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Diário de uma forasteira – Semana 12 – Dia de Feira

Denise Gasparini

 

De origem latina, feria, a palavra feira não carrega nenhuma referência à transações comerciais de qualquer tipo, Ao invés disso, o termo significa “dia santo”, “dia de festa” ou “dia de descanso”. A clássica definição dicionarizada pela língua portuguesa, que descreve a feira como uma reunião de vendedores e seus fregueses, em hora e local determinados, com fins comerciais, remonta à colonização brasileira por Portugal, com fortes raízes no catolicismo, e ao curioso fato de, em dias de festas religiosas, o comércio de produtos do campo e artesanais se concentrar ao redor das igrejas a fim de arrebanhar os fiéis a gastarem ali seus cobres, ocorrendo assim a associação da folga religiosa à compra e venda de produtos diversos. A chegada dos colonizadores ao Brasil trouxe consigo o costume dessas reuniões informais, realizadas ao ar livre, para negociação de produtos, inspirado no modelo português.

 

Para além das transações do livre comércio de produtos agrários em geral, as feiras representam, hoje em dia, marco cultural e patrimônio imaterial que preserva e fortalece práticas, saberes, expressões e modos de fazer do povo local. Ela se preserva, para além das transações de compra e venda, como ponto de encontro e identidade em cidades grandes e pequenas do país.

 

Em nossa Barbacena, não poderia ser diferente. Temos as já tradicionais feiras livres que acontecem aos sábados na Avenida Irmã Paula e domingos na Avenida Olegário Maciel, abastecendo comércios e famílias com artigos agrícolas e manufaturados dos mais diversificados e bonitos de se ver. Vocês, queridos leitores, já se aperceberam das cores e aromas dos produtos, além do intenso e alegre movimento de vai e vem que enchem de vida as ruas tomadas pelas barracas e pelo povo? Eu sou frequentadora assídua e, entre um pastel (de queijo) com caldo de cana, uma prosa rápida aqui e ali, a degustação de alguns produtos e muitos sorrisos e cumprimentos, vou em busca de frutas e verduras frescas, ovos caipiras e de rosas, símbolos da cidade que surgem em todas as cores. Eu mesma já trouxe para casa espécimes tradicionais como brancas, vermelhas e cor-de-rosa, e mais ousados, como laranjas, amarelas e até azuis, para enfeitar minha casa, lembrando-me todos os dias das dádivas e belezas que as coisas pequenas e simples encerram em si.

 

Além delas, há a Feira de Origem, que acontece às sextas-feiras à tarde nos arredores da Praça dos Andradas e comercializa produtos locais como artesanatos, biscoitos, quitandas, produtos orgânicos e provenientes da agricultura familiar, além de comidas de rua e chopp gelado. A Feira de Origem também costuma ser palco de manifestações artísticas e culturais, convidando pessoas de todas as idades a ocupar seu espaço para começar bem o fim de semana.

 

Eu e minha família nos reunimos na feirinha da praça no fim de tarde de uma sexta-feira qualquer e compartilhamos as comidinhas e bebidinhas, a admiração pelo que estava exposto e a venda, a observação do movimento de fechamento das casas comerciais da região e a dinâmica dos que passavam por ali apenas por um momento e dos que vinham para permanecer um pouco mais para encontrar os amigos e jogar um pouco de conversa fora.

 

Em nossa cidade, as feiras são, e, desde março de 2021, tombadas como patrimônio imaterial, isto é, como todo o conjunto de conhecimentos popularmente estabelecidos e transmitidos entre gerações a fim de preservar a identidade cultural da comunidade. O Conselho Municipal do Patrimônio Histórico de Barbacena conferiu o título a essa prática devido à sua importância histórica e cultural para a memória local.

 

Sim, querido leitor, a feira é abastecimento, é história, é tradição, é comunidade, é confraternização. É onde, entre trocas e encontros, entre o simples e o corriqueiro, a cidade a cidade pulsa, se reinventa e se reconhece. É onde ela revela, em essência, o que realmente é.

 

NOTA DA REDAÇÃO: Denise Gasparini (@denise.gasparini.bq) é mãe, filha, irmã, tia, professora do Núcleo de Letras do Instituto Federal Sudeste de Minas Gerais – Campus Barbacena e barbacenense em formação.

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