Pelas nossas palavras seremos julgados e condenados

Francisco Santana

Cite um erro de português que te irrita profundamente. Quando ouço um eu não me irrito, não corrijo e gargalho internamente. Vivemos momentos onde as comunicações se fazem por gírias, estrangeirismo, regionalismo e erros que passam a fazer parte do nosso vocabulário e da linguagem do nosso dia a dia. “Entendeu? Isso é o que importa!”. Nesse meio encontramos os simplórios, humildes,os esnobes e os ignorantes. Não é difícil distingui-los.

 

Sempre quando esse assunto vem à baila, lembro de uma antiga faxineira que numa só conversa esgotou o repertório. O assunto era comida. Eu disse a ela que amava quibe e ela me respondeu: “Senhor Santana eu adoro cocrete, pão fresquinho com mortandela ou mantega, pexe fritu, iogute e só não gosto de brinjela”. Ela é aquela mesma que atendeu a uma chamada telefônica para mim e disse que a pessoa que ligou tinha voz de radiador.

 

Há quem erra e reconhece que errou, como o caso daquele gerente que falava “menas”. Ele ria e corrigia em seguida dizendo que não conseguia falar a palavra menos. Na papelaria estava do meu lado um senhor que perguntou à vendedora: “Eu quero 25 foia de papeli ofici!”. Eu entendi o que ele queria comprar e a vendedora também. Rosália queria se separar do marido e me pediu para lhe indicar um adevogado para esse tipo de ação, me contou o porquê da separação e completou dizendo que tinha uma filha dimenor. Pior é aquele acadêmico de Direito que disse que a Lei é anticoncecional e que ao simular uma petição chamou o Juiz de Meretríssimo? Já ouvi um aluno de Comunicação Social dizer Ministro Guido Manteiga. Pensei: natural, mas ele repetiu o erro mais duas vezes. Não pode ser tão distraído assim.

 

Se você navegar pela rede virtual, perceberá muitos erros ortográficos e de comunicação. Fiz uma pequena pesquisa e observei com clareza. Há quem culpe os corretores automáticos de ortografia. Há casos que sim como o daquela senhora que aconselhava a outra: “Meu filho sempre teve problemas intestinais e a pediatra receitou Yakult para ativar suas flores intestinais”. Pode ser que ela trocou floras pelo flores e ela não percebeu. Infelizmente, a maioria é por falta de conhecimento mesmo.

 

No facebook, dois jovens pareciam conversar  e um escreveu: “Não posso opinar porque isso não é da minha ossada”. E outra pessoa retrucou: “Onde já civil!?  Outro parecia estar brigando pela sua resposta: “O que vem debacho num miatingi!”. Eu gostei muito do diálogo daquelas duas jovens que falava sobre uma terceira pessoa: “Eu disse para ela: se a cara pulsa serviu, ponha ela na cabeça”.

 

E assim naveguei remando em águas turvas pedindo aos ilustres Aurélio Buarque de Holanda, Antônio Houaiss e Francisco da Silva Borba que me ajudassem a sair desse labirinto de impropérios. A todo momento dessa tempestade me deparei com as sombancelhas que seriam feitas, das acusações de estrupo feitas ao João de Deus; que o Presidente Jair Bolsonaro está com pobrema criado pelo seu filho; que naquela cidade choveu tanto que ossadas do cemintério foram parar nas ruas; que Alice iria ao salão de beleza para fazer a viria; que a neta da Eduarda iria à pediatra para furar as oreias; que a Gracinha iria levar sua neta para benzer porque o imbigo dela; que o pedreiro me pediu cinco metros de taubas para consertar o telhado; que o Felipe comprou uma bicicreta ergométrica para se exercitar em casa; que na casa do vizinho tem  aparecido camondongos enormes;  que vou ter que tirar meu dinheiro da cardeneta de popança para trocar de carro; que o ideal é sempre calçar as sandalhas da humildade; que estou muito sastifeito com o ano que está se encerrando, que a árvore do centro da cidade caiu porque choveu granito, que estou preparando cestas de natal para os presentear os mindingos que dormem na rua.

 

Onde já civil tantos erros? Vou assentar naquele banco da praça, aproveitar o sole e chupar um picolé de cocô, o meu preferido. Por falar em picolé de cocô, percebo que muitos celebros, que de célebres não tem nada, continuam tendo disintiria de ignorância. Isso eu agaranto. Falou e dizeu!

 

E o que dizer de muitos ditados populares? O que semelhança sonora esconde? Vamos elucidar alguns para um melhor entendimento.

 

Cuspido e escarrado, quer dizer: esculpido em Carrara (localidade da Itália, onde existe o mais perfeito mármore); Fulano parece ter bicho no corpo inteiro, quer dizer: fulano parece ter bicho no corpo inteiro;

 

Batatinha quando nasce esparrama pelo chão, quer dizer: batatinha quando nasce espalha as ramas pelo chão;

 

Quem não tem cão caça com gato, quer dizer: quem não tem cão caça como gato;

 

Quem tem boca, vai a Roma, quer dizer: quem tem boca vaia Roma;

 

São ossos do ofício, quer dizer: são ócios do ofício;

 

Hoje é domingo pé de cachimbo, quer dizer: hoje é domingo, pede cachimbo;

 

Quem pariu Mateus que balance, quer dizer: quem pariu os maus teus que balance;

 

Tem cor de burro quando foge, quer dizer: corra do burro quando foge.

 

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