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    Barbacena, MG Previsão completa
  • Saramago ontem e hoje

    Por JGHeleno

    Parece uma contradição. Só parece.  Essas reflexões me surgiram durante a leitura da tragédia In nomine Dei, do escritor português, José Saramago, cujo tema é um conflito religioso entre católicos e anabatistas ocorrido no século XVI na Alemanha. Dever-se-ia esperar, pelo título, que algo muito nobre estivesse em jogo, por se tratar de uma luta em nome de Deus. A esperança deveria ser ainda maior quando se pensa que tanto católicos quanto anabatistas são cristãos, discípulos, pois, daquele cuja doutrina principal é a que manda que um ser humano ame os outros  como ele ama a si mesmo, pelo fato simples de serem todos humanos, inclusive os inimigos. É um absurdo o ódio entre vertentes cristãs.

    Na verdade, o que está em luta é uma disputa territorial, embora ambas as facções se encontrem confinadas entre as muralhas da cidade de Münster, e têm como referência um ponto minúsculo de terra:  a catedral sob domínio dos católicos, e  a igreja de São Lamberto, referência dos anabatistas. Não há território físico, portanto. Mas há um conjunto de filigranas religiosas, de interpretações bíblicas ocasionais e interesseiras, de ânsia de manutenção ou conquista temporal de poder, de desejos pessoais revestidos de servidão religiosa – de um lado e do outro – tudo enfeixado num discurso religioso fanático e fundamentalista, que eleva a patamar imerecido questões doutrinais e morais de somenos importância. A esse enfeixamento é atribuído um status vital tão importante como se fosse a própria terra para qualquer grupo humano, sem a qual é impossível viver. Assim, qualquer atitude do outro é sempre vista como ameaça vital e, por menor que seja, analisada às pressas; e, se não reforça as pretensões “territorialistas” do próprio grupo, é tratada como coisa do diabo, a que se deve reagir com hostilidade. É a esse absurdo que atribuo o nome igualmente absurdo de território ideológico sem terra.

    Lembrei-me, então de Aristóteles – a poesia (ou a arte literária em si) fala de tudo que pode ser, não somente do que é, como faz a História. E voltei meu  olhar para a guerra de Rússia (cristã ortodoxa) versus ucrânia (cristã bizantina). Uma disputa territorial real. Terra mesmo: expansionismo de um lado refreamento do outro… Dei-me conta em seguida de que também não é bem assim. Sob o manto de disputa de terras, há muita coisa em jogo. O homem tem dificuldade de ser objetivo. Nas mais das  vezes, a objetividade humana não passa da tentativa de acordo entre o que ele vê ou pensa que vê e o que ele projeta de si mesmo nesse objeto. Obviamente, há um território ideológico no suporte dessa guerra fisicamente territorialista. Se conhecemos pouco da disputa territorial real que envolve Rússia e Ucrânia, conhecemos muito menos desse território ideológico. Digo mais: as próprias populações russa, ucraniana e mundial pouco sabem desse último território. Isso não deve, entretanto, ser um convite à abstenção de analisar o conflito, mas sim um imperativo a que se esteja sempre aberto a narrativas que nem sempre repetem ou confirmam as nossas. A verdade é  sempre mais ampla do que aquela que dominamos, e o tempo da vida é uma procura permanente dessa verdade.

    Não precisamos ir tão longe. Por isso, dou agora um outro salto. Guiado por José Saramago de 1993 (data da publicação de In nomine Dei), saio do século XVI, passo pela Rússia/Ucrânia, países bem mais velhos do que o nosso, e chego nesse Brasil cujo destino é sempre uma incógnita. É o Brasil que vai pra frente ao caminhar pra trás? Ou é o pais do Futuro que almeja estar no passado? Afinal, que país é este? Sou mais um que se pergunta. Agora parece estarmos numa guerra. Duas facções principais se desafiam como cristãos e protestantes há sete séculos. Uma e outra na briga por ampliação territorial. Territórios ideológicos. Muito mais difíceis de se definirem. Porque cada território em disputa não é capaz de ver os contornos do outro, não é capaz de refletir e procurar entender a narrativa do outro, ainda que lhe pareça absurda. O absurdo merece ser estudado. Algumas vezes o absurdo são as fezes do contexto social. Ainda nesse extremo,  é necessário analisá-lo,  para ver que vermes o corroem, e até se parte desses vermes também não está onde acreditamos que a sanidade é total. É preciso urgente deixar, cada um, de ser um gueto “endócrino” e “endógino”.  (6/7/2022, José Geraldo Heleno).

