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PARTE III: O Vínculo Perigoso: Desejo e Proximidade

Por Samuel Braga de Rocha Paiva, Graduado e Mestre em História, com orientação de Dr. Delton Mendes Francelino

Se no texto anterior o desafio ético estava associado à distância moral e emocional, aquela que enfraquece a empatia e torna o sofrimento alheio menos visível, a questão da proximidade se emerge como um problema de natureza distinta, mas, igualmente complexa. Estar junto envolve riscos e responsabilidades que a distância tende a ocultar. Compartilhar a vida, os espaços, os afetos e as frustrações nos colocam diante de um dilema fundamental sobre o modo como a presença do outro nos atravessa e sobre como é possível conviver sem perder a própria integridade.

O vínculo humano, indispensável à nossa existência, pode também se tornar a fonte de afetos destrutivos, capazes de ferir tanto a si mesmo quanto ao outro. Por isso, a convivência exige um exercício delicado, no qual o cuidado e o reconhecimento dos limites assumem a forma mais elevada de respeito. A ética da distância e a ética da presença não são opostas, e sim complementares. Ambas procuram responder ao mesmo problema fundamental da experiência humana, que consiste em aprender a viver com o outro sem anular a si mesmo e sem reduzir o outro à condição de objeto.

 A reflexão sobre a proximidade acompanha o pensamento ético desde suas origens. Na Grécia antiga, Aristóteles, em Ética a Nicômaco, reconhecia na amizade e na convivência o fundamento da vida ética. A philia, entendida como laço cívico e afetivo, constituía a própria possibilidade da Pólis. Sem ela, a cidade se desfazia. Contudo, Aristóteles insistia que a amizade só floresce entre aqueles que reconhecem limites recíprocos. O excesso, por sua vez, rompe o equilíbrio e abre caminho para a paixão desmedida, que corrói tanto quem ama quanto quem é amado. Já ali se intuía que a proximidade, quando destituída de medida, degenera em desordem.

A tragédia de Medeia reforça de maneira extrema os perigos da paixão levada além de seus limites. Diante da traição de Jasão, Medeia é capturada por um amor ferido que se transmuta em fúria. O vínculo que antes unia converte-se em ódio absoluto, culminando no assassinato dos próprios filhos. Nessa narrativa, a proximidade em excesso torna-se destempero que culmina em sangue. O amor se transforma em vingança e o sentimento passa a operar como instrumento de destruição. O ódio e o amor são afetos umbilicalmente ligados.  Nosso intuito não é reforçar o arquétipo da mulher guiada pelas emoções, e sim explicitar as dificuldades afetivas de qualquer ser humano, quando o Eu, tomado por sentimentos corrosivos oriundos da ferida infligida pelo ser amado, se entrega à lógica cega da retribuição. Nesse ponto, a satisfação do próprio anseio exige a negação do direito de existência do Outro.

Viver em sociedade implica, inevitavelmente, suscitar e sofrer afetos. Atravessar a vida sem provocar emoções é uma ilusão, pois a simples presença de alguém já mobiliza o campo afetivo ao seu redor. Uma existência que se pretende neutra, incapaz de despertar paixões ou conflitos representa a abdicação da própria potência da existência humana como tal. Ainda assim, é preciso celebrar a vida e suas paixões sem que, para isso, seja preciso obliterar tudo que se coloca entre o Eu e seu desejo. O núcleo da questão não está na repressão moralista dos desejos, mas na compreensão de seu destino psíquico.

De acordo com a psicanálise Freudiana a vida em comum impõe um custo elevado. A viabilidade da civilização depende da renúncia pulsional, o que nos obriga a recalcar e sublimar impulsos primários, como a busca de prazer ilimitado e a agressividade constitutiva. Contudo, é precisamente essa energia desviada que se converte em força criadora. Da sublimação nascem a arte, a ciência e a capacidade de cooperar e construir mundos compartilhados. O processo de socialização, portanto, pode operar de forma produtiva ao redirecionar pulsões para fins construtivos. Em contextos extremos, inclusive, a própria violência pode funcionar como motor de transformações profundas nas estruturas sociais e benefícios coletivos.

