Será que foi amor para além do Carnaval?

Maria Solange Lucindo Magno

Simone teve o seu primeiro e único Carnaval quando tinha 16 para 17 anos.

Como era filha única, saía muito pouco de casa, e seus pais, já sem muita disposição, raramente a levavam para passear, ir a bailes ou fazer qualquer outra coisa própria de sua idade.

Independente disso, Simone crescia formosa, atraente e apegada aos pais, de forma que quase não questionava o fato de não sair e de não ter amigos, a não ser os do colégio.

Um dia, num ato de coragem, um tio, irmão de seu pai, pediu a ele para que pudesse levar Simone para passar os dias de Carnaval em uma cidade do interior, onde todos comentavam ter um dos carnavais mais animados da região, além de ser bem organizado e familiar.

Um pouco relutante, o pai de Simone permitiu que o irmão levasse a sua “joia” para passar esses dias com a família dele.

E lá se foi Simone, meio acanhada, pois não tinha o costume de sair com pessoas diferentes de seu núcleo familiar. Ela era uma moça sonhadora, criava mil fantasias, mas dentro de seu mundinho particular, que era no seu quarto dentro de sua casa. A imaginação a transportava para lugares distantes, cheios de rapazes e moças, festas e alegria, onde era amada e disputada por muitos.

No carro estavam o casal de tios e três primas. A mais velha tinha em torno de 13 anos e não havia entre elas muita chance de conversa, devido ao diferente grau de maturidade de ambas.

Simone foi muito bem acolhida e logo se sentiu à vontade. Havia vida além dos portões de sua casa. Conheceu uma garota muito simpática, parente da mulher de seu tio e começaram a interagir. Um dos biquínis que Simone levara estragou e a garota rapidamente se dispôs a emprestar um dos seus para Simone. E ela fez o inconcebível para os seus princípios: usar o biquíni de uma outra pessoa. A peça de vestuário na cor preta ficou certinho nela, que logo o colocou para ir conhecer a cachoeira muito frequentada por aquelas bandas. Ela ouviu elogios acerca de seu corpo, e os recebia com modéstia. O irmão de sua tia disse-lhe que corpo bonito como o dela, só o de uma miss. Mal sabia ele que uma das fantasias de Simone era ser miss.

Naquela época, quase final dos anos 1970, havia um padrão bastante diferente de beleza feminina. Era tudo bem natural, um pouco selvagem e sensual. Não havia a superficialidade que há hoje.

Simone ficou envaidecida ao se perceber tão paquerada pelos vários rapazes que estavam na cidade para passar o Carnaval. Ela se sentia no paraíso. Passou a andar durante o dia com a peça superior do biquíni da moça que a havia emprestado e uma calça jeans. Ficava descalça, cabelos soltos, a cinturinha fina à mostra, tudo bem natural. Liberdade!  Libertação!

Naquela época, Simone tinha admiração pela atriz Sandra Bréa, que algum tempo antes havia feito o papel de uma filha rebelde e sem regras. E a sua personagem se vestia assim em quase todas as cenas: calça jeans e uma peça de biquíni. Ficava muito atraente e charmosa, o que de fato ela era. De forma que, durante o dia, Simone se sentia uma verdadeira “Sandra Bréa” em sua cabeça fantasiosa. E parecia fazer efeito, pois era admirada sobremaneira.

À noite era a melhor parte da festa. Aliás, para Simone, que raramente fazia alguma coisa, tudo estava sendo muito bom. Ela se arrumava para ir à festa no clube da cidade. Todos se concentravam lá e era quando os jovens e seus familiares se reuniam para dançar e aproveitar ao máximo o excelente Carnaval do lugar.

Havia nessa cidade uma família com quatro rapazes e cada um era mais bonito que o outro. As moças estavam caidinhas por eles. Simone não era exceção, mas só no quesito de achá-los bonitos. Primeiro, porque não saberia qual escolher e, segundo, porque imaginou que sendo eles tão bonitos, provavelmente não optariam por ela, se tinham tantas para dar preferência.

Ocorreu que o mais jovem deles a procurou e quis ficar brincando o Carnaval com ela. Porém, Simone não se sentiu confortável, pois aquele era jovem demais para ela, meio ingênuo e ela não queria ficar presa a ninguém. Havia muitos  rapazes bonitos e ela estava amando o fato de tantos olharem com interesse para ela e poder retribuir, sem se comprometer com nenhum.

