Tudo como antes no Quartel de Abrantes

Jairo Attademo

Todo mundo já deve ter dito ou ouvido a frase acima alguma vez, como referência a algo que continua sempre na mesma lengalenga.

Pelo que conferi pessoalmente no famoso quartel/castelo/forte, que permanece de pé e abriga o museu Panteão dos Almeida na Igreja de Nossa Senhora do Castelo, construída em seu interior, a frase não é bem assim.

Segundo as autoridades no assunto, o que era dito no século XIX era: “tudo como dantes, quartel-general em Abrantes”.

De onde teria vindo, então, esse provérbio tão usado em Portugal e no Brasil? E por que “pegou” tanto no Brasil?

Tudo começa com a primeira invasão napoleônica ao território português, em 1807, motivada pela falta de decisão de Portugal em fechar seus portos aos navios ingleses, como o famoso general-imperador-dono-do-mundo francês exigia.

Napoleão não ficou na ameaça, sabemos.

Depois de passar fácil pela Espanha, seu braço-direito general Jean Androche Junot, invadiu, com uma pequena parte da tropa, a primeira localidade no território português, a vila de Abrantes, no centro do país, hoje uma linda cidade do Distrito de Santarém.

À época, as condições do terreno eram péssimas para o transporte de armamentos e materiais pesados e por isso o grosso da tropa, principalmente a artilharia, ficou para trás.

A FORTALEZA DE ABRANTES, ONDE JUNOT ACHOU DE FICAR

Junot, então, resolveu fazer de base o quartel de Abrantes e lá ficou esperando tranquilamente a sua artilharia chegar.

Esteve tão seguro ali que chegou a se autonomear Duque de Abrantes. Há quem diga que o título lhe foi concedido por Napoleão, embora especula-se que tenha sido uma ironia do povo de Abrantes.

De duque o tal Junot não tinha nada, pois Napoleão, por mais poderoso que fosse, não manteve Portugal sob seu domínio, já que a retirada da Corte portuguesa para o Brasil, às vésperas da invasão, atrapalhou os objetivos do ditador francês. Assim como ficou bem atrapalhada a vida dos portugueses que ficaram.

O GENERAL JUNOT QUE OCUPOU O QUARTEL DE ABRANTES

Napoleão afirmou, tempos depois, que Dom João VI foi o único que o enganou.

E então, de onde saiu o provérbio “tudo como dantes, quartel-general em Abrantes” ou sua versão simplificada “tudo como antes no quartel de Abrantes?”

Segundo a versão mais propalada, a frase foi cunhada como um escárnio à Coroa portuguesa, que nada fazia para retirar do quartel o general Junot, permitindo que ele lá ficasse até a chegada de sua maltratada tropa, ainda mais esfarrapada quando chegou a Lisboa pelos terríveis acessos.

Há quem diga que o exército português até poderia ter dado cabo dos franceses, tal era a penúria em que se encontravam os soldados de Napoleão quando chegaram à Capital. Só que Dom João VI preferiu pagar para não ver, pois a fama de Napoleão não era nenhum conto de fadas.

Portanto, quando diziam que qualquer coisa estava na mesma, as pessoas de então usavam a expressão “tudo está como dantes, quartel-general em Abrantes”, ou seja, estava tudo como em Abrantes, onde um francês permanecia no comando de uma fortaleza sem oposição de nenhuma autoridade portuguesas.

Apresento-vos aqui dois exemplos do uso dessa frase:

– Olá, Joaquim! Dessa vez teu time, o Gil Vicente, ganha o campeonato português?

– Ah, Manuel, ganha nada, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.

– E no Brasil, seu Botafogo agora vai, não é?

– Ora, vai para um caraças, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. Mas meu time é o Vasco.

– Ih, com um catana! Esse, pelo menos, não cai.

Existe outra explicação pouca coisa diferente para a famosa expressão.

Dizem que o príncipe-regente, enquanto durou o período de permanência de Junot na fortaleza abrantina, perguntava todos os dias sobre a situação e a resposta que o regente recebia era “tudo como dantes, quartel-general em Abrantes”.

MARECHAL MASSENA QUE NÃO ENTROU EM ABRANTES

A versão seguinte, contudo, derruba todas as outras.

Segundo ela, a frase tem a ver não com a primeira invasão francesa em 1807, mas com a terceira, em 1810, quando o poderoso marechal Massena invadiu Portugal com um exército de mais de 65 mil homens, fazendo rendições pelo caminho, mas sofrendo dificuldades por desconhecer o terreno, até ser finalmente ser vencido nas linhas de Torres Vedras.

Entre os empecilhos encontrados, Massena teria passado maus pedaços em Abrantes, quando, mesmo sob dificuldade, os soldados abrantinos lutaram e mantiveram sua vila impenetrável. Portanto, se acompanharmos essa explicação, a expressão não se deve à inatividade do príncipe regente em 1807, mas à determinação e à  garra dos defensores de Abrantes em 1810.

Significa, portanto, que nada mudou, mas para o bem, pois o quartel e a vila continuavam portugueses.

Bem melhor assim, não?

Concluindo, há muitas razões para que portugueses e brasileiros partilhem o ditado.

EMBARQUE DA CORTE PORTUGUESA PARA O BRASIL – SÉC. XIX AUTOR DESCONHECIDO

Primeiro, porque dom João VI e a Corte só vieram para a colônia por causa da invasão napoleônica, o que fez o Brasil receber algum investimento em lugar das pesadas e contínuas retiradas de suas riquezas naturais, abrindo espaço para sua demorada independência, em 1822.

Segundo, porque se há uma coisa que permanece como antes no quartel de Abrantes é a complexa relação entre o público e o privado, ainda hoje, nos dois países, sendo o Brasil ultimamente um expert nesse quesito.

Casos de corrupção são antigos quando falamos de portugueses e brasileiros, o que não é privilégio nosso, sejamos justos, mas no momento estamos falando dos dois países-irmãos.

Trago um exemplo da antiguidade da corrupção na política luso-brasileira, mais velha que a Sé de Braga (outra expressão portuguesa):

Em 1549, o primeiro governador-geral, Tomé de Sousa, chegou de Lisboa ao Brasil trazendo um monte de gente, inclusive degredados. Na comitiva, veio um tal Pero Borges para assumir o cargo de Ouvidor-Geral (equivalente ao Ministério da Justiça).

O sujeito trouxe consigo a má fama de corrupto, pois recebia “visitas que lhe davam dinheiro” quando era supervisor das obras do aqueduto de Elvas (pertinho da vila de Barbacena, no Alentejo).

O dinheiro para a obra acabou, mas o aqueduto não. O tal Pero foi acusado de embolsar quase tudo, condenado a pagar pela roubalheira e impedido de exercer cargos públicos por três anos.

Sabem o que aconteceu? Em menos de dois anos, no segundo Governo Geral, foi nomeado provedor-mor da Fazenda no Brasil (equivalente ao Ministério da Fazenda), recebendo inclusive adiantamento de salário!

A coisa é tradicional e como tal se mantém, quando podemos ver muitos políticos revezando-se entre cargos públicos e penitenciárias. Ou entre palácios e processos. Basta ver o tanto de parlamentares e ex-comandantes do Executivo que andam às voltas com a Justiça.

Esta é mais uma razão para que portugueses e brasileiros, a maioria formada por pessoas honestas e trabalhadoras, digam em alto e bom tom que, quando se trata da coisa pública, tudo está como dantes, quartel-general em Abrantes.

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