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    Barbacena, MG Previsão completa
  • Que profissão vou exercer quando crescer?

    A crônica de Francisco Santana

    Éramos um grupo de menos de 25 alunos assustados, recém saídos do primário ou dos cursinhos de admissão ao curso ginasial. A timidez e a insegurança eram nossos aliados. Percebendo isso, o professor de português, Ari Coimbra, quis inflamar o grupo e nos fez a seguinte pergunta: “Que profissões vocês querem exercer no futuro?” Ele estava coberto de razão, o grupo se agitou. Todos queriam responder ao mesmo tempo. Algazarra geral. Joãozinho foi o primeiro a dizer que iria ser médico ginecologista. Ricardo querida ser embaixador. Mota queria ser advogado. Carlinhos queria ser funcionário do Banco do Brasil. Luiz Carlos queria ser político e Gustavo engenheiro civil. Todos alegando enriquecimento e estabilidade profissional. Muitas décadas se passaram e nenhum deles acertou a profissão desejada. O Joãozinha que gostaria de ver “as coisas” das mulheres é militar, o Ricardo é professor e assim, cada um tentando ser feliz com o dinheiro que ganha.  Dinheiro é importante. Se mal administrado, cria desavenças e acarreta em ruptura familiar e moral.

     

    O filósofo Barthes já dizia que “há uma idade em que se ensina o que se sabe, mas em seguida vem outra idade em que se ensina o que não se sabe”. Nesse período, uma palavra apareceu no cenário profissional: competição. O diploma passou a ser apenas um referencial, o início de uma nova profissão. O mercado moderno exige mais. Hoje ganha-se ou perde-se nos detalhes. Curso superior, pós-graduação, mestrado, doutorado, informática, fluência dos idiomas inglês, espanhol e francês. Sejamos corajosos, pois o medo é a lente que aumenta o perigo.

    Vivenciamos a era dos cursinhos preparatórios para concursos, da comercialização das apostilas e cursos à distância. Vivendo num país onde a desigualdade social é absurda, torna-se impossível traçar metas e confiar nas diretrizes traçadas pelo governo. O nosso passado não é recomendável e não conseguimos cavar masmorras aos vícios enraizados desde o nosso descobrimento. O ceticismo toma conta da nossa gente.  Há ainda os espertalhões que compram diplomas, títulos e tentam iludir o povo. Um país desenvolvido é um país que investe bem na educação. É preciso solucionar e esclarecer processos complicados com sabedoria.

    Infelizmente, quando o governo fala em cortar verbas, o primeiro a ser lembrado é o da área da educação. O interesse dos políticos é ter sob o seu domínio seres ignorantes facilmente manipuláveis.  O que se vê são escândalos, corrupções e um país sem futuro. “Não se faz um país sem educação, Escola não é comércio. Escola é uma instituição. É preciso valorizar o magistério por ser a profissão que prepara o futuro. Fora da educação, não há salvação. É preciso formar professores de excelência, e atraí-los com remuneração alta. Escola não é brincadeira, não é passatempo, não é depósito de criança porque os pais estão trabalhando. É o lugar mais importante de um país sério” (Jornalista Alexandre Garcia). O governo atual já teve três Ministros da Educação e agora empossa o quarto, o Pastor Milton Ribeiro da Igreja Presbiteriana. Sobre esses ministros, discute-se muito sobre se é técnico ou político. Deveria se discutir se ele não é corrupto, se tem condições de comandar o ministério e se ele se compromete a melhorar o Brasil nessa área. Será que encontraram ou encontrarão esse protótipo de Ministro da Educação? Só o tempo dirá.

    Como se não bastasse a difícil escolha da profissão, há sempre as interferências de pais e amigos. Conversando sobre esse tema com uma médica amiga ela me disse que estava muito preocupada com a profissão que a filha escolhera para fazer o vestibular. Que a menina estava irredutível. Queria ser jornalista porque gostava de notícias, informações, redação e comunicação. A colega a convenceu a fazer terapia para ver se essa ideia absurda fosse destituída. Ela chegou a dizer que não iria complementar sua renda porque jornalismo é uma profissão de pouco ganho financeiro, perigosa, futuro incerto, muito fácil, qualquer um pode ser, que pode ser feito à distância e outros impropérios. Ela ficou tão estressada que chegou a chorar.

    Eu lhe perguntei:

    – Qual a profissão que você tem mais ódio?

    – Santana, pelos problemas causados pela minha filha, é o jornalismo. E você, Santana, é formado em que?

    Sorri maliciosamente e disse a ela:

    – Jornalismo.

    Acabou a consulta. A propósito, a filha dela se formou em… MEDICINA.