Ao dançar um pouco com esse rapaz belo e novinho, Simone percebeu algo inusitado: ao passar com o ele rodando o salão, se deparou com a prima de 13 anos e viu nos olhos dela algo parecido com um lamento, uma tristeza. De imediato ela compreendeu que sua prima estava interessada naquele espécime de Leonardo DiCaprio e se sentiu traída. Em contrapartida, essa prima tinha um outro primo novinho de uns 12 ou 13 anos que estava interessado em Simone. E ela viu a mesma decepção nos olhos do garoto quando a viu dançando com o belo jovem. Simone já havia percebido que esse garoto ficava o tempo todo ao lado dela durante à tarde, quando todos iam para cachoeira ou faziam outros passeios. Mas não podia imaginar que ela era o amorzinho platônico dele.

Bah! Era coisa demais para Simone processar na mesma noite e ela nem estava assim tão interessada no rapaz com quem dançava. Quando foi possível, escapuliu dele.

Mas a noite prometia mais. Para Simone estava muito bom daquele jeito: ela dançando no meio de todos, sem companhia masculina, paquerando e sendo paquerada.

De repente, seus olhos foram de encontro aos de um rapaz muito bonito. Gente, de onde brotou tantos homens bonitos! – ela pensou.

Ele olhava para ela com interesse e a conseguiu magnetizar. Era alto, forte, mas sem estar acima do peso, tinha sedosos cabelos escuros na altura dos ombros, olhos bonitos e era mais velho e não um garoto.  Simone ficou muito envaidecida por ele estar de olho nela e, de pernas bambas, quando ele chegou perto e a puxou para dançar no meio de todos.

Começou a conversar com ela, se apresentou como Marcus. Era fino, educado, envolvente. Ela se refez, aproveitando o barulho reinante e respondeu sorrindo  a tudo que ele perguntava. E dançaram como todos: fazendo o trenzinho e as rodinhas de salão. Simone só tinha olhos para o Marcus. Nesse ínterim, apareceu uma serigaita e o pegou pelo outro braço e começou a dançar com eles, roubando a atenção de Marcus.

Simone não gostou nada daquilo e bastante aborrecida, soltou-se do braço dele assim que conseguiu. Foi para um canto como uma menina infeliz.

Não demorou muito, Marcus veio atrás dela e estava sozinho, ou seja, se desvencilhou da intrusa e demonstrou para Simone que estava a fim dela. A alegria voltou ao rosto de Simone e ela aproveitou bastante a noite ao lado de Marcus. Conversaram bastante, ficaram de mãos dadas, olhavam-se nos olhos.

De longe, o tio de Simone estava de olho nela e ela sabia disso. Ela o via procurando-a de tempos em tempos e Simone portou-se bem. De maneira alguma iria levar problemas para o tio, pois ela sabia que o pai era rigoroso. Afinal, o tio lhe dera um presente, levando-a para um passeio. Ela e Marcus eram jovens, hormônios em turbilhão, mas Simone tinha a cabeça no lugar e Marcus não avançou nenhum sinal.

No outro dia eles se encontraram novamente e o envolvimento deles só crescia, a química era perfeita. O tio já sabia que eles estavam namorando e aprovou. Marcus era um bom rapaz. Trabalhava num Banco em Belo Horizonte, onde morava, e Simone estava encantada por ele e sentia reciprocidade.

Passaram o resto do tempo juntos, se abraçavam, se beijavam, andavam de mãos dadas e Simone deixou de prestar atenção em outras figuras masculinas. Conversaram muito falando de suas vidas, sonhos e experiências. Marcus era gentil, bonito e inteligente. O tipo de rapaz que a atraía. O que ela não sabia era como iria dizer ao pai que arrumara um namorado. Talvez pudesse contar com a ajuda do tio para interceder.

Ela se animou porque Marcus disse que iria à sua cidade vê-la, antes de falar com o pai dela que queria namorá-la.

Simone nem acreditou. Quer dizer que ela tinha um namorado? E aquele tão especial?

Voltou para a sua cidade se sentindo nas nuvens e grata ao tio por ter permitido que ela vivesse momentos tão mágicos. Ela e Marcus se despediram com a promessa de ele ir vê-la e trocaram endereços. Naquela época o comum era se comunicar através de cartas, bilhetes, cartões-postais.

De volta a casa, Simone falou do rapaz para os seus pais e o tio já havia dado toda a descrição dele, enaltecendo as qualidades do moço. O pai de Simone ficou ciente de que a intenção dele era namorar Simone e ele não demonstrou muito descontentamento.

Ao voltar para o colégio, Simone não cabia em si de tanto contentamento e estava eufórica em falar para as colegas sobre o namorado que arranjara no Carnaval. Para a amiga mais chegada revelou que Marcus havia prometido encontrar com ela em sua cidade, mas ela não queria que o pai soubesse. Foi quando a amiga, que morava interna em um ambiente familiar, ofereceu para que eles se encontrassem lá. Simone ficou agradecida e comunicou a Marcus.

Marcus escreveu para Simone e ela retribuiu. Ele lhe enviou uma foto (o que era comum também). Eles combinaram o encontro para dali a uns dias no lugar indicado pela amiga de Simone.

