Take a fresh look at your lifestyle.

Torcida impede contratação de jogador negro

Hélcio Ribeiro Campos

0 396

Assim que terminou a Copa de 2018, uma nova notícia nos chega da Rússia, mas, dessa vez, não para a exaltação do futebol. Ao contrário, é uma notícia que mostra a idiotização de parte da sociedade, expressa por meio da torcida do Torpedo de Moscou conhecida como Ultras ou Zapad-5.

 

Foto 1 – Emblema do FC Torpedo Moscou.

 

Fonte: Site do FC Torpedo Moscou.

 

Diferentemente de seus rivais mais conhecidos, como CSKA, Dínamo e Spartak, o Torpedo não recebeu enormes cifras a partir das privatizações do aparato estatal soviético e/ou de algum novo bilionário surgido junto com o capitalismo implantado na Rússia.

Desse modo, o Torpedo caiu numa fase de ostracismo e deixou de ser conhecido em outros países, como no Brasil. Mas isso já foi diferente. Nas décadas de 1950 e 60, o Torpedo teve grande prestígio, sobretudo pelas atuações do “Pelé russo”, Eduard Streltsov, o maior jogador da história da agremiação. Seu nome batiza o estádio do clube e sua geração (que inclui o lendário goleiro Lev Yashin) protagonizou os maiores títulos da Seleção Russa, a Eurocopa de 1960 e o ouro nas Olimpíadas de 1956.

 

De volta aos tempos atuais e ao caso racista, o Torpedo tinha organizado as tratativas para contar com Erving Botaka-Yoboma, zagueiro do time B do Lokomotiv, outro clube moscovita. Apesar de russo, o jogador é de origem congolesa.


A atitude racista foi rechaçada pelos presidentes do Torpedo – Roman Avdeyev – e do sindicato dos futebolistas russos – Alexander Zotov. Contudo, as manifestações dos torcedores não foi intimidada. Faixas no estádio e tons racistas e neonazistas podiam ser observados por meio da rede social Vkontakte, tais como: “Nosso clube, nossas regras” e “Pode haver preto nas cores do clube, mas só há brancos entre os torcedores”.


Mesmo com a reprovação de seu presidente perante a ação dos Ultras, o Torpedo cancelou o negócio já praticamente fechado e declinou da contratação de Erving Botaka-Yoboma. A nota oficial do clube disse:


A transferência do jogador Botaka […] foi cancelada devido à nossa política de não pagar por transferências de jogadores. Mais uma vez reiteramos que a cor de pele nunca foi critério para escolhermos os jogadores do clube. O racismo não tem o direito de existir.


A radical torcida dos Ultras (do Torpedo) já tinha dado provas de racismo antes e justamente contra um brasileiro. O episódio se deu em 2015, quando Hulk defendia o Zenit. Nessa época, a torcida imitou sons de macaco para insultar o brasileiro, e foram afastados dos estádios. O clube também pagou por isso: 4.600 euros e dois jogos de portões fechados. Ou seja: até mesmo os fãs “civilizados” do Torpedo foram punidos.

Mais casos de racismo têm sido vistos na Rússia, envolvendo outras equipes, torcidas e cidades. Esse é o futebol. Sempre revelando casos que vão além das 4 linhas e que nos ajudam a compreender nossa (lamentável) sociedade.

 

 

NOTA DA REDAÇÃO: Helcio Ribeiro Campos é autor de publicações sobre Futebol e Geografia; mestre e doutor em Geografia Humana pela USP; escreve o Blog Futebol, Cultura e Geografia; editor da Revista Pluritas; professor do IF Barbacena.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.