    Observação: Neste ano de 2022, comemora-se  o centenário de nascimento de José Saramago, nascido em 16 de novembro de 1922. Único escrito em língua portuguesa a ser agraciado com Nobel.

     

    SOBRA

    É o nosso território ideológico. Muito mais difícil de se romperem fronteiras entre eles. Para isso, é preciso refletir muito, estudar, analisar, ser compreensivo ante a posturas do outro, mesmo quando essa postura nos aprece absurda, ser humilde em aceitar que a verdade é uma eterna procura, e repudiar qualquer irracionalidade. Entender e até aceitar que a irracionalidade existe, mas jamais compactuar com ela. Encarar as religiões como complementos da razão naquilo em que a razão não consegue alcançar, mas jamais subverter a ordem, submetendo a razão a princípios “revelados”. Se estes princípios são válidos para dar sentido a vidas particulares de pessoas ou de grupos, jamais devem ser vistos como verdades a serem impostas universalmente a todos os homens, sob pena de se chegar a guerras como a de Münster encenada por José Saramago.

    Os territórios em luta neste momento no Brasil são territórios ideológicos. Numa descrição breve, em que pretendo ser imparcial, o que é difícil, porque eu também tenho um lado nessa guerra. Um dos territórios é comandado por um homem branco, capitão reformado do exército a quem devota uma simpatia acima da média. A imagem que seus seguidores constroem dele apresenta os seguintes traços: é um homem corajoso, que almeja o poder absoluto, que desafia o status quo político e institucional, luta contra a corrupção, atribui a culpa da corrupção ao seu rival, chefe do outro território e seus seguidores. É cristão e pretende resgatar os bons costumes e promover uma moral que combata os desvios comportamentais da sociedade. Rompe frequentemente as barreiras consideradas impróprias ou injustas das leis e desafia os poderes da república que cerceiam a implantação de seus projetos políticos. Considera a eleição do seu rival uma passo na direção do comunismo.

    O outro território tem como chefa um homem mestiço, de origem operária, sem a sofisticação e a boa aparência que muitos esperam de político de renome. Já teve mandatos presidenciais, investiu muito em setores que, segundo seus adversários, são tendentes ao comunismo, como as universidades públicas e os auxílios emergenciais aos pobres incentivando-os à vagabundagem. Religiosamente é um cara de pouco entusiasmo. É tolerante, se não simpatizante de certas causas das minorias, como a dos defensores do direito à homoafetividade, a causa dos indígenas e da igualdade de tratamento entre raças. Seus seguidores contestam as acusações de corrupção a ele atribuídas pelo adversário mas evitam falar delas. Se eleito, pretende resgatar o poder aquisitivo das massas pobres, moderar ou mesmo reverter as privatizações. Considera retrocesso o mandato do eu rival. Em benefício dos trabalhadores, promete revisar as alterações recentes das leis trabalhistas.

    Assim, tentando ver com distanciamento, eu caracterizo os dois territórios.

     

    Mais uma guerra sem razão
    Já são tantas as crianças
    Com armas na mão
    Mas explicam novamente
    Que a guerra gera empregos
    Aumenta a produção…    (Legião Urbana)

     

    Uma guerra sempre avança
    A tecnologia
    Mesmo sendo guerra santa
    Quente, morna ou fria
    Prá que exportar comida?
    Se as armas dão mais lucros
    Na exportação… (Legião Urbana)

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