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Você tem medo de que?

A crônica de Francisco Santana

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Eles me responderam: avião, solidão, falar em público, morrer, dentista e a cidade do Rio de Janeiro. Para o professor de Filosofia André Barbosa, “o medo pode ser definido como uma alteração do equilíbrio emocional, ocasionando um estado de alerta, em razão de alguma causa. Normalmente conseguimos identificar o fator gerador, e, por conseguinte, podemos controlar mais ou menos as nossas reações”.

Em se tratando de medo, venci alguns e sinto outros enraizados dentro de mim. Evidente que não transformarei esse relato numa sessão de terapia, mas falarei sobre um que a televisão brasileira o está enfocando como “reality” de grande aceitação popular. Eu me refiro ao nanismo um transtorno caracterizado por uma deficiência no crescimento onde a pessoa fica com baixa estatura se comparada com a média da população. Segundo o “Tratado de Pediatria Nelson, obra de referência produzida pela Sociedade Brasileira de Pediatria, a altura dos homens que têm nanismo não ultrapassa 1,45 metro e a das mulheres é menor do que 1,40 metros. Pessoas com nanismo eram chamadas de anões, palavra carregada de conotação depreciativa, que prejudica sobremaneira sua auto-imagem e sua socialização”. A palavra anão é também, sinônimo do que é considerado indigno e torpe.

Pelo relato, já deu para perceber que meu grande medo quando criança era pela figura do anão. Como tudo começou? Eu estava assentado numa calçada de minha rua, quando apareceu um senhor de mãos dadas a um menino fisicamente estranho. O seu biotipo chamou a minha atenção e eu não tirava os olhos dele. Sua estatura era baixa, pernas e braços curtos se comparados com o tamanho normal do tronco, cabeça grande, dedos curtos e grossos, mãos pequenas e arqueamento das pernas, mobilidade comprometida na articulação do cotovelo. Seu pai, percebendo a minha curiosidade excessiva abaixou e disse algo no ouvido do menino. Ele relutou por alguns segundos e o pai repetiu o gesto. Ele então largou a mão do pai, cerrou as mãos, abriu os braços (à la Huck), soltou um grito amedrontador: RAAAAAAAAAAAA!!!!!! e fingiu que iria me pegar. Eu saí em disparada pela rua causando inveja ao Usain Bolt, gritando e pedindo socorro.  

Cheguei em casa sem forças para falar e contei a história para minha mãe. Sabida, ela se aproveitou do meu medo para me chantagear. Quando ela me pedia algo e eu reclamava, ela me dizia: “Vou chamar o anão para lhe pegar!”. Eu chorava e dizia: “Mãe! Pelo amor de Deus, não faça isso. Eu juro e prometo que tudo que a senhora pedir, farei sem reclamar!”. Esta cena se repetiu por várias vezes. Aquele menino me aterrorizava e me encantava ao mesmo tempo. No seu olhar, eu enxergava meiguice, bondade, amizade, piedade e amor. Comentei o ocorrido com alguns colegas que riram da minha história. Um deles me disse: “Chico! Ele não é uma criança, ele é um anão e deve ser mais velho que você!”. A palavra “anão” entrou e ficou na minha mente. Bastava um colega gritar: “Chico! Olha o anão, ele vai pegar você!”. Eu saía em disparada gritando pedindo ajuda. Um dia pensei: Se ele tem olhar de pureza, por que esse medo? 

Numa certa manhã, ele apareceu, como sempre, de mãos dadas com o pai quando eu jogava bolinha de gude. Pensei: “hoje vou me aproximar dele e serei seu amigo”. Aproveitei o instante que o pai entrara na casa do vizinho e ele ficou do lado de fora me observando. Venci o medo e o convidei para brincar comigo. Ele acenou negativamente com a cabeça, olhando para o interior da casa parecendo temer o pai. Eu joguei uma bolinha para perto dele que a chutou para perto de mim. Pela primeira vez eu o vi sorrir. Ele parecia alegre, feliz com a minha pretensa amizade. O pai saiu da casa, lhe deu a mão e os dois foram embora. Eu o segui com os olhos, ele olhou para trás várias vezes e quando percebeu que não dava mais, me acenou com as mãos minúsculas e deu um sorriso lindo. Ganhei um amigo diferente sem saber o seu nome, assim pensei.

Por várias vezes ele veio à casa do nosso vizinho e eu percebia que ele fugia de mim e dos meus amigos. O pai estava mais vigilante e o que acontecia eram acenos de mãos. O pai temia que o filho sofresse algum insulto por preconceito e por isso o preservava dos contatos. Passaram-se dias, semanas, meses e o meu amiguinho nunca mais apareceu. O pai aparecia, porém sozinho. Fui à casa do vizinho saber do seu paradeiro. A resposta entristeceu-me, ele morrera há semanas. Foi traumatizante receber a notícia de sua morte sem saber o seu nome e sua origem. 

Nada acontece por acaso e eu penso que ele entrou na minha vida para que o meu temor à figura do anão tivesse um fim e que eu fosse um multiplicador de boas informações sobre eles.  

(Fonte: Internet, texto – O medo e a visão filosófica escrita pelo Professor André Barbosa, Dráuzio Varela, Blog do Scheinman – Os anões, o preconceito e a inclusão social). 

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