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Perfil das torcidas em Barbacena e seus significados: Futebol e Influência urbana

Helcio Ribeiro Campos

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Acredito que todo torcedor ou fã de futebol tenha sempre em mente a dúvida acerca do tamanho das torcidas. No Brasil, isso deve perdurar, pois não existe um “censo dos esportes” e o IBGE não levanta as preferências clubísticas. Assim, temos que nos informar por pesquisas e enquetes.

Curioso que (também) sou, eu mesmo fiz uma dessas pesquisas. Isso foi em 2012. Pouco mais de 500 alunos do Instituto Federal de Barbacena, onde leciono, declararam seus times prediletos. Houve dados de 54 setores do Município (dezenas de bairros, além de Faria Lemos, Torres de São Sebastião e Ventania) e de pessoas com perfis socioeconômicos variados.

Essa pesquisa foi parar no livro Onze: Futebol e Ciências Humanas, publicado no ano passado. Eis seus resultados mais importantes:

  • 45 pessoas (9% do total) mostraram que o futebol não é uma unanimidade: elas não torcem e sequer simpatizam por algum time. Por outro lado, 91% (465 alunos) têm interesse por futebol, dos quais 53,03% (197 discentes) torcem para apenas 1 time; 12,13% (62 pessoas) torcem para 2 clubes; 1,56% (8) para 3 times; e 0,78% (4) para 4 times. Portanto, essa identificação com os clubes denota fidelidade: a maioria é monoclubística e torce (271 alunos) em vez de simpatizar (195 alunos).
  • Clubes preferidos entre os que torcem para 1 time: Cruzeiro, Atlético, Flamengo, Corinthians, Vasco, São Paulo, Palmeiras, Fluminense e Botafogo.

 

Cerca de 5 anos depois desse estudo, houve uma enquete por meio da pagina oficial de cada clube na internet. Por isso, ficou conhecida como “pesquisa das curtidas”. Ela foi organizada pelo Globo Esporte (GE, 2015) e contou com a assessoria de catedráticos de estatística. Teve abrangência nacional.

Vejamos agora os resultados das duas pesquisas aqui mencionadas quanto aos 5 clubes mais queridos:

 

Pesquisa publicada no livro Onze            Pesquisa das “Curtidas” do GE

  1. Cruzeiro – 40,60 %                          1. Cruzeiro – 35,7 %
  2. Atlético – 21,82 %                           2. Atlético – 19,5 %
  3. Flamengo – 12,69 %                        3. Flamengo – 17,4 %
  4. Corinthians – 10,65 %            4. Corinthians – 7,5 %
  5. Vasco – 5,58 %                      5. São Paulo – 4,2 %

 

A despeito das diferenças encontradas entre as duas fontes, ambas mostram que as 10 agremiações mais bem colocadas são todas de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, nesta ordem.

Do ponto de vista geográfico isso tem uma razão de ser: é a influência urbana ou polarização urbana. A influência urbana de uma cidade sobre outra(s) se dá por meio de tudo aquilo que irradia a cidade que é influente/que polariza, como indústrias, comércio, canais de TV e rádio, número de viagens até ela, instituições de ensino, opções culturais etc. Neste elenco de fatores está o futebol.

O futebol é, ao mesmo tempo, projeção sociocultural e econômica de uma cidade por meio do seu clube de futebol. Assim, enquanto o Rio de Janeiro foi a mais importante cidade brasileira na economia e na cultura, conseguiu amealhar uma legião de fãs para seus clubes, sobretudo pela ação dos jornais, das rádios (como a Nacional) e das TVs (caso da Globo).

Enquanto isso acontecia, Belo Horizonte, surgida apenas em 1897, ainda lutava para se afirmar como principal cidade em Minas Gerais. Porém, rapidamente conseguiu ser a terceira cidade do país já em 1960, exatamente quando o Rio de Janeiro passaria a uma decadência (que dura até hoje), após perder o posto de capital federal.

São Paulo, por sua vez, consolidou torcedores em suas regiões antigas de influência, como Mato Grosso, Paraná, Mato Grosso do Sul, Triângulo e Sul de Minas. Nas últimas décadas e a partir da decadência carioca, tem esticado sua polarização futebolística para regiões novas.

Por isso, regiões de Minas Gerais, como Vertentes e Zona da Mata, por exemplo, têm torcidas de times dessas 3 cidades. Os torcedores “cariocas” representam o passado, ao passo que os torcedores “mineiros” e “paulistas” a recente evolução urbana de BH e São Paulo.

Os resultados das torcidas em Barbacena confirmam tudo isso: a cidade foi considerada como polarizada pelo Rio de Janeiro até 1960, aproximadamente, para, depois, estar na área de influência de Belo Horizonte.

O futebol, meus caros, não mente, ajuda a explicar a sociedade. Não é o ópio do povo e nem uma fonte de futilidades. Viva o futebol!

 

NOTA DA REDAÇÃO: Helcio Ribeiro Campos é autor de publicações sobre Futebol e Geografia; mestre e doutor em Geografia Humana pela USP; editor da Revista Pluritas; professor do IF Barbacena.

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