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Roubo em agência bancária

A crônica de Francisco Santana

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Há dias, morreu o Senhor Porfírio de Oliveira Lima Neto que foi gerente da Caixa Econômica Federal em Barbacena. Sua passagem me fez lembrar várias qualidades que possuía como o trato fino, a eloquência e o poder de tomar decisões com sabedoria utilizando-se de grandes doses de razão e coração.

Acabei me lembrando também de uma história com ele. O fato ocorreu na década de 80. Eu trabalhava na extinta Telemig e recebemos uma ligação do Porfírio nos informando que os telefones da Caixa estavam interrompidos. Educadamente, ele nos pediu o reparo urgente porque naquele dia uma reunião gerencial estava prestes a acontecer. Imediatamente foi convocado o funcionário Alves para a missão. Por que o Alves? Pela experiência, capacidade, respeito e credibilidade.

 

Alves chegou à Caixa Econômica uniformizado e se apresentou ao vigilante que o levou ao Senhor Porfírio. Ciente do que estava acontecendo, Alves fez alguns testes preliminares nos telefones por formalidade e foi ver as inúmeras fiações que passavam por uma caixa. Ao abri-la, o defeito estava visível. Inadvertidamente, alguém ao passar perto da caixa não percebeu que vários fios estavam comprimidos pela sua tampa fechando curto. Em minutos, os fios estavam ligados e os telefones funcionando. Alves foi extremamente eficiente, mas queria ser eficaz e se comprometeu a dar uma arrumada geral naquelas fiações. E lá estava ele cortando, desencapando, emendando, enrolando e trocando fios. Rapidamente, a polícia chegou. Alves cortou um fio indevido porque era o fio do alarme que ligava a Caixa à polícia. Porfírio interveio e tudo ficou resolvido e entendido. O policial educadamente pediu ao funcionário Alves que fosse à delegacia de polícia só para preencher um formulário, coisa burocrática.  

 

Alves fez duas ligações para a gerência da Telemig. A primeira comunicando que o defeito fora reparado e a segunda, que estava sendo preso e indo para a delegacia (que exagero!). A segunda soou como uma bomba na empresa. Imediatamente, meu chefe e eu fomos para a delegacia como advogados do Alves. Chegamos no mesmo instante em que ele chegava. Dialogamos com o escrivão por pouco tempo, rimos da situação vivida pelo Alves que assinou um documento e voltamos para o nosso trabalho. Missão cumprida? Nada disso.

 

Meu chefe e eu fomos à seção do Alves dar apoio e explicar para os colegas o que ocorrera na Caixa e na delegacia. O que vimos e ouvimos foi algo cinematográfico. O Alves tinha diante de si uma plateia de vários funcionários e ele contava como tudo aconteceu a seu modo.

 

“Gente, vocês não vão acreditar no susto que passei. A minha fé em Deus e minha tranquilidade me ajudaram a resolver esse caso. Vocês precisam ver o momento que os policiais chegaram à Caixa para me prender. Eles estavam com as mãos nos coldres. A gente discutiu e eu exigi meus direitos de cidadão honrado, que paga os impostos em dia, que tem ficha limpa, que só falaria na presença de meu advogado, que não admitia ser algemado e não ser levado à presença do delegado de camburão. Com o delegado, eu falei poucas e boas. Falei que ele deveria se preocupar com os marginais que perambulam pelas ruas da cidade e não com um pacato funcionário da Telemig. Gente, vocês precisavam ver a cara dele! Ele parecia envergonhado e me pediu perdão”

 

Um colega lhe perguntou se a Telemig enviou à delegacia algum advogado para defendê-lo.  Alves continuou com suas lorotas.

 

“Apareceram lá uns“bundões”. Eu fiz a minha defesa sozinho. Eles entraram mudos e saíram calados. Nem para advogados de porta de cadeia eles servem. A partir de agora eles serão para mim “Doutores bundões”. Eu disse na cara deles que tendo o primário, sei mais de Direito do que eles. Gente, eles ficaram calados e são tão covardes que nem se defenderam. Eu só não os mandei a PQP em respeito às digníssimas mães”.

 

Alves discursava inflamado e só percebeu a nossa presença atrás dele quando os colegas começaram a rir. Ele olhou para trás e se deparou com a nossa presença. Muito sem graça, ele nos abraçou, quis chorar e disse:

 

“Eu estava dizendo agora para meus colegas que se não fossem vocês dois Doutores eu estaria preso. Vocês, além de excelentes advogados, são meus amigos. Eu nunca vou me esquecer do que fizeram por mim e pela minha família. Eu quero lhes agradecer de coração mesmo. Se precisarem de mim, estarei sempre pronto para servi-los”.   

 

Que safado! Ele nos abraçou fortemente e nos disse baixinho:

 

“Que Deus ajude vocês!”.

 

Porfírio, o final dessa história você não ficou sabendo, mas a repassarei aos seus filhos para eles rirem um pouco e matarem a saudade do grande homem, profissional, amigo, pai, irmão, tio e avô que foi você.  

 

Namastê!

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