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    Barbacena, MG Previsão completa
  • Somos um marco histórico

    A paisagem das ruas mudou completamente. Primeiro um grande vazio e o medo de contrair o vírus através de um simples respirar profundo. Depois a confirmação de que minha qualidade mais festejada ficaria guardada, por um longo tempo, dentro de máscaras e, posteriormente, abaixo da garganta: após um ano de pandemia não é mais possível sorrir como antes.

    Consigo me lembrar com muitos detalhes da última viagem, do aeroporto internacional na volta, no dia 06 de fevereiro de 2020. Em solo americano já se cruzava com algumas pessoas protegidas de forma diferente, com aquele olhar desconfiado que, poucos dias depois, habitaria as faces do mundo inteiro. Ninguém tinha ideia do tamanho do problema.

    A última vez em que abracei várias pessoas e senti a energia de sorrisos brilhantes, cheios de luz e batom foi no lançamento de uma Antologia de Poemas, escritos por mulheres, justamente no belíssimo e fundamental 08 de março. Infelizmente nem sei dizer se, um ano depois, todas aquelas pessoas lindas que ali estavam permanecem entre a gente. A morte arrombou as portas do nosso desconhecido e, ironicamente, o verso inicial da minha poesia anunciava: “Infinito seja o breve tempo que tenho em minhas mãos”.

    Ainda ouço o plantão do jornal noticiando a declaração mundial da pandemia. Alguns dias depois, a primeira morte de um brasileiro. Imagens que lancinavam meu coração e faziam transbordar minhas lágrimas, mostrando o que se passava na terra de meus ancestrais. Ficamos mudos. A Itália estava em luto. A esperança aos poucos era covardemente pisoteada pelo medo. Como uma onda, assistimos ao pesadelo se multiplicar e revelar que, quanto maior a descrença em seu poder devastador, pior seria o estrago.

    A ideia de que somos apenas pedaços nunca me pareceu tão verdadeira – quantas células exterminadas do grande organismo universal! Confesso que não sabia o significado da palavra empatia para além da semântica, a dor de tantas pessoas conceituou nas minhas profundezas um sentimento contraditório situado na fronteira entre a culpa e o alívio.

    Se por um lado a angústia da impotência humana habitava nosso cotidiano por outro a genialidade dos cientistas trouxe em tempo recorde uma solução possível. A vacina passou a ser a ampulheta da vida: alguns de nós tentando segurar a areia dos dias enquanto ela ainda encontrava espaço na ignorância para escorrer entre os dedos.

    Não há certezas, só esperança. Acreditar que voltará o mundo a ser como antes é uma espécie de agouro. Já não somos os mesmos. Ainda há muito medo, mas é preciso caminhar, sentir o ar, cuidar. Atravessaremos o horizonte, mas ficaremos, para sempre, guardados nas páginas dos livros.

    NOTA DA REDAÇÃO: Susana Furtado Dias é barbacenense, formada em Direito e servidora do Poder Judiciário de Minas Gerais. Divide seu tempo entre o trabalho, a família, os esportes e a paixão pela escrita.