Pauta em prosa, verso em trova (volume 81)

JGHeleno*

UNIVERSOS

Quando eu vejo uma flor, na minha mente forma-se a imagem dessa flor. A imagem dessa flor específica vai até meu cérebro onde encontra a imagem de um protótipo de flor já formada ali pelo meu conhecimento anterior. Esse protótipo de flor que está ali é meio fluido, mas contém todas as características que se podem encontrar em qualquer flor. Para designar aquele objeto como uma flor, eu desprezo todas as suas marcas acidentais e me concentro apenas nas marcas que são indispensáveis para se dizer que aquele objeto é uma flor. Quando fica decidido que essa flor é uma rosa, por exemplo, é como se uma imagem mal focada da flor agora adquirisse a nitidez de uma focagem completa, que me permite até dizer que se trata de uma flor que é uma rosa.  Mas a minha mente não é um lugar vazio. Ao contrário, é habitada por muitas outras imagens de muitos outros objetos, muitos dos quais associáveis a flor, por sua própria natureza, como, arbusto, espinho, perfumes, cores, folhas. Outros objetos são associáveis a flor pela criatividade humana: jardim, festa, jarra, buquê. Na minha mente há também sentimentos, como amor, amizade, recordações, preferências, alegria, tristeza, saudade, e uma série de valores com que avalio as coisas. Essa imagem de flor, portanto, que existe na minha mente, não existe limpa de todas as circunstâncias que habitam a minha mente; ela não existe desligada das outras ideias que lá estão. Para mim, flor pode estar ligada principalmente a alegria, a comemorações. Para outro, flor pode estar ligada principalmente a tristeza, a velório. Para outro ainda, pode estar ligada a cultivo, a plantio. E assim, todas as palavras da minha mente e da mente de qualquer pessoa, existem entrelaçadas entre si e ligadas a um número incalculável de valores, representações e  sentimentos.  Esses entrelaçamentos preexistentes constituem o universo de cada um. E tudo o que vemos no mundo, tudo o que escrevemos, falamos, ou lemos, expressamos como participantes desse universo. Então, uma flor para mim não é exatamente a mesma flor falada ou lida ou imaginada por outra pessoa, porque ela está carregada de tudo aquilo que constitui o universo particular de cada um. Por tudo isto, a leitura de um poema é sempre a recriação desse poema. Quando o autor cria um poema, ele o faz dentro do seu universo particular. Ler o poema será traduzi-lo para o universo do leitor. O poema não é incompreensível porque, por mais que os universos de autor e leitor sejam próprios, particulares, há neles também elementos comuns. Essas noções importam muito à arte literária.

 

Como tudo acaba em trova:

 

 

Denominar todo o mundo

é possível quando a mente,

em seu realizar profundo,

junta o que vê ao que sente.

 

*ABL, AJL, UBT

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