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    Barbacena, MG Previsão completa
  • Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra (Jô 8,1-11)

    Por Francisco de Santana

    Pensei: vou abrir a Bíblia e o assunto da página será o tema da minha crônica. Vamos a ele. Jesus foi para o Monte das Oliveiras. De madrugada, voltou ao Templo e todo o povo se reuniu ao redor Dele. Sentando-se começou a ensiná-los. Os escribas e os fariseus trouxeram uma mulher apanhada em adultério. Colocando-a no meio, disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi flagrada cometendo adultério. Moisés, na Lei nos manda apedrejar tais mulheres. E Tu que dizer?” Eles perguntavam isso para experimentá-lo e ter motivos para acusá-lo. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever no chão com o dedo. Como insistissem em perguntar, Jesus ergueu-se e disse: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra”. Inclinando-se de novo, continuou a escrever no chão. Ouvindo isso, foram saindo um por um, a começar pelos mais velhos. Jesus ficou sozinho com a mulher que estava no meio, em pé. Ele levantou-se e disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, Senhor!” Jesus então lhe disse: “Eu também não te condeno. Vai e de agora em diante não peques mais”. 

    O assunto dominação machista é sempre atual. As estatísticas comprovam que a cada duas horas uma mulher morre no Brasil vítima de violência. E a cada quatro minutos uma é estuprada e agredida física e moralmente. Infelizmente a mulher sofre esses ataques por ser considerada inferior. Elas são vistas pelos seus companheiros como posse e quando saem do esquema machista recebem um tratamento violento chegando muitas vezes ao feminicídio. O homem não aceita sua liberdade ou a sua independência.  Por ser considerada inferior ela é dominada e explorada pelo homem. “Dentro da cultura brasileira, isso é esperado, porque você tem uma relação de dominação sobre as mulheres. As mulheres têm menores salários, elas ocupam menos postos de comando. Geralmente, elas trabalham mais, já que além  de cuidar da casa e dos filhos, trabalham fora.  A gente tem um situação de dominação e exploração da mulher. Então, às vezes, para o homem  perder uma mucama ou empregada doméstica dessas é revoltante’, afirma o sociólogo e professor, Gessé Marques Júnior. 

    Esse tema me lembrou uma situação vivida por mim e dois colegas em Belo Horizonte há tempos. À noite saímos do hotel para fazermos um lanche num restaurante. Ele fica nas imediações do portão principal do Parque Municipal, perto do hotel onde estávamos hospedados. De repente ouvimos gritos de socorros e palavrões como vadia, safada, vagabunda, piranha e puta. Fomos certificar e deparamos com um jovem de corpo atlético espancando uma mulher. A disparidade física era absurda. Fomos até eles e o colega pediu que o jovem parasse de agredir a mulher abominando seu gesto e o chamando de covarde. O homem não se intimidou com ad nossas presenças insignificantes e apelos veementes e continuou surrando a mulher dando-lhe socos e pontapés por todo corpo. Voltamos ao restaurante para pedir ajuda e ninguém se moveu. O gerente ao ser abordado nos disse: “Não mexe com isso não. Se intrometerem vocês vão se dar mal. A polícia vai convocar vocês como testemunhas”. E a mulher continuava gritando clamando por socorro.  

    Carros passavam pela rua, davam uma paradinha e seguiam seus destinos. Uns gritavam palavras incompreendidas. Não nos interessava a profissão da mulher agredida e sim pelo respeito ao ser humano. Olhei para rua e percebi pelas luzes acesas e girando, um carro da polícia. Corri ao seu encalço para pedir socorro. O carro parou e percebi as presenças de vários militares. Fui educadamente atendido e relatei os fatos que eles ouviram atentamente sem interrupção. Um deles disse sorrindo: “logo agora no final do nosso expediente!” Saí dali fortalecido e grato a Deus pela justiça prestes a acontecer. Comuniquei o fato aos colegas que ficaram mais calmos. Acredite, o carro da polícia se aproximou do casal e não tenho muita certeza, mas ouvi um policial gritar: “Mata”! e foram embora sem prestar socorro. 

    Não sabíamos mais o que fazer ou a quem apelar. O proprietário do restaurante nos informou que aquela cena era comum naquelas imediações por existir lá uma suntuosa casa que aluga quartos para encontros envolvendo sexo, drogas e até festas de despedidas de solteiros. E sempre terminavam em confusão. Ao retornarmos ao hotel, vimos um carro parar diante da jovem agredida e dele sair uma senhora que a acolheu amparando-a porque tinha dificuldade em andar e saíram em disparada. 

    Num curto espaço de tempo desse fato foi criada a Lei Maria da Penha, que entrou em vigor no dia 22 de setembro de 2006 e sempre quando se discute violência contra a mulher esse caso vem à minha mente. Eu o relembro com tristeza. No encontro com outros colegas, relatamos o fato ocorrido. E novamente o machismo se fez presente em suas perguntas: “Ela é nova ou coroa?”, “É gostosa?”, “Ela deve ter traído o marido com o namorado agressor”. “Pura traição, tem que apanhar mesmo!”. “Deve ser filhinha de papai que foi lá fazer programa. Eu conheço bem aquele lugar. Ele é muito visitado por ricos e por mulheres e homens mal casados que frequentam lá na busca de aventuras”. “O local é lindo, privado, um bordel camuflado que serve a todos, seus pratos preferidos: sexo, drogas, intimidades na clandestinidade”.  

    Enquanto perdurar a falta de educação, berço, caráter, desrespeito, machismo e o homem considerar a mulher como sua posse, ela continuará sendo espancada, aviltadas de seus direitos, estuprada e morta. A tarefa não é fácil. Seria o caso de leis mais severas? Punições exemplares? Filhos serem educados desde pequenos a respeitar as mulheres?  Ou esperar pela providência divina? Eu não tenho solução imediata para solucionar esse terrível impasse. 

    “Aprenda a perdoar porque você também erra”.