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    Barbacena, MG Previsão completa
  • Transtornos mentais em adolescentes: nem tudo é culpa da pandemia

    Ainda sofrendo os efeitos negativos da pandemia, temos visto aumentar os casos de Transtornos Mentais na adolescência. O adoecimento psíquico de nossos jovens preocupa os especialistas das áreas relacionadas e traz a necessidade de ações eficazes para o controle e manejo dessas condições.

    Mas é importante frisar que não é somente a pandemia a responsável por este cenário. Nossos adolescentes já vinham adoecidos antes dela.

    Quais são os principais transtornos mentais que têm acometido nossos adolescentes neste período de pandemia?
    A adolescência, por si só, já é uma fase da vida com muitos conflitos. A mudança que esta fase traz será vista e sentida durante toda a fase adulta. Algumas situações são comuns e passageiras; outras podem ficar, com agravamentos e necessidade de intervenção especializada. Particularmente neste período de pandemia, temos visto aumentar os casos de irritabilidade, agressividade, intensificação do isolamento e mudanças dos padrões de sono e alimentar que podem indicar instabilidade emocional, transtorno ansioso e até mesmo depressão.


    Somente a pandemia pode ser responsabilizada pelo aumento desses casos?
    Não. Os casos de transtornos mentais na adolescência aumentaram em número e intensidade. Mas nossos adolescentes já vinham adoecendo: os conflitos de imagem, o excesso de telas, a dificuldade em lidar com frustrações, a dificuldade em lidar com emoções, a falta real dos pais, a própria estrutura psíquica adoecida do jovem, etc. Já tínhamos muitos adolescentes adoecidos, mas subdiagnosticados, não diagnosticados, ignorados… E a pandemia trouxe à tona todas essas questões. Tivemos pioras de quadros pré-existentes e também tivemos casos novos, aqueles transitórios devido ao período que estamos vivenciando.


    As condutas de tratamento são as mesmas para aqueles adolescentes previamente adoecidos e para aqueles que adoeceram por causa da pandemia
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    Não. As condutas se diferenciam caso a caso. Aqueles adolescentes que já vinham apresentando adoecimento mental e emocional precisam de condutas terapêuticas diferentes daqueles que adoecem pelo isolamento social, danos que as fake News causam, falta de perspectiva e etc. É importante salientar que existem adolescentes cujos traços de adoecimento mental são tão expressivos, que antes mesmo da pandemia e além dela, os sintomas estarão ali e precisam ser cuidados, sob riscos graves se não o forem.


    Como as famílias podem identificar os adolescentes que precisam de ajuda especializada?
    Antes de quaisquer condutas especializadas é necessário que os pais ou responsáveis percebam e aceitem que seu adolescente está doente e precisa de ajuda. Negar o problema, atribuir o problema a terceiros ou a eventos apenas externos contribui para a demora na identificação e também no tratamento.

    Em termos de sinais temos:

    1. Falta de controle das emoções: chora por qualquer motivo, não consegue expor o que sente, demonstração de emoções fora de contexto, etc.;
    2. Adoecimento do corpo: dermatites sem explicação, ganho ou perda de peso em excesso, perda de cabelos, etc.;
    3. Falta de ânimo, excesso de sono (dorme o dia todo, p. ex.) ou tem dificuldades para dormir (insônia), etc.;
    4. Queda no rendimento escolar, falta de vontade para assistir às aulas e também para se dedicar aos estudos;
    5. Falta de perspectiva, de planos para o futuro;
    6. Negação da realidade (vivem num mundo idealizado e perigoso);
    7. Episódios de automutilação e tentativas de suicídio.

    Prestar atenção àquilo que nossos adolescentes precisam é obrigação de pai e mãe. Ajudá-los a superar fases difíceis também o é. Aceitar que nossos adolescentes podem ter um transtorno mental que requeira cuidado é um ato de amor.

    Fechar os olhos para o que se vê, pode ser um caminho sem volta.

    NOTA DA REDAÇÃO – Valeska Magierek é Psicóloga e Neuropsicóloga; atua há mais de 20 anos na área de Psicologia Infantil e Neuropsicologia; trabalha no Centro AMA de Desenvolvimento em Barbacena.