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    Barbacena, MG Previsão completa
  • Simples ou simplório?

    A crônica de Francisco Santana

    Tião é o pedreiro. Zé é o seu filho, servente. Ambos foram contratados para uma obra em nossa casa. Previsão: 30 dias. Na segunda feira bem cedinho a dupla se apresentou. O Zé me estendeu a mão. Ele tremia muito e só a largou depois do meu puxão brusco. Muito estranho. No andamento da obra mantivemos diálogos esporádicos. Era sempre assim.

    – Senhor Santana, meu pai me falou que o senhor trabalhou em rádio? Então o senhor era famoso? Tinha muitos fãs? Isso quer dizer que o senhor falava no microfone, eu ligava o rádio na minha casa e ouvia o senhor falar?

    – Sim! Eu trabalhei na Rádio Correio da Serra de 66 a 73. Nunca fui famoso, e trabalhava sábado à noite, domingo pela manhã e em algumas transmissões esportivas como repórter de campo. 

    – Que legal! Essa sua voz era a mesma que a gente ouvia no rádio ou o senhor tinha outra? Eu fiquei sabendo que os locutores modificam a voz para falar no microfone. O nome disso me esqueci. 

    – A minha voz no microfone sempre foi a mesma. Hoje em dia, muitos comunicadores recorrem aos profissionais da fonoaudiologia para melhorar a respiração, postura e para exercitarem as cordas vocais. Na farmácia não existe remédio pra engrossar a voz. Além do mais, Zé, a voz bonita tem seu valor, mas não é tudo. O comunicador tem que ter talento. E a palavra que você se esqueceu é impostar a voz.

    – Isso mesmo impostar. Senhor Santana, gosto muito desse assunto. Só não ouço rádio o dia todo porque tenho que trabalhar. Não ligo para televisão, celular e tampouco para computador. Só tomo banho e me alimento com o radinho ao meu lado. Ele é meu grande companheiro. Na sua família, só você foi locutor?

    – Não! Dois sobrinhos seguiram os meus passos. O Sérgio Santana trabalhou na Rádio Sucesso FM e 104 FM em Barbacena; na Rádio Carijós FM em Conselheiro Lafaiete e Fama FM em Carandaí. O outro sobrinho, Marcelo Santana, trabalhou na Rádio Serra Azul em Santos Dumont, Fama FM em Carandaí e hoje trabalha na 93 FM em Barbacena. 

    – Que bacana! Família de sucesso. Por falar em sucesso eu adoro a Sucesso FM. Eu me ligo nela em todo o meu tempo disponível. Por eu gostar de rádio e saber os nomes dos comunicadores, meus amigos tiram onda com a minha cara. Eu sempre disse a eles que gostaria muito de conhecê-los e pedir autógrafos. Meus amigos disseram que eles vão rir de mim e que isso é coisa de veado. Não gosto desse tipo de papo e fico bravo. Senhor Santana, quem é o melhor comunicador da Rádio Sucesso FM: Cristóvão Abranches, Geraldo Faria, José Rubens, Rogério Barbosa, Victor Vicency ou Tarcísio (Zé Rural)?

    – Eu não consigo vislumbrar quem é o melhor. Todos eles estão num mesmo plano porque são renomados profissionais da radiofonia barbacenense, portadores de vozes maravilhosas, dicções perfeitas, sérios, competentes e talentosos. Conheço todos eles e sigo suas trajetórias há tempos e hoje, todos brilham e encantam milhares de fãs e admiradores. Tudo isso por méritos próprios.  

    – Que bacana! Quem sou eu para discordar do senhor, mas a minha pergunta não foi respondida. Não vou fazê-la novamente, mas pelo seu semblante eu sei da sua preferência. Ao dizer um nome entre os seis o senhor sorriu e franziu a testa, isso é sinal de sua preferência. No seu tempo, tinha locutora? 

    – Eu me lembro que na Rádio Barbacena trabalhava a Sônia, acho que o nome era esse mesmo. Na Rádio Correio da Serra, tínhamos a Terezinha de Abreu e depois vieram: a Malu, a Jane Sampaio e hoje a voz feminina se faz muito presente. 

    – Eu gosto muito de ouvir a voz da Sabrina Silva. Ela parece ser muito feliz, pois está sempre sorrindo e quando ela trabalha com o Rogério, ela ri muito mais. Você a conhece? Ela é bonita? Kkkkkkkkkk.

    – Eu só a vi uma vez e além de bonita, é muito simpática e competente. Se um dia você quiser conhecer esses astros da radiofonia barbacenense, eu o levo à emissora e lhe apresento todos eles. Está chorando, Zé? Depois de alguns segundos, ele se recompôs e continuamos a conversar.  

    – Me desculpa, senhor Santana. Conhecer essas pessoas mexe com o meu emocional. Vou pensar na proposta e lhe aviso. Você é um amigo. Que pena que a obra está acabando e vou ter que ir embora de sua casa. Se o senhor não se importar, eu posso visitá-lo de vez em quando para conversarmos sobre rádio? O senhor é muito educado e gentil. Só tenho uma coisa a reclamar: o senhor fala muitas palavras difíceis que não entendo. O meu nível de escolaridade é baixo. Quando o senhor fala, eu não interrompo para não atrapalhar o seu raciocínio. 

    No último dia de trabalho, o pai veio sozinho. O Zé ficara em casa muito gripado. Entendi sua jogada. Por ser emotivo, ele não compareceu para trabalhar para não se despedir de mim e chorar novamente. Zé é simples, uma criança grande, aficionado pelo rádio, gente do bem, um autêntico ouvinte raiz. Zé é essa simplicidade que narrei em parte de muitos diálogos ocorridos. Nossos assuntos eram intermináveis. Ele era muito questionador e eu muito falador. Tinha que dar nisso, crônica.