Pauta em prosa, verso em trova (volume 71)

Por JGHeleno*

 

Vamos ouvir uma canção cujo tema é o mesmo do Timoneiro cantado por Paulinho da Viola: a relação dialética entre o “eu” individual e suas circunstâncias. Ao transcrever a letra, suprimi grande parte dela, por causa das repetições, e porque ao ouvi-la você tomará conhecimento de sua integralidade.

Deixa a Vida Me Levar

Fonte: Musixmatch

Compositores: Sergio Roberto Serafim / Erivaldo Severino Da Silva

 

Eu já passei por quase tudo nessa vida
Em matéria de guarida
Espero ainda a minha vez

Confesso que sou de origem pobre
Mas meu coração é nobre
Foi assim que Deus me fez

E deixa a vida me levar
Vida leva eu
Deixa a vida me levar
Vida leva eu

Deixa a vida me levar
Vida leva eu
Sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu

Só posso levantar as mãos pro céu
Agradecer e ser fiel
Ao destino que Deus me deu

Se não tenho tudo que preciso
Com o que tenho, vivo
De mansinho lá vou eu

Se a coisa não sai do jeito que eu quero
Também não me desespero
O negócio é deixar rolar

E aos trancos e barrancos lá vou eu
E sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu

Deixa a vida me levar…….

E aos trancos e barrancos lá vou eu
E sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu

Deixa a vida me levar
Vida leva eu
Deixa a vida me levar
Vida leva eu

Deixa a vida me levar
Vida leva eu
Sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu

 

 

 

Quanto ao trato do “eu” e minha circunstância de que fala José Ortega y Gasset, há alguma diferença aqui entre “Timoneiro” e “Deixa a vida me levar”. Em Timoneiro, há mais sutileza, mais indefinição nesse embate entre o “eu” e aquilo que o cerca, que pode ser lido como destino, circunstâncias, Deus, etc. Além disso, essas possibilidades são expressas, no Timoneiro,  quase sempre metaforicamente. “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”. Há, ainda, no “Timoneiro”, em relação a “Deixa a vida me levar”, um papel mais incisivo reservado ao indivíduo, o que fica bem claro na frase “o mar em torno do mar”. Estão no diálogo do Timoneiro os dois infinitos (ou universos), o infinito exterior (representado pelo mar ou por Deus) e o infinito interior do “eu”. Além disso, as metáforas abundantes em Timoneiro quebram a explicitude da circunstância, substituída quase sempre pela figura do mar.

Já na canção “Deixa a vida me levar”, esse diálogo entre os dois universos – o interior,  do “eu”; e o exterior, que os compositores representam por Deus, há claramente uma supremacia deste universo que está fora do “eu” , expresso o tempo todo pelo elemento religioso (Deus): “Foi assim que Deus me fez”, “Agradeço por tudo que Deus me deu”, “levantar as mãos pro céu/ agradecer e ser fiel/ ao destino que Deus me deu”; “agradeço por tudo que Deus me deu”. Frases como essas são repetidas durante toda a canção.

Uma pequena digressão: Todo sentido que a arte da linguagem traz na poesia, ou na literatura em geral, é criado no eixo que vai de um emissor (o artista criador, o cantor que executa, o poeta); até o destinatário (o leitor, o ouvinte, ao fruidor da arte), passando pelo texto. Esse sentido surge da expressão do emissor, do potencial significativo da linguagem, e da capacidade criativa do destinatário. Esses três elementos atuam em conjunto, não se podendo separar nenhum deles.

 

 

 

Como tudo termina em trova:

 

No viver dentro do mundo,

o “eu” não está na exclusão,

mas no entrelaçar profundo

quer ativo ou em submissão.

 

 

*ABL, AJL, UBT

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