Pauta em prosa, verso em trova (volume 99)

JGHeleno*

 

Convido vocês para ouvirem a canção abaixo gravada pelo cantor Seu Jorge. Suprimi alguns versos do final (repetidos) para que a letra fique menos longa. Um dos principais pilares da arte, na proposta de ampliar sempre o sentido da vida, é o convívio humano, expresso principalmente pelo amor.

Amiga da minha mulher

 

“Ela é amiga da minha mulher
Pois é pois é
Mas vive dando em cima de mim
Enfim enfim

Ainda por cima é uma tremenda gata
Pra piorar a minha situação
Se fosse mulher feia tava tudo certo
Mulher bonita mexe com meu coração
Se fosse mulher feia tava tudo certo
Mulher bonita mexe com meu coração

Não pego, eu pego
Não pego, eu pego
Não pego não

Minha mulher me perguntou até
Qual é
Qual é
Eu respondi que não tô nem aí
Menti menti

De vez em quando eu fico admirando
É muita areia pro meu caminhão
Se fosse mulher feia tava tudo certo
Mulher bonita mexe com meu coração
Se fosse mulher feia tava tudo certo
Mulher bonita mexe com meu coração

Não pego, eu pego
Não pego, eu pego
Não pego não

O meu cunhado já me avisou
Que se eu der mole ele vai me entregar
A minha sogra me orientou
Isso não tá certo é melhor parar

Falei ela não quis ouvir
Pedi ela não respeitou
Eu juro a carne é fraca
Mas nunca rolou

Não pego, eu pego
Não pego, eu pego
Não pego não

Fonte: LyricFind

Compositores: Angelo Vitor Simplicio da Silva / Gabriel de Moura Passos / Jorge Mario da Silva / Roger Jose Cury

Letra de Amiga da minha mulher © Sony/ATV Music Publishing LLC, Universal Music Publishing Group, Warner Chappell Music, Inc

 

 

Percebe-se que a presente letra é tecida numa linguagem bastante coloquial. Vejam a utilização de expressões populares (muita areia pro meu caminhão), metáforas igualmente populares (tremenda gata, dar de cima, não tô nem aí, dar mole, entregar…), simplificação de palavras (tá, tava), uso de gíria (nunca rolou). A letra, como um todo, está composta num registro popular. O registro popular, especialmente quando bem contextualizado, soa agradável na arte. E a arte é frequentemente o caminho que as palavras e expressões populares fazem no seu deslocamento para o registro padrão, ou culto,  da linguagem. A arte é livre e rejeita qualquer forma de censura, inclusive quanto ao tipo de linguagem a ser usada.

Uma canção como esta cai no agrado do ouvinte em razão do ritmo; pelo compartilhamento dos universos cantor-compositor/ouvinte. Ela representa um conflito comum entre as pessoas: a luta do desejo contra a proibição. No fundo, trata-se  do conflito entre a razão e a emoção ou entre a razão e o instinto. É atualização daquela frase de Ortega y Gasset : “eu sou eu e minha circunstância” . A circunstância é representada nessa canção pela moral, pelos costumes erigidos em leis, que justificam a proibição. O personagem do texto, diante de uma linda mulher, fica dividido entre a defesa do “certo” segundo a moral vigente, contra o “não certo” alimentado pelo desejo.

Eu quero aproveitar para realizar uma pequena incursão pelo estoicismo. O evento em si (a paixão proibida) não tem nada a ver com a felicidade, pois a felicidade é um estado de equilíbrio, de tranquilidade, não um episódio. O apaixonado pode acreditar que, ao ceder ao seu desejo, ele estará dando um passo importante para o alcance da felicidade. Segundo o estoico, poderá ser um passo para a felicidade, se a sua escolha for monitorada pela razão, independente dos desdobramentos futuros (porque ao estoico só interessa o presente). Embora o estoico afirme que a emoção (ou affectus) se oponha à razão, ele afirma também que no universo não existe oposição radical. Então, concluímos que a felicidade possibilitada pela a força da decisão (virtus) não é necessariamente o vencimento pela razão e a derrota da emoção, mas sim uma escolha monitorada pela razão, independentemente de que escolha for. No presente conflito, a escolha a ser feita será dentro da oposição “pego/ não pego”. As normas sociais ou religiosas são calcadas em explicações racionais. Frequentemente, as crenças religiosas – sucedâneas da razão – são também caminhos – não estoicos – mas caminhos para imprimir sentido aos atos e às escolhas da vida. Apoiado em religião, o sujeito decidirá com base em princípios. Dentro do estoicismo, o sujeito decide a partir de seu “eu”. Seu compromisso é com o “eu”. A norma do estoico é o “aproveita o momento“ (carpe diem), ou seja: procura ser feliz agora. O que traz a felicidade, segundo o estoico, é a virtude, que nasce da força da decisão pessoal (virtus). Para o estoico essa virtus é uma força decisiva monitorada pela razão. No caso presente, em qualquer uma das escolhas, (segundo a razão ou segundo o desejo), a escolha virtuosa tem que ser feita à luz da razão.

O estoicismo não oferece método de auto ajuda. Ele não pretende dizer que viver é fácil, que escolher é fácil e sem perigo. Ele defende que em qualquer situação de escolha, só há um responsável: o sujeito. E a vida é uma sucessão de escolhas.

Ouvindo a música, você completará as lacunas deixadas pelas supressões.

Para terminar em trova:

 

Para o estoico, a virtude

stá ligada à decisão

de alguém que nunca se ilude

quanto ao papel da razão.

 

* ABL, AJL, LEIAJF, UBPA, UBT

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