• 16ºC
    Barbacena, MG Previsão completa
  • Quem não cola não sai da escola

    A crônica de Francisco Santana

    Com certeza você já ouviu a frase “Quem não cola não sai da escola”. Sempre fui um péssimo colador, pois me entregava facilmente. O medo de ser flagrado e repreendido na frente dos colegas era notório no meu semblante. Se o professor fixasse o olhar na minha testa, leria “estou colando”. Bastava estar num ambiente de competição que a tensão, me dominava. Muitas vezes, minha atenção foi chamada sem eu estar colando, para risos dos colegas. Para redigir essa crônica, passei por um laboratório sobre o tema. Não pense que é colar de unir, pegar com cola, nem de ornato ou insígnia para o pescoço. É a temática no sentido de copiar clandestinamente num exame escrito. Concluí que se gasta mais tempo para pensar e engendrar a maneira de burlar o professor, que esse tempo seria bem mais aproveitado para estudar e aprender a matéria. 

    Por que “colar” é considerado uma fraude? Porque é um artifício empregado com o fim de enganar uma pessoa e causar-lhe prejuízo. De acordo com o cronista Mário Persona, talvez você alegue que a cola não prejudica ninguém, mas é um engano pensar assim. Se o teste ou exame for para se candidatar a uma vaga, como vestibular, concurso público ou emprego, você estará usando de um artifício que poderá prejudicar alguém mais preparado que você e que não usou desse artifício. Colar envolve também mentir, pois ao assinar sua prova, teste ou exame você está declarando ser o autor, e a Bíblia diz que é melhor ser pobre do que mentiroso. Também é um falso testemunho. 

    No curso ginasial eu tive um colega de nome Carvalho, o inventor de colas. A cada prova ele trazia uma novidade e quando não conseguia colar, se transformava num ator e chorava literalmente até o professor ficar condoído com seus argumentos e lhe dar uma nota maior. Dentre muitas, vou lhes contar uma. Prova de História. Matéria: Renascimento (1440 a 1540). Carvalho se assentou na cadeira atrás de mim e inventou essa: “Santana, a prova do professor Afrânio normalmente não passa de dez questões. Então, quando eu der um chute no pé da sua cadeira é porque quero cola da questão de número 1. E assim vai: três chutes significam questão de número 3, quatro chutes questão de número 4”. Prova distribuída e todos concentrados. Situação complicada a minha, pois além de fazer a minha prova tinha que me concentrar nos pontapés dele. Depois de algumas colas repassadas, ele deu 15 chutes da minha cadeira. Eu lhe disse: Carvalho, a prova tem dez questões e você me pede cola para a questão de número 15? Ele sorriu e me disse: “Vamos mudar de tática, agora vai ser olho no olho ou pergunta no pé do ouvido”.

    Prova de Português. A conversa paralela dos alunos atrapalhava a concentração da turma. O Professor Joaquim disse que a conversa estava alta e que tinha colega passando informações erradas e confundindo prefixo com sufixo. A turma estava com dúvidas numa questão sobre sufixo. De repente, um Espírito de Luz baixou no professor e ele falou: “Atenção! Vou falar apenas uma vez e não vou repetir. Quem pegar, pegou, quem não pegar não pega nunca mais”. Ele nos disse e repetiu: “ite” inflamação; “ista” profissão; “izar” verbo; “eiro”, nacionalidade; “aria” lugar e outros vários. Foi um show inusitado, vindo do querido professor Tiquinca, como era conhecido. 

    Prova de Desenho Artístico. Essa matéria me estressava. Eu nunca tive jeito para desenho. O professor Boratto colocou sobre a mesa uma flor de lis feita de gesso e disse aos alunos. “Vocês vão desenhar numa folha de papel como vocês estão vendo essa flor.. Prestem bastante atenção no que estou lhes dizendo: desenhem apenas o que estão vendo”. A prova versava sobre o tema perspectiva. É isso mesmo? Na outra aula ele trouxe as provas e as notas. Elogiou todos os alunos que tiraram nota 10, exceto dois que apresentaram os desenhos iguais. Ele disse: “Isso só é possível se um assentou no colo do outro”. A turma delirou com esse parecer inteligente. Eu sabia que era comigo porque o colega Grossi fez a prova para mim. Quase borrando as calças, ergui a mão e disse a ele que o culpado da situação era eu. Como eu sou péssimo em desenho, pedi ao colega que fizesse para mim. Pedi perdão ao professor, aos colegas e principalmente ao que me passou a cola. A nossa nota seria 10 como as demais. O professor Boratto deu a nota 9 para o Grossi e 5 para mim e ainda elogiou minha honestidade.  

    Prova de Teoria da Comunicação no curso de jornalismo. O professor Geraldo chega à sala e distribui a prova. Eram apenas cinco questões. Quando li pensei: que matéria é essa? Nunca vi! Percebi que a turma, sem exceção, pensava como eu. Que prova bem elaborada. As cinco questões estavam interligadas. Errou uma vai errar as demais, efeito dominó. De repente, ele se levanta, pede silêncio e disse que iria à secretaria resolver um problema. Alguém perguntou: “Uai professor, vai nos deixar sozinhos?” Ele falou que sim e que poderíamos usar livros e trocar ideias, sem algazarra.  O livro era em espanhol e ninguém, mesmo conversando, encontrava as respostas. Na semana seguinte, ele trouxe as notas. A maior foi 6,5. Pelo fracasso geral, ele deu um trabalho para somar com a nota da prova. Professor maravilhoso, incrível e amigo. 

    Prova de Geografia. O professor Ítalo chega à sala e pede a todos que deixem sobre a carteira apenas canetas, lápis e borracha. Provas distribuídas. Depois de alguns minutos, ouvem-se gritos de horror vindos lá do fundo da sala. O colega Mota Couto foi apontar o lápis com uma gilete e cortou o dedo sujando de sangue sua camisa e por onde passou. Ele pediu autorização para ir ao banheiro se lavar. O que fora concedido de imediato. Passados alguns minutos, o professor chamou o inspetor, Sr. Marcos, para tomar conta da turma por alguns instantes. Em seguida, entra na sala o colega Mota Couto chorando copiosamente e o professor dizendo algumas palavras. Mota pegou o seu material, em silêncio, e foi embora. Moral da história. O professor nos disse que achou estranho o comportamento dele e foi ao banheiro. Lá encontrou o Mota Couto com um livro de geografia nas mãos escrevendo nelas as respostas das questões da prova. O que mais nos impressionou nesse ato, foi a lição de moral que o colega recebeu. Se acaso tinha alguém colando, depois do discurso do professor ninguém ousou fraudar. Foi enaltecido nesse discurso valores morais como ética, hombridade, confiança, respeito aos colegas, ao professor, aos familiares,  cidadania e principalmente da sua futura profissão. Foi emocionante e contagiante. A nota do Mota Couto foi 0 e  nós, o aconselhamos a se desculpar com o professor, o que foi feito.