Não há uma medida clara que indique quanto de nossas pulsões pode ser reprimido e quanto pode ser expresso de forma verdadeiramente saudável. O recalque excessivo, além de regular a ação para tornar possível a vida em sociedade, produz um afastamento em relação ao desejo autêntico. O sujeito se distancia da fonte legítima de sua vontade e aquilo que foi reprimido tende a retornar de algum modo. Esse retorno pode assumir a forma da sublimação, que em certos casos se converte em práticas positivas, em outros se manifesta em ações nocivas ao próprio indivíduo e às pessoas ao seu redor. Surgem compulsões que buscam preencher um vazio persistente ou, em um quadro mais grave, o ressentimento se cristaliza e passa a se reproduzir na violência como forma de enfrentar as frustrações impostas pelo mundo.

Ao longo da trajetória do indivíduo, os afetos que o atravessam, quando apreendidos de modo insuficiente por uma capacidade sensível pouco elaborada, tendem a reforçar níveis mais elementares da experiência emocional. Medo, insegurança fragilidade, e tristeza na ausência de instrumentos adequados de elaboração simbólica, são frequentemente desviados para respostas reativas, muitas vezes marcadas pela violência. A raiva, em si mesma, não constitui um afeto reativo nem ilegítimo. Ela adquire funcionalidade quando vinculada a uma experiência concreta que a suscita. Entretanto, quando emerge de forma difusa, como reação pela dificuldade de lidar com outros afetos e da impossibilidade de encontrar maneiras de elaboração, ela tende a se acumular e ganhar densidade com o passar do tempo. Nesses processos, experiências sensíveis pretéritas se cristalizam de maneira cumulativa, reduzindo-as a um mesmo registro afetivo sob o signo da raiva, o que potencializa explosões desproporcionais e inesperadas, ajudando a compreender por que, não raras vezes, indivíduos chegam a cometer atos extremos a partir de motivos aparentemente banais.

Costumamos projetar no Outro a responsabilidade por nossas frustrações, sem nos determos na compreensão da origem de nossos vazios. Muitos desses anseios não são, em si, passíveis de preenchimento, mas tornam-se facilmente canalizáveis por um aparato social e cultural que estimula nossos traços miméticos e nos conduz a um engodo que aprisiona o desejo. No mundo social, os valores não emergem de forma espontânea ou neutra, mas são produzidos e reiterados em interações intensamente mediadas e difundidas. Nesse contexto, o caráter agonístico e topológico da modernidade tardia neoliberal reforça espaços de disputa pela realização do desejo, inserindo os indivíduos em uma constelação contínua de conflitos cotidianos.

Diante desse percurso, a proximidade revela-se como um campo inevitável de risco. É nela que o desejo se realiza, porém, também é nela que muitas vezes o desejo se frustra. Viver implica que os afetos ganhem densidade e que suas realizações possam alcançar os aspectos mais positivos ou perniciosos. A convivência expõe o sujeito ao outro de forma irredutível, tornando visível tanto a potência do vínculo quanto sua capacidade de produzir sofrimento quando os limites se desfazem. A proximidade, portanto, não pode ser pensada apenas como valor positivo ou ameaça a ser evitada, mas como um espaço tênue e dinâmico, em que devemos buscar a possibilidade de coexistir sem sucumbir a aniquilação do outro nem à anulação de si.

Porém, se a tradição psicanalítica enfatizou o recalque, a renúncia e a gestão do desejo como condições da vida social, permanece aberta a questão sobre os efeitos dessa lógica quando ela reforça as questões da falta e da culpa na existência em vez de liberar a vida para sua vontade de potência. Em que medida a insistência na contenção não acaba por reforçar os próprios circuitos de ressentimento, violência e captura do desejo que pretende evitar? Essa indagação conduz a uma inflexão crítica que desloca o problema da proximidade para além da economia da falta e da repressão.

 

 

 

 

 

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