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Uma questão de R

A crônica de Francisco Santana

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Esmiuçando os meus guardados, encontrei uma medalha de campeão de futebol de salão dos anos 70. Ela está descorada, enferrujada, mas guarda no verso uma frase marcante na época. Ao recebê-la de uma autoridade esportiva pensei: “Um dia escreverei algo sobre você”. Chegou o dia.

A emissora de rádio que eu trabalhava promoveu e patrocinou na cidade um torneio de futebol de salão. Ele seria formado por quatro equipes. Uma competição rápida em dois finais de semana. A gente se reuniu para detalhamentos. As principais foram: todos jogariam entre si e os dois melhores colocados fariam um jogo extra para nele sair o campeão que ganharia um troféu grande e muito bonito e o vice, ganharia um menor. Os jogadores vitoriosos receberiam medalhas bem como o artilheiro da competição. Cada time participante ganharia uma placa alusiva. Premiaríamos também o que chamamos de: “Atleta Padrão”. Ele seria o escolhido pelas autoridades, torcedores que quisessem votar e pelos próprios jogadores da sua equipe. Seriam quatro medalhas diferenciadas e especiais.

Na reunião houve questionamentos sobe o que entender por “Padrão”. As respostas que mais apareceram foram: aquele que serve de modelo, exemplo, protótipo, referencia, exemplar, disciplinado, categoria, alto nível, cidadão honrado, gabaritado, classe, virtuoso, humilde, valoroso e simples.

Tudo discutido, explicado e acordado, fui a uma loja encomendar o material e com os textos a serem utilizados. Temeroso, fui à loja várias vezes para saber se estava tudo justo, perfeito bem como, verificar as escritas. Chegou o sábado, início da competição. A propaganda foi maciça e o estádio acomodava muitos torcedores. Sobre uma mesa estavam: os troféus, as placas e algumas medalhas, isso porque outras ele não teve tempo de escrever. Aquilo me preocupou.

Chegou o sábado da final. Um colega trouxe as medalhas faltantes e as juntou com as outras. Convidamos autoridades do meio esportivo de Barbacena para fazer as entregas. O nosso time foi o campeão e o vice-campeão ficou com um time bem forte representante do bairro São José. Sob aplausos medalhas e troféus foram entregues aos laureados. Por último foram entregues as denominadas “Atleta Padrão”, porque tinha torcedor e autoridades votando.

Nem tudo são aplausos, um jogador que recebera a medalha de “Atleta Padrão”, a mostrou a um colega, e esse para outro e de repente gargalhadas geral. O meu “amigo” em vez de escrever: “Atleta Padrão simplesmente escreveu: “Atleta Pradão”. Eu, como perfeccionista fiquei muito bravo. Muitos me chamavam na rua de “Pradão”. Graças a Deus o apelido não pegou.

Na segunda feira fui conversar com o causador dessa confusão. Ele me garantiu que tudo estava dentro da normalidade. Reclamei do “Pradão” e lhe mostrei o rascunho com os dizeres corretos. Absurdamente ouvi o seguinte relato:

– Santana, eu vi que você escreveu “Atleta Padrão”. O papel ficou sobre o balcão e aqui apareceu um professor famoso, pós graduado, mestre e disse que o termo certo era “Pradão” e não “Padrão” como você escreveu.

– Por acaso esse tal professor dá aulas de português, literatura brasileira, etimologia, latim ou algo sobre o nosso idioma?

– Não Santana! Ele é professor de matemática e fera em logaritmo.

O meu time ganhou em campo, meus colegas me escolheram como “Atleta Padrão”, porém, o proprietário da Loja me derrotou tentando me convencer que eu estava errado. Tentei argumentar, mas percebi que ele me ouvia e não me entendia. Ele não quis cobrar pelo trabalho prestado. Não aceitei.

Dedico essa crônica aos amigos e jogadores: José Francisco Baumgratz, Nilo Milagres Filho, Álvaro Coutinho (em memória), Luiz Carlos de Melo Campos (em memória), Luiz Carlos Faria e Adelson Rodrigues e aos nossos dois torcedores símbolos: Nilton Getúlio Cúrcio e Paulo Roberto de Melo Campos (em memória).

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