E Marcus veio: bonito, charmoso e envolvente. O coração de Simone estava abastecido de amor, paixão ou qualquer sentimento que o valesse. Mas batia uma insegurança também, embora ela não conseguisse identificar o motivo.

O fato é que Marcus parecia estar muito interessado nela, disse que iria à sua casa falar com os pais dela. Isso dava um friozinho em Simone.

Ela olhava embevecida para aquele rapaz tão gentil e atraente. Eles conversavam na maior sintonia e se beijavam timidamente. Simone, se arriscando um pouco, deu uma volta com ele no jardim do centro. Lá eles ficaram mais à vontade para combinarem os detalhes da ida de Marcus para falar com os seus pais.

A amiga de Simone também ficou bem impressionada com Marcus e torceu para que o namoro da amiga fosse sacramentado.

Eles continuaram a se falar por carta e Marcus definiu uma data, que seria no início de abril daquele ano.

No colégio, Simone começou a se dispersar com pensamentos voltados para a oficialização de seu namoro.

A essa altura, na família do pai de Simone todos ficaram sabendo do rapaz que viria para namorá-la, ainda mais que um tio havia sido o cupido daquele romance.

À medida que os dias passavam e a data da vinda de Marcus se aproximava, Simone foi ficando com o coração apertado. Sua mãe prepararia uma recepção para o rapaz. Tudo simples, mas com muito capricho.

Simone encontrava-se desassossegada. E se ele não gostasse de sua casa, a considerasse simples demais? E se ele não gostasse de seus pais, em particular, de seu severo pai? Ela teria roupas bonitas para vestir e receber aquele namorado tão especial? Ela já não sabia se era coisa de adolescente ou complexo de inferioridade por não se achar à altura de Marcus. Afinal, era a primeira vez que um rapaz viria à sua casa. De fato, Simone estava desconfortável, insegura e até perdeu o apetite.

Eles continuavam a trocar cartas, quando na semana da vinda de Marcus, Simone escreveu uma carta estranha para ele, sem o romantismo de sempre, meio seca e arrematou com a infame frase: “Aliás, não sei o que você viu em mim para vir até aqui para me pedir em namoro!”

Ela deu uma declaração de baixa autoestima em falar isso para alguém que demonstrava estar bastante interessado nela.

Ele não respondeu porque três dias depois estava marcado para a chegada dele. Seria no sábado. Sua mãe, como estava programado, preparou alguns quitutes que eram a sua especialidade.

No dia, Simone começou os preparativos cedo. Lavou os cabelos no capricho e escolheu uma roupa que considerou bonita. Quando se é jovem, tudo resplandece.  As horas foram passando e ela ficou no processo de espera. Estava sem lugar e ansiosa. A hora marcada foi às 17 horas. Deu o horário e ele não havia chegado. Meia hora depois, nada. 18 horas, 19, 20 horas e Marcus não chegou. Não apareceu hora nenhuma. Simone começou a chorar e seus pais ficaram pesarosos com a decepção da moça. Ela ficou arrasada. Dormiu chorando e chorou o domingo inteiro. Sentiu vergonha e rejeição.

O que poderia ter acontecido? Ele havia desistido, se acovardou? Houve alguma fofoca? Mas de quem poderia ter sido? Em última instância, ela se lembrou da carta que havia enviado para ele naquela semana, demonstrando um desdém do qual ela não teve consciência, mas que, talvez para Marcus, tivesse sido decisivo. Simone não teve coragem de contar para os pais esse detalhe e nem para a amiga na segunda-feira, quando ela quis saber como havia sido a vinda de Marcus para o início do namoro.

— Não houve namoro, pois ele não veio.

E não havia mais o que dizer. Sem explicação plausível. O pai de Simone chegou a pensar que podia ter havido alguma interferência de parentes.

Ao iniciar a semana seguinte, Simone mandou uma carta para Marcus para tentar descobrir o que havia acontecido. Abordou-o de maneira delicada, se desculpou pelo que havia escrito na carta anterior, mas não recebeu nenhuma resposta. Depois disso, enviou mais duas cartas, clamando por uma resposta, porém, não foi respondida. E assim nunca mais viu ou soube de Marcus.

Afinal, aquele havia sido apenas mais um amor de Carnaval!

 

Maria Solange Lucindo Magno, casada, sem filhos

Professora da rede estadual de ensino (anos iniciais do Ensino Fundamental – aposentada

Inspetora Escolar da rede estadual de Minas Gerais

Pedagoga tendo atuado como Técnico em Educação na Secretaria municipal de Educação de Barbacena – aposentada

Autora do livro “Escritos com o Coração” – publicação independente e de várias crônicas

Participação em duas Antologias

Articulista do barbacenaonline

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