Pauta em prosa, verso em trova (volume 77)

Por JGHeleno*

 

 

 

Há, com certeza, muitos processos na prática da criação literária. Todo processo de criação é precedido de estudos. Pode ser um estudo planejado para criação de uma obra específica, ou pode ser um estudo geral, que se faz nas leituras do escritor; pode ser ainda um estudo através da observação. As assimilações ocorridas no processo de criação e que brotam na poesia são chamadas de influência. Se um poeta aprecia determinado tipo de poesia, é natural que ele vá ler os poetas que produzem poemas nessa linha apreciada, e é natural também que em seus escritos este poeta vá reproduzir, pelo menos, parte do gosto e das técnicas de seus poetas preferidos, e assim, vai ser influenciado por eles.

A poesia não é um derramamento de sentimentos sem fundamento no saber. Nenhum tipo de arte se faz sem o uso de algum material. Assim como não se faz uma escultura sem a madeira, a pedra ou algo equivalente, da mesma forma não se faz poesia sem sua matéria, a linguagem. A escultura ou a pintura se fazem pela elaboração de seu material – a cor, a luz, a pedra ou a madeira, da mesma forma que a poesia só se faz pela elaboração de sua matéria que é a linguagem. Se o poeta fica apenas na língua como instrumento útil da comunicação, mesmo que ele derrame todos os seus sentimentos na fala ou na escrita, ele não passa de um chorão carente, ou de um motivador sentimental, ou de um provocador ousado. A linguagem, como matéria da arte literária, tem seus truques. Para fazer poemas inspirados é mister conhecer os seus recursos, o que se consegue, especialmente, ao ler outros poetas. Como não há receitas para poesia, o único caminho para seu aprendizado é observar o que fazem os outros poetas, e isso acontece na leitura, em muita leitura.

Quando fiz um determinado poema, eu estava tomado de intenso sentimento de saudade e tristeza pela perda de um ente querido. Eu queria expressar esse meu estado, mas não simplesmente chorando e tentando levar meu leitor ao choro. Eu queria ir além, eu queria que não só eu falasse da minha tristeza, mas que a linguagem o fizesse por mim. Acredito que grandes poetas apenas torçam a chave para o modo poesia, e comecem a buscar em seu estoque poético os fartos recursos acumulados em anos de apreciações poéticas. Como eu não cheguei a esse estágio, fui buscar inspiração e ideias na poesia latina do Renascimento em algum poema que falasse da perda pela morte. Encontrei um poema de  Angelus Politianus, que viveu entre 1454 e 1494 d. C. cujo tema é a morte de Lourenço de Médicis  (Anthologie de la poésie lyrique latine de la Renaissance Paris: Gallimard, 2004, p. 87). Sem nenhuma convicção de que tenha feito um grande poema, eu o trarei apenas para ilustrar que não há receita para se fazer poesia. A única coisa certa é que o poeta tem que ler e sentir, e saber que a poesia nasce da elaboração poética da linguagem, e não do mero derramar de sentimentos pessoais. Além da visita a outros poetas, a experiência pode ser também uma forma de estudo, como veremos no poema que lhes mostrarei. Mas… só na próxima semana.

 

Como tudo termina em trova:

 

 

No relato, a emocionar-se

convida o seu criador

já o poeta é na catarse

que ele quer seu fruidor.

*AJL, ABL, UBT

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