Pauta em prosa, verso em trova (volume 78)

Por JGHeleno*

Quando fiz o poema UM HERÓI, eu estava tomado de intenso sentimento de saudade e tristeza pela perda de um ente querido. Eu queria expressar esse meu estado, mas não simplesmente pelo choro. Fui, então, buscar inspiração num poema que falasse poeticamente da perda pela morte. E o encontrei em Angelus Politianus (1454 e 1494 d. C), num poema cujo tema é a morte de Lourenço de Médicis  (Anthologie de la poésie lyrique latine de la Renaissance. Paris: Gallimard, 2004, p. 87). Não fiz uma simples tradução (longe disso), nem resumo, nem interpretação. Não sei se é um grande poema, mas tenho certeza de que ele é original. Estou cumprindo o que prometi há uma semana no último PAUTA EM PROSA VRSO EM TROVA.

 

 

UM HERÓI

JGHeleno*

 

 

Viajante Inesperado,

não há quem sobre as faces

reponha a água que esses olhos choram,

e esgote a sua fonte.

 

Improvisado herói,

ninguém enxugará

tudo o que nos olhos dói

e o sofrer que o imo infesta.

 

 

Herói ausente,

para que à noite o silêncio chore,

de dia, o sabiá de setembro

module o canto que ficou de julho.

 

Recordado herói,

pássaro frágil capturado

em garras de rapina

que agora planta-dor

 

É como o “peixe-frito”

passarinho aos gritos pela noite insone

ante a companheira atropelada

chora seu par agonizante…

 

Solidão de dor! De abandono!

eis seu fã prostrado

por nocaute e quase louco

de um “cruzado” imprevisível.

 

Pequeno príncipe, precioso herói,

flutuante ave leve,

doce como a sede morta

suave penugem do pêssego

 

Infantil  e passageiro herói

lúdica dança das folhas

da primavera a alegria farta,

viçosa flor deste jardim

 

Menino herói, o mais amável,

maleável, doce como  a jataí

sacro olhar, nato da selva

viva imaculada fonte que não jorra

 

Predestinado e sublimado herói

cabelos tenros como os de Cupido

ou do Baco livre e tão juvenil

que se fez meu neto no amor profundo

 

Estimado herói na pressa da partida

a quem contemplar já não se pode,

pai maior inconsolável triste,

vago sozinho a imaginá-lo aqui.

 

Curumim, herói distante

para louvores ora sem ouvidos.

no abrigo das Ninfas e das Musas,

à sombra das imperdoáveis Parcas,

 

Calado infante, infante mouco,

nem suavemente soa sua voz

no dia mudo a que tudo cala

no dia surdo que é a tudo alheio

 

Como desviar das pálpebras a água

secar os olhos, engolir o canto

inusitar o pranto

esfacelar o desencanto? (JGHeleno)

 

 

Como tudo termina em trova:

 

Nato de mim, neo-herói,

quem, de sob a minha testa,

vai colher a água que sói

marcar a dor manifesta?

 

  • ABL, AJL, UBT

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