Vigilância real, vigilância real

Por Francisco Fernandes Ladeira 

No final do século XVIII, o filósofo e jurista britânico Jeremy Bentham recorreu ao termo “panóptico” para se referir a um tipo ideal de penitenciária, cuja arquitetura permite a um único vigilante observar todos os prisioneiros, sem que eles possam saber se estão ou não sendo observados. Nesta penitenciária, cada um, em seu lugar, está bem trancado em sua cela, de onde é visto de frente pelo vigia; mas os muros laterais impedem que entre em contato com seus companheiros. Assim, o medo e o receio sobre não saber se, de fato, está sendo observado leva o prisioneiro a adotar o comportamento desejado pelo vigilante.

Posteriormente, no clássico Vigiar e Punir, Michel Foucault apontava que este tipo arquitetônico de maximização da eficiência do poder também se relacionava à outras instituições normativas. Segundo Foucault, bastaria, então, colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar.

Entretanto, como bem observou Byung-Chul Han, no livro Sociedade da Transparência, tal concepção de vigilância, visualizada por Bentham e Foucault, foi significativamente alterada com o advento da internet, sobretudo com as redes sociais. Atualmente, não são apenas as instituições normativas que podem vigiar/controlar a vida de uma pessoa, mas potencialmente todo o planeta, por meio do espaço virtual, que constitui um único panóptico, onde não existe muralha que possa separar o interior do exterior.  

Diferentemente do “panóptico tradicional”, o “panóptico digital” não significa agressão à liberdade; tampouco impede a comunicação entre os “vigiados”. Nessa nova modalidade de supervisão, as pessoas mantem uma intensa comunicação entre si e se expõem livremente ao olhar alheio, se vigiando mutuamente. O sujeito não se desnuda por coação externa, mas a partir de uma necessidade gerada por si próprio; em que o medo de renunciar à sua esfera privada e íntima cede lugar à necessidade de se expor à vista sem qualquer pudor. 

Portanto, a especificidade do “panóptico digital” é o fato de que seus frequentadores colaboram ativamente e de forma pessoal em sua edificação e manutenção. “O presidiário do panóptico digital é ao mesmo tempo agressor e vítima, e nisso reside a dialética da liberdade, que se apresenta como controle”, afirma Han. Desse modo, parafraseando Aldous Huxley, podemos concluir que a vigilância perfeita tem a aparência de liberdade: uma prisão virtual sem muros, na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema onde, graças à necessidade de se exibir, os vigiados têm amor à sua vigilância.

NOTA DA REDAÇÃO – Francisco Fernandes Ladeira é doutorando em Geografia pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Autor de sete livros.