Pauta em prosa, verso em trova (volume 92)

Por JGHeleno*

 

Não é comum o autor criticar sua própria obra. Isso tem uma explicação. Uma das principais maracas da arte é a liberdade. Assim como o autor tem a liberdade de expressão, o leitor também tem sua liberdade, que é a liberdade de interpretação. Uma vez tornada pública a obra, a relação do autor com a obra é uma relação de autoria. A interpretação que o autor dá à sua obra não tem maior validade do que a interpretação dada por qualquer outro leitor.

Mas o que eu queria chamar atenção é sobre um fenômeno comum na arte, que é a intertextualidade. Isso significa que, no texto que o autor produz se cruzam muitos outros textos, textos de outros escritores como ele, que foram lidos por ele. Às vezes essa intertextualidade é explicitada, como, neste caso, a referência à canção “Chalana” (Composição: Arlindo Pinto / Mario Zan), mas na maioria das vezes, essa intertextualidade não é mostrada e às vezes nem mesmo reconhecida. Porque os textos que influem na hora da escrita já estão incorporados ao universo de quem escreve, e sua influência se reflete espontaneamente.

 

CLAREIA, LUAR!

 

Eu descia correndo a escada da frente na casa da minha  avó. “Clareia, luar, clareia bem…” Os ecos se espalhavam na direção do mato, morro-cima, para além do córrego, galgando barrancos, seguindo a estrada… melodia de paz religiosa, cavando fundo os peitos das crianças. Dirigida a nenhum deus, mas aos próprios peitos deles, virgens de desejos além dos momentâneos. Havia algo além das mãos que se cruzavam, se apertavam enquanto a roda infantil girava em torno de algum eixo imaginado. O coqueirinho da frente da casa oferecia suas folhas balouçantes a se projetarem no chão à luz da lua. Quando chegavam as filhas do tio Benjamim, tudo mudava. Para estar com elas, não sei de onde vinha para casa de Mãe Aninha tanto neto. As meninas eram mais velhas do que qualquer um de nós, porque tinham corpo em flor, rostos espertos, energia em cascatas se derramando sobre aqueles meninos encantados. Hoje ele se assusta. De algum lugar lhe vem ainda aquela cantoria, imaginada morta há muito tempo. E se aloja em seus ouvidos, ou peito, ou coração: “Clareia, luar/ Clareia bem./ Clareia este salão/ que a morena envém”. O bem se foi, o salão ruiu, a morena envelheceu. Só o luar é o mesmo. Ele não se arrepende de lembrar desse primeiro canto que cantou, na substituição das cantigas de ninar. Porcelanatos agora entram no lugar do terreiro dos bichos-de-pé e das cobras beiradeiras. A lua, no entanto, é a mesma, e o assiste no refrão de há tempos, para continuar a cantoria:  “Lá no céu/ tem três estrelas./Todas três em carreirinha:/ uma é minha, outra é sua/ Outra é da Mariazinha”. O refrão deve continuar:  Clareia luar …. chalana esquecida levada no rio do tempo.

 

 

Para terminar em trova:

 

 

 

Textos que escrevo se formam

no entrecruzar de universos

de autores que a mim retornam

lidos em tempos diversos.

 

*ABL, AJL, LEIAJF, UBPA, UBT

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