Pauta em prosa, verso em trova (volume 85)

JGHeleno*

 

Há perguntas inquietantes para o homem desde sempre: o que somos? Donde viemos? Para onde vamos? A resposta a essas perguntas é muito importante para o sentido da vida. Cada civilização tem seus mitos que tentam respondê-las. Eu poderia evocar os gregos, com Prometeu e outras personagens míticas, mas prefiro buscar um livro que está na base da nossa civilização judaico-cristã. Essa escolha pelo livro do Gênesis também não é tão excludente assim, quando consideramos a região onde surgiu. Gregos, judeus e outras civilizações buscaram suas inspirações em fontes semelhantes, por isso não é de se espantar quando se lê a história do dilúvio em outras culturas. Quando falo aqui de mito, não se assuste. Mito não é sinônimo de paganismo, aqui não é uma palavra para designar deuses ou heróis pagãos. Mito não significa falsidade nem mentira. Mito é uma narrativa simbólica. São conhecidos o mito de Édipo, o mito de Prometeu, o mito de Electra, todos eles contendo a tentativa de responder a inquietações humanas. Se falo que o livro do Gênesis contém o mito da criação, não estou dizendo que o livro do Gênesis é uma falsidade. Estou apenas afirmando que ele contém uma narrativa simbólica para explicar a origem do homem. Não há aí nenhuma afirmação quanto à veracidade ou não de seu conteúdo, e nem um posicionamento religioso.

Uma vez definida a questão do mito (o que significa um mito), escrevo um pouco sobre a criação. O mundo é uma grande incógnita. O homem criou a linguagem (O gênesis afirma que o Criador mandou que o homem desse nome às coisas) a partir da experiência de sua vivência no mundo. E os parâmetros para essa criação se encontram nas experiências e nos desafios que o mundo lhe coloca em seu dia a dia. Descobriu a força da gravidade observando que qualquer coisa sem apoio cai; as coisas se movem: descobriu e deu nome à velocidade; não só as coisas externas, mas também os seres vivos se movem internamente: descobre e dá nome ao envelhecimento; as plantas nascem de uma semente e um dia encontram seu fim: descobriu e deu nome ao nascimento e à morte. Assim, o mundo e tudo que há dentro dele foram sendo nomeados a partir de tudo que há dentro dele. Quando o que há dentro do mundo não é suficiente para dar certas explicações, como por exemplo, quando e como surgiu o mundo? Dentro do mundo, quando e como surgiram os seres vivos, inclusive o homem? Ante esse desafio, o homem  procura explicação em algum Ente poderoso que tenha mais poder do que o próprio mundo e vê o mundo a partir de fora dele. É quando o homem elege a Revelação divina, e a existência de um Deus todo poderoso. Isso não é afirmar (ou negar) que a questão de Deus é uma simples invenção humana para explicar o que ele não consegue explicar. Os ateus pensam que sim, que é pura invenção, mas os teístas acreditam que não é pura invenção. Entre os teístas, há muitas concepções de Deus (Deus previdente, Deus natureza, Deus energia, Deus pensamento, Deus indivíduo…).

Aqui, embora reconheça explicitamente que o culto a um Deus é essencial para muitos, que só pela crença veem sentido no mundo, eu estou tratando de arte e de literatura. E a marca essencial da arte e da literatura é a tolerância às crenças ou descrenças dos outros. Mais do que tolerância, é o reconhecimento a cada um o direito de ler o mundo como lhe parece melhor. Para mim, isso é o ponto mais alto da arte.  (JGHeleno)

 

 

Como tudo acaba em trova:

 

Nessa nossa vida errática

os meus temores ou os teus

não buscam na matemática

qualquer certeza de um deus.

 

 

 

 

*AJL, ABL, LEIAJF, UBT

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