Take a fresh look at your lifestyle.

Revolucionar

0 147

Por Débora Ireno  Dias

Ao andar pelas ruas de uma cidade próxima, dia chuvoso, indo em direção à médica que poderia me justificar o porquê das minhas frustrações maternais, deparei-me com uma frase pichada num muro de terreno baldio: “O afeto é revolucionário!”. 

Li, passei direto, mas algo me chamou a atenção e voltei. Registrei no celular e no pensamento. Segui em frente enquanto a chuva ia lavando minha ansiedade. 

Em tempos de tantas discordâncias, retaliações, brigas por assuntos os mais diversos, em tempos onde os extremismos – sejam os direitos ou esquerdos, acima ou abaixo – ditam o que é certo, correto, “do bem”, “para o bem”, os sinais de afeto trazem um quê de rebeldia por parte daqueles que desejam sair das falas e discursos e partir para a ação efetiva em busca de um lugar melhor para todos. 

E como distinguir este afeto que revoluciona? Olhe ao redor: certamente, verá um pai caminhando com seu filho levando-o para brincar, uma mãe estendendo a mão para outra mulher que precisa de acolhida; verá uma criança que empresta seu brinquedo a outra e um jovem que ajuda seu amigo a entender os cálculos; verá ainda um idoso que acena sorrindo, sentado no banco da praça enquanto um policial ensina a jovem como chegar ao seu destino; verá também um professor levando seus alunos a lugares onde a imaginação chega e faz sonhar e um paciente levando um bolo fresquinho para seu médico, em sinal de gratidão. Verá um homem cuidando das flores coloridas que nascem ao longo do córrego fétido, num sinal de que a vida floresce sempre. Verá as flores caminhando rua afora, seguras nas mãos do entregador, na certeza de que farão alguém sorrir. Verá um catador de reciclagem pegar o material na casa da vizinha e deixando com ela um molho de couve fresquinha. Verá o pai levando a filha à escola, na garupa da bicicleta e abraçando-a ternamente. Verá a mãe que chora o filho que se foi para sempre sendo acolhida em abraços e se alegrando com as boas novas de suas amigas. Verá pessoas que se unem para levar alimento a quem necessita e as que levam calor humano a quem não vê o sol nascer, sem julgamentos, apenas levar o calor humano onde a humanidade se desfez. Verá um abraço discreto para quem o observa, mas o acolher da alma para o aluno que o recebe. Verá pessoas que buscam o autocuidado para espantar seus fantasmas e reaprendem a dar afeto a si mesmas e, assim, a serem afetuosas com o Outro. Verá o olhar de medo do enfermo ser serenado pela mão amiga que o segura. 

Verá gestos silenciosos, outros falados. E ainda tem aqueles que só o coração e a alma percebem. 

O afeto revoluciona um momento, um dia, uma vida! Um olhar que acalma, um sorriso que acolhe, um abraço que sente junto a dor do Outro, uma flor, um bolinho, um “dar as mãos”, a escuta sem preconceito, o estar junto olhando o Outro sem as fronteiras impostas por nós mesmo e tantos gestos de afeto que podemos praticar. 

Um olhar atento e logo perceberá que seu afeto afeta o Outro e pode, certamente, provocar mudanças, que seja por um momento, que seja para a vida toda. E a via contrária também acontece: quando estamos abertos ao Outro, mesmo que a vida esteja nebulosa, o afeto alheio que nos chega, faz nossa vida ficar mais bonita, que seja por um instante. E esse belo muda o olhar, a perspectiva, o foco. 

Cada vez que os afetos afetam nossas vidas, sejam aqueles discretos como os anjos, sejam aqueles que todos veem, certamente uma revolução acontece nos sentidos e sentimentos. Isso é até mesmo fisiológico e a Neurociência e demais estudos podem explicar: os neurônios realizam melhor suas sinapses, o batimento cardíaco e a pressão arterial normalizam, o ar entra melhor pelas narinas e a oxigenação mais fluída faz o organismo funcionar melhor. E ter um corpo que funcione melhor, com os pensamentos e sentimentos menos desequilibrados, é revolucionário! Sentir a vida fluindo, é revolucionário pois faz com que ajamos de forma mais coerente e tenhamos decisões mais condizentes com nossos valores e estado de vida, não só para nós, mas os pensamentos saem em direção àqueles que fazem parte da nossa existência – os de perto e os que nem conhecemos, pois tudo está interligado nesta vida!

Urge sermos mais afetuosos! Urge uma revolução que nos leve a uma verdadeira “Civilização do Amor”, como dizia São João Paulo II.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.