Quando o amor começa a arrefecer

Maria Solange Lucindo Magno

Estamos no mês em que se comemora o Dia dos Namorados, data essa muito aguardada por lojistas, donos de restaurantes, motéis e outros lugares de encontro. Em 2024 estão todos otimistas com a expectativa de lucrar bastante porque é quando casais, jovens em sua maioria, saem para comemorar, trocar juras de amor e presentes.

Lembro-me de que há alguns anos saí com o meu marido para comemorar num local que nem existe mais em Barbacena e fiquei embevecida com o que presenciei: as mesas foram organizadas para os casais, o ambiente era bem intimista e estava iluminado com velas. Os casais, todos vestidos com esmero, falavam baixo e não prestavam atenção em mais nada a não ser no parceiro. Havia música ao vivo, mas os únicos a dançar fomos eu e o meu companheiro. E da pista eu olhava para todos. Foi, enfim, uma noite mágica.

Mas a data representa muito mais que isso e suscita uma boa reflexão. O tempo de namoro destina-se ao conhecimento do outro, aos ajustes a serem feitos, às adaptações.

Existe algo mais idílico que o início de um namoro? Quase todo mundo já viveu essa experiência e creio que concorda que é realmente maravilhoso.

Quando um relacionamento começa tudo é perfeito: gentilezas, troca de olhares ternos e carinhosos, presentes e mimos, vontade de estar sempre junto, de se falar e muita atração. Normalmente, se estabelece um contrato oculto que ninguém fala, não se discute sobre ele, mas está ali, presente na relação. Cada casal cria o seu.

Com o passar do tempo, os problemas começam a aparecer e a relação já não é mais tão perfeita. De modo geral, é quando passa aquela fase da paixão, que cega a todos não permitindo que se veja o outro como ele verdadeiramente é.

E o que me levou a escrever sobre esse tema, foi ouvir um dia desses um padre em sua homilia. Muito do que ele disse me chamou a atenção, em especial, quando deu a entender que algumas pessoas parecem ter duas caras: trata a família em casa de uma forma totalmente diferente daquela que trata os estranhos na rua. Em casa, é só mau humor, grosseria e, na rua, bajulação e afagos. É o que corresponde ao “para visita, o copo é de cristal; para os de casa, o copo é o de geleia”. Por que incorremos no erro de negligenciarmos uma relação duradoura, sólida, nos acomodando e não a regando mais? Por que a deixamos acabar, sem mais investir nela?

E foi assim que comecei a refletir em minha experiência de vida e analisei a história de vários casais que conheço ou conheci. Quantos não existem mais! Quantos transformaram sua convivência num verdadeiro inferno! E como estão mudando os relacionamentos! Hoje se fala muito em relacionamento aberto, embora poucos arquem com as consequências de dividir o parceiro.

Mas, voltando ao tema inicial, quando é que o amor começa a arrefecer? Bem, com pequenos gestos impensados, palavras mal ditas, mentiras, falta de parceria, infidelidade, perda de confiança, agressões físicas e psicológicas e por aí afora. E isso vale para os dois, não é uma via de mão única.

Quantas vezes, num relacionamento, seja ele de namorados ou casados, um dos dois começa a fazer coisas que magoam o companheiro?

Eu citaria como exemplos alguns comportamentos adotados que vão ferindo o parceiro e minando a relação: quando um desmente o outro na frente de terceiros; não o apoia quando precisa; esconde decisões tomadas unilateralmente; deixa de fazer um elogio quando o outro se enfeita para o agradar; faz pouco caso de suas opiniões; contradiz o outro na educação dos filhos; não compartilha do sucesso do outro; elogia pessoas na rua ou paquera na frente do parceiro; compete com o outro e o inveja em seu desempenho. Enfim, há uma gama de posturas que machucam sobremaneira o parceiro de modo a abrir uma ferida que não cicatriza. Há uma brincadeira popular que diz que casais que estão juntos há muito tempo se tratam de querido (a) porque esqueceu o nome do companheiro (a). É claro que é um exagero, porém, eu como boa observadora, já presenciei muitos casais veteranos sendo rudes um com o outro, impacientes, grosseiros, sem cavalheirismo, o homem anda sozinho na frente, deixando a mulher para trás, atitude não adotada no início do relacionamento. Outra coisa que abomino é quando ouço um falar mal do outro para estranhos. Uma grande falta de respeito com aquele que um dia foi tão amado e desejado. Não seria mais indicado que um relacionamento termine quando acaba o amor?

Afinal, será que existe esse tal amor? Esse sentimento não é uma invenção? Que não duvidemos que muitos casais se mantêm em função do contrato oculto que se estabeleceu um dia. Entretanto, existem, sim, casais que são uma verdadeira referência! Amar é saber perdoar, é respeitar, aceitar os defeitos e ter paciência, passe o tempo que passar. Uma relação pautada na paixão está fadada a não ir adiante. A paixão tira a racionalidade das pessoas e logo passa.

Em 2005, ouvindo uma fala do Padre Marcelo Rossi em seu programa de rádio, fiquei admirada quando ele disse que num relacionamento familiar, em primeiro lugar vem o casal, em seguida, os filhos e, por último, os parentes. Anotei na minha agenda para nunca mais esquecer. Portanto, que ninguém recrimine um casal que priorize a si mesmo.  Certa vez assisti a um belíssimo filme com esse tema e fiquei encantada, pois dificilmente vemos um casal adotar essa postura.

O que disse padre Marcelo tem lógica. Quando o ninho fica vazio com a saída dos filhos, pois um dia eles se vão para viver a própria vida, o casal conclui que a sua jornada com os filhos terminou e é preciso restabelecer novos objetivos na vida do casal, redescobrir novos prazeres.  E essa retomada da vida a dois vai depender de como o casal manteve a relação ao longo desse tempo. Se foi com amor e companheirismo, a solidão e a sensação de vazio não vão se instalar.

Alguns casais, com exceções, é claro, deixam de adubar a relação e passam a viver em função dos filhos. Alguns parceiros se ressentem e partem para uma outra relação, ou quando abrem os olhos, muito do que os uniu simplesmente acabou.

É verdade que para muitos o amor romântico está em desuso, as relações estão se modificando de forma significativa e observo um fenômeno entre os casais jovens que já tem até nome e não é primazia do Brasil: a agamia, que é quando optam por viverem um relacionamento sem grandes compromissos, sem o tradicionalismo e romantismo de antes e não desejam filhos. Será que pensam sofrer menos no caso de um rompimento? Há também uma outra tendência que é o “vai-não-vai” (orbiting), uma espécie de ghosting, que consiste no querer se afastar de um vínculo, mas não o fazer completamente. A meu ver, uma forma de brincar com os sentimentos do outro, uma vez que fica no vai e volta, mas não assume nada.

O fato é que vivemos os nossos relacionamentos, que terão o valor que darmos a eles e serão preservados de acordo com os cuidados que teremos. Devemos evitar brincar com os sentimentos alheios, sinalizando falsas expectativas e jamais ficar com alguém apenas para não ficarmos sozinhos. Vale a máxima: “antes só que mal acompanhado”.

Que nos afastemos de qualquer forma de amor possessivo, tóxico e egoísta, jamais nos esquecendo de que primeiro temos que amar a nós mesmos para, então, estarmos prontos para amar alguém.

Um feliz Dia dos Namorados para todos aqueles que cultivam o amor!

 

 

 

Maria Solange Lucindo Magno, professora dos anos iniciais do Ensino Fundamental na rede estadual – aposentada

Atuou como Inspetora Escolar na rede estadual – SEE

Técnica em Educação da rede municipal de ensino de Barbacena – aposentada

Amante de livros, cinema, teatro e música, enveredou pelos caminhos da escrita

Lançou em 2020 o seu livro de caráter intimista “Escritos Com o Coração”

Autora de diversas crônicas

Possui publicações na plataforma Scriv

Comentarista na página do Leitor – Revista Veja

Foi aprovada como colunista do site O Segredo

Aprovada em cinco Antologias

Atualmente é articulista do Complexo de mídia eletrônica Barbacena Online

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