Pauta em prosa, verso em trova (volume 67)

JGHeleno*

 

Vou convidar você para ouvir a canção abaixo executada pelos Paralamas do Sucesso, composição de Felipe de Nóbrega B. Ribeiro, Herbert Vianna e João Alberto Barone Silva. Como tenho feito, eliminei da letra parte dos trechos repetidos. Forma que encontrei para enxugar o poema das exigências da composição musical. Com a audição você apreciará o poema completo.

 

Todo dia
O sol da manhã vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo
Quem já não queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia,

E a cidade
Que tem braços abertos num cartão postal
Com os punhos fechados da vida real
Lhe nega oportunidades
Mostra a face dura do mal,

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
Mas a arte é de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte é de quê?
É de viver da fé (é de quê?)
É de viver da fé

Fonte: LyricFind

O tema desta canção de Paralamas do Sucesso é semelhante ao da canção de Gilberto Gil, que analisamos no último PAUTA EM PROSA VERSO EM TROVA. Ambas falam da fé. A primeira – Andar com fé – de Gilberto Gil foca a fé, especialmente como crença em alguma coisa, como guia que preside a construção dos sentidos que nós damos às nossas ações, e à vida em geral. Essa fé, celebrada por Gil, foca a motivação para o viver, para criar sentidos.

A arte é um dos instrumentos mais importantes nessa questão de construir sentidos a partir de coisas simples do dia a dia. Essas coisas cujo sentido parece esgotar-se em seu aspecto utilitarista e invisível por não nos chamarem atenção, adquirem, pela arte, novos sentidos.

A canção dos Paralamas também fala de fé, como a canção de Gilberto Gil, mas o faz de forma protestativa, contestadora. A canção aqui fala dos sentidos idealizados, que a cidade oferece como possibilidades, mas os nega como realidade, principalmente àqueles  que  procuram a cidade por já estarem cansados da vida em palafitas, trapiches e farrapos.

“E a cidade que tem braços abertos num cartão postal, (tem) os punhos fechados da vida real, (e) lhe nega oportunidades”.

A fé nesta canção dos Paralamas designa um esperança ingênua de que um dia esses migrantes para a cidade chamativa serão abraçados pela cidade do cartão postal de braços abertos. Esperança  inútil porque  o atendimento às expectativas alimentadas pelo cartão postal nunca virá simplesmente do mar, nem das antenas de TV.

 

Como tudo termina em trova:

 

Ninguém precisa “pensar”;

para quê, se há TV?

Basta só executar,

e ser um asno que crê.

 

*ABL, AJL, UBT.

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