artificiais”), cujo objetivo foi criar vários países nessa região, frustrando assim o surgimento de uma única e forte nação: a Grande Arábia.
Seguindo a tradição, antes mesmo de seu início, a Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos três países da América do Norte, já tem seus componentes geopolíticos, como a ameaça do Irã de não disputar o torneio, uma vez que recentemente o país sofreu agressões de Israel e dos Estados Unidos (uma das sedes). Além disso, o presidente estadunidense Donald Trump recebeu da FIFA o “Prêmio da Paz”.
Em suma, a Copa do Mundo não é apenas futebol. Mesmo quem é indiferente ao esporte bretão pode aproveitar o momento para conhecer melhor aspectos históricos, políticos, econômicos, sociais e geográficos de outros países e povos.
NOTA DA REDAÇÃO: Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp. Autor do livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV










