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  • Quem é Eduardo Marinho?

    Por Francisco Fernandes Ladeira (doutorando em Geografia pela Unicamp; escritor, autor de nove livros). 

     

    Há cerca de uma década, viralizou no YouTube um vídeo em que um artista plástico tecia algumas reflexões sobre a sociedade e contava um pouco sobre sua trajetória, enquanto colava suas pinturas e desenhos na parede de um casarão, no Rio de Janeiro. O nome dele: Eduardo Marinho. 

    Desde então, foram gravados mais vídeos e Marinho tornou-se relativamente conhecido em todo o país, sendo, inclusive, convidado para palestras em universidades e para programas como o Pânico, da Jovem Pan. Provavelmente, alguns leitores já ouviram falar sobre. 

    Eduardo Marinho tem uma trajetória de vida sui generis. Enquanto, em uma sociedade capitalista como a nossa, a maioria das pessoas almeja ascensão de classe, ele fez o movimento contrário. Lembrando um clássico pensamento de Paulo Freire, foi um “opressor” que buscou viver a experiência (quase franciscana) de “oprimido”. 

    Nascido em 1960, numa família de classe média alta, Eduardo Marinho, antes de completar duas décadas de vida, já havia sido bancário, militar e estudante de direito. O que para muitos seria motivo de orgulho, para Marinho causava angústia. A existência deveria ter algum “sentido”, que não fosse apenas trabalhar, ganhar dinheiro e construir patrimônio (ou seja, aquela velha ideia de “vencer na vida”). Afinal de contas, todos vamos morrer e não levaremos nenhum bem material conosco. Também lhe incomodava a maneira pela qual seus pares de classe tratavam empregados, vistos como seres “inferiores”, simplesmente por suas condições de pobreza. 

    Movido por essas inquietações, que, diga-se de passagem, o acompanhavam desde criança, Eduardo Marinho, aos dezenove anos, decidiu abandonar faculdade, casa e conforto material, com a finalidade de encontrar algum sentido numa vida que, até então, não tinha nenhum que lhe parecesse satisfatório. 

    Assim, ele buscou a experiência de “não ter nada”, vivendo por muitos anos na mendicância, viajando de carona, dormindo em casas abandonadas, em caixa de papelão.

    Ao romper com sua família biológica, ganhou, em contrapartida, a humanidade como “família”. A vida na “miséria” lhe fora muito mais satisfatória do que na “riqueza”. 

    O que faltou materialmente, sobrou em aquisição de saber, ao ter contato com o mundo a partir do ponto de vista da população pobre. “Eu fui percebendo que as necessidades que a gente tem não são as materiais as principais, são as imateriais”, costuma afirmar em seus vídeos. A interação com diversos tipos de pessoas permitiu a Marinho concluir que as classes baixas são sabotadas pelas elites, não apenas em relação a fatores econômicos, mas, principalmente, no tocante ao não acesso ao conhecimento (o que levaria os pobres a perceberem que suas condições adversas não são “naturais”, mas consequência de uma sociedade que opera na lógica da exploração de muitos por poucos). 

    Também foi possível constatar o quanto os pobres, de maneira geral, são mais “sinceros”, “solidários” e “fortes” do que elite e classe média, pois vivem (e superam) cotidiana e coletivamente dificuldades que os indivíduos dos estratos superiores da pirâmide social jamais aguentariam, nem por um dia sequer. “Onde eu vi a humanidade mais bonita foi nas partes mais pobres. Quando eu pedia comida nas partes ricas da cidade me davam as sobras, o resto. Quando eu fui pedir nas periferias as pessoas me levavam pra dentro de casa, dividiam o que tinham comigo”, disse Marinho, em entrevista ao site Voo Subterrâneo.

    Após constituir família, Marinho, paulatinamente, abandonou o nomadismo, porém manteve seu estilo de vida simples. Para ele, é constrangedor ter mais do que se precisa diante de tanta miséria.

    Com propriedade técnica (de quem esteve na universidade) e empírica (de quem teve contato com “a vida como ela é”), Marinho, em suas reflexões, aponta que os banqueiros são os verdadeiros “donos do mundo” (sendo os políticos meras marionetes de seus interesses), denuncia a grande mídia como “narcotizante das massas” em favor dos interesses dominantes e faz pontuais críticas a setores da esquerda e da academia (excessivamente teóricos, elitistas e afastados do povo). 

    Há quem considere Eduardo Marinho “utópico”, “ingênuo”, “despolitizado”, “anticiência” e “anti-universidade”. Algumas dessas críticas são pertinentes, outras absolutamente descabidas. Frases do artista plástico, como “o movimento hippie ameaçou o sistema muito mais que todo o tempo de partido comunista que existiu”, realmente, são passíveis de discussões e questionamentos. 

    No entanto, poucos indivíduos realmente vivem o que pregam, isto é, aliam teoria e prática, como faz Eduardo Marinho. Não se trata de um guru (ou algo similar), mas de um pensador que, numa sociedade extremamente materialista e competitiva, traz reflexões urgentes e necessárias. Concordar com ele (ou não), em determinados pontos, aí já é outra